Page 52 - SIM 315
P. 52

REPORTAGEM SOCIAL                                                                                                                       REPORTAGEM SOCIAL

                                       BRAGA: RESPOSTAS

                                       QUE DEVOLVEM DIGNIDADE


                         I            magine perder tudo: o emprego, o apoio      querem mudar”, e acrescenta: “É uma narrativa confor-
                                       “Sem Abrigo”: Pode acontecer a qualquer um de nós.



                                                                                  tável para a sociedade, que assim coloca a responsa-
                                      da  família,  a  saúde.  Agora  imagine  per-
                                                                                  bilidade exclusivamente sobre o indivíduo, em vez de
                                      der também o seu endereço, o lugar onde
                                                                                  assumir  as falhas  do  sistema.”  Esta perceção errónea
                                      toma banho e guarda as suas fotografias. A
                                                                                  não só estigmatiza, como condiciona  toda  a  interven-
                                      situação de sem-abrigo começa assim, não
                                                                                  ção, podendo gerar um ciclo de desesperança. O cami-
                                      como uma escolha, mas como uma queda
                                                                                  em perguntarmo-nos “Onde falhou a sociedade com
                                      que nenhuma rede conseguiu amortecer.
                                                                                  esta pessoa?”, em vez de insistirmos apenas em “Onde
                                                                                  falhou esta pessoa?”.
                                      Falar de pessoas em situação de sem-abrigo é falar de   nho para a inclusão começa precisamente no oposto:
                                      vulnerabilidade  social,  não  de  identidade.  Não  é  um
                                      traço de caráter mas uma condição frequentemente   Uma resposta integrada na cidade
                                      transitória, marcada pela ausência de habitação estável,   A  intervenção  da  Cruz  Vermelha  constrói-se  através
                                      resultante da conjugação de fatores como desempre-  de  uma  rede  articulada  de  respostas,  que  vai  do  pri-
                                      go, precariedade, ruturas familiares, doença ou falta de   meiro contacto na rua até à chave de um apartamento.
                                      respostas habitacionais acessíveis. É uma condição que   Uma Equipa de Rua (ER) estabelece o primeiro elo de
                                      pode atingir qualquer pessoa, quando as suas redes de   confiança no espaço público, assegurando apoio ime-
                                      proteção falham.
                                                                                  diato  e  escuta.  O  trabalho  é  continuado  pela  Equipa
                                      Esta perspetiva é a pedra basilar para combater o estig-  de  Intervenção  Social  Direta  (EISD), que promove
                                      ma. Em Braga, esse trabalho é desenvolvido diariamente   competências e autonomia. Para quem precisa de um
                                      pela Cruz Vermelha Portuguesa – Delegação de Braga,   porto seguro,  o  Centro de Alojamento Temporário
                                      através da sua Área de Emergência Social, que acompa-  (CAT)  e o  Centro de Acolhimento de Emergência
                                      nha atualmente 240 beneficiários. Por trás deste nú-  Social (CAES) oferecem acolhimento, camas e apoio
                                      mero, há histórias de perda e de reconstrução.  psicossocial. A Cantina Social combate a insegurança
                                                                                  alimentar e é, ela própria, um espaço vital de acolhi-
                                      Para Catarina Santos, Diretora Técnica da Intervenção   mento e relação humana. Um ponto alto deste percurso
                                      “O maior mito é acreditar que as pessoas estão nesta   é o modelo Housing  First    e  Apartamentos  Partilha-
               Eva Pereira            situação por preguiça, falhas pessoais ou porque não   dos, que coloca a casa no centro de tudo.










































               52                                              FEVEREIRO · 2026                              #SIMatuaREVISTA
   47   48   49   50   51   52   53   54   55   56   57