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REPORTAGEM SOCIAL
que a dignidade humana é condicional, deixando,
a certa altura, de ser segura para todos”, conclui
Catarina Santos.
A mudança social começa em cada um de nós.
A próxima vez que vir uma pessoa em situação
de sem-abrigo, lembre-se: não é um “sem-abri-
go”, é uma pessoa a passar por essa situação.
Em Braga, quando a comunidade compreende e
se mobiliza, o sem-abrigo deixa de ser um destino e
passa a ser uma realidade possível de transformar.
A transformação começa quando trocamos o pre-
conceito por um olhar de compreensão ou até um
“Olá, bom dia.”
DE BOMBEIRO SAPADOR À CULPA
O Miguel chefiava uma equipa de bombei-
ros. Uma decisão sua durante um incêndio
quase custou a vida à sua equipa, cercada
pelo fogo foi resgatada por um helicópte-
Catarina Santos ro. O trauma arrasou-o. Perdeu a carreira
e caiu no álcool, a única forma de silenciar
Dignidade nos gestos (quase) invisíveis contínuo, colocando a estabilidade habitacional a memória da culpa. A rua foi o fim desse
no centro do processo de recuperação pessoal e desvio. Encontrado pela EISD, iniciou um
Para além do alojamento, a Cruz Vermelha dis- social. lento caminho no acolhimento. Hoje, num
ponibiliza serviços básicos essenciais, frequente- apartamento, lida com a culpa, mas de um
mente invisíveis, mas determinantes para a dig- A expansão desta resposta esbarra na falta de novo lugar: “Aqui não sou o homem que
nidade. Ter onde tomar banho, lavar a roupa ou habitação, pelo que a Cruz Vermelha apela ao falhou. Sou o homem que se está a levan-
guardar os seus únicos pertences em segurança envolvimento da comunidade, Empresas, me- tar.”
não é um pormenor: é uma condição básica de cenas e entidades que possam ceder ou apoiar
cidadania. O acesso a balneários, lavandaria e a aquisição de casas. Cada casa disponível é uma
cacifos individuais preserva a identidade e a oportunidade concreta de recomeço.
autoestima, criando as condições mínimas para Dependências: compreender para intervir A PROFESSORA E O REFÚGIO
olhar para o futuro. A Sofia licenciada com mestrado em Por-
Contrariamente ao senso comum, as dependên-
Housing First: quando a casa vem primeiro cias raramente são a causa inicial da situação de tuguês, Latim e Grego, chegou a lecionar
num dos liceus conhecido em Braga. A sua
Este modelo parte de um princípio humano: sem sem-abrigo. Muitas vezes surgem após a rutura vida marcada por anos de violência domés-
casa, não há inclusão possível. habitacional, como resposta ao trauma e à exclu- tica, desfez-se. Passou por uma casa abri-
são. Compreender esta sequência é essencial para go e daqui para a rua. Foi a vida na rua que
Ter uma chave, um endereço e um espaço pró- construir respostas eficazes e humanas. lhe provocou uma doença pulmonar grave,
prio representa muito mais do que um teto: é a agravando a sua vulnerabilidade. Isolada e
base para reorganizar a vida, recuperar a privaci- Um compromisso coletivo com a dignidade in- doente, foi a ER que a encontrou e cons-
dade e voltar a projetar o futuro. condicional truiu uma ponte de confiança. Encontra
Um dos pilares mais transformadores da interven- A intervenção em Braga demonstra que o com- agora um porto seguro no CAT. O caminho
ção é o modelo Housing First, que garante o aces- bate à situação de sem-abrigo exige mais do que é de recuperação física e de reconstrução
so imediato a habitação digna, T0 ou T1, integrada emergência: exige soluções estruturais que res- interior. “Agora, preciso de silêncio e de um
na comunidade, com acompanhamento técnico taurem a dignidade. “Qualquer sociedade que lugar seguro para me voltar a encontrar.”
normalize pessoas a viver na rua está a assumir
#SIMatuaREVISTA FEVEREIRO · 2026 53

