Page 53 - SIM 315
P. 53

REPORTAGEM SOCIAL


                                                                                         que a dignidade humana é condicional, deixando,
                                                                                         a certa altura, de ser segura para todos”, conclui
                                                                                         Catarina Santos.
                                                                                         A mudança social começa em cada um de nós.
                                                                                         A próxima vez que vir uma pessoa em situação
                                                                                         de sem-abrigo, lembre-se: não é um “sem-abri-
                                                                                         go”, é uma pessoa a passar por essa situação.
                                                                                         Em Braga, quando a comunidade compreende e
                                                                                         se mobiliza, o sem-abrigo deixa de ser um destino e
                                                                                         passa a ser uma realidade possível de transformar.
                                                                                         A transformação começa quando trocamos o pre-
                                                                                         conceito por um olhar de compreensão ou até um
                                                                                         “Olá, bom dia.”



                                                                                           DE BOMBEIRO SAPADOR À CULPA
                                                                                           O Miguel chefiava uma equipa de bombei-
                                                                                           ros. Uma decisão sua durante um incêndio
                                                                                           quase custou a vida à sua equipa, cercada
                                                                                           pelo fogo foi resgatada por um helicópte-
                                     Catarina Santos                                       ro. O trauma arrasou-o. Perdeu a carreira
                                                                                           e caiu no álcool, a única forma de silenciar
               Dignidade nos gestos (quase) invisíveis  contínuo,  colocando  a  estabilidade habitacional   a memória da culpa. A rua foi o fim desse
                                                    no centro do processo de recuperação pessoal e   desvio. Encontrado pela EISD, iniciou um
               Para além do alojamento, a Cruz Vermelha dis-  social.                      lento caminho no acolhimento. Hoje, num
               ponibiliza serviços básicos essenciais, frequente-                          apartamento, lida com a culpa, mas de um
               mente invisíveis, mas determinantes para a dig-  A expansão desta resposta esbarra na falta de   novo  lugar: “Aqui  não  sou  o  homem  que
               nidade. Ter onde tomar banho, lavar a roupa ou   habitação, pelo que  a Cruz Vermelha apela ao   falhou. Sou o homem que se está a levan-
               guardar os seus únicos pertences em segurança   envolvimento  da  comunidade,  Empresas,  me-  tar.”
               não é um pormenor: é uma condição básica de   cenas e entidades que possam ceder ou apoiar
               cidadania.  O acesso a balneários, lavandaria e   a aquisição de casas. Cada casa disponível é uma
               cacifos individuais preserva a  identidade e a   oportunidade concreta de recomeço.
               autoestima, criando as condições mínimas para   Dependências: compreender para intervir  A PROFESSORA E O REFÚGIO
               olhar para o futuro.                                                        A Sofia licenciada com mestrado em Por-
                                                    Contrariamente ao senso comum, as dependên-
               Housing First: quando a casa vem primeiro  cias raramente são a causa inicial da situação de   tuguês, Latim e Grego, chegou a lecionar
                                                                                           num dos liceus conhecido em Braga. A sua
               Este modelo parte de um princípio humano: sem   sem-abrigo.  Muitas  vezes surgem  após  a  rutura   vida marcada por anos de violência domés-
               casa, não há inclusão possível.      habitacional, como resposta ao trauma e à exclu-  tica, desfez-se. Passou por uma casa abri-
                                                    são. Compreender esta sequência é essencial para   go e daqui para a rua. Foi a vida na rua que
               Ter uma chave, um endereço e um espaço pró-  construir respostas eficazes e humanas.  lhe provocou uma doença pulmonar grave,
               prio representa muito mais do que um teto: é a                              agravando a sua vulnerabilidade. Isolada e
               base para reorganizar a vida, recuperar a privaci-  Um compromisso coletivo com a dignidade in-  doente, foi a ER que a encontrou e cons-
               dade e voltar a projetar o futuro.   condicional                            truiu  uma  ponte de  confiança.  Encontra
               Um dos pilares mais transformadores da interven-  A intervenção em Braga demonstra que o com-  agora um porto seguro no CAT. O caminho
               ção é o modelo Housing First, que garante o aces-  bate à situação de sem-abrigo exige mais do que   é de recuperação física e de reconstrução
               so imediato a habitação digna, T0 ou T1, integrada   emergência: exige soluções estruturais que res-  interior. “Agora, preciso de silêncio e de um
               na comunidade, com acompanhamento técnico   taurem a dignidade.  “Qualquer sociedade que   lugar seguro para me voltar a encontrar.”
                                                    normalize pessoas a viver na rua está a assumir






















               #SIMatuaREVISTA                                 FEVEREIRO · 2026                                          53
   48   49   50   51   52   53   54   55   56   57   58