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REPORTAGEM SOCIAL REPORTAGEM SOCIAL
BRAGA: RESPOSTAS
QUE DEVOLVEM DIGNIDADE
I magine perder tudo: o emprego, o apoio querem mudar”, e acrescenta: “É uma narrativa confor-
“Sem Abrigo”: Pode acontecer a qualquer um de nós.
tável para a sociedade, que assim coloca a responsa-
da família, a saúde. Agora imagine per-
bilidade exclusivamente sobre o indivíduo, em vez de
der também o seu endereço, o lugar onde
assumir as falhas do sistema.” Esta perceção errónea
toma banho e guarda as suas fotografias. A
não só estigmatiza, como condiciona toda a interven-
situação de sem-abrigo começa assim, não
ção, podendo gerar um ciclo de desesperança. O cami-
como uma escolha, mas como uma queda
em perguntarmo-nos “Onde falhou a sociedade com
que nenhuma rede conseguiu amortecer.
esta pessoa?”, em vez de insistirmos apenas em “Onde
falhou esta pessoa?”.
Falar de pessoas em situação de sem-abrigo é falar de nho para a inclusão começa precisamente no oposto:
vulnerabilidade social, não de identidade. Não é um
traço de caráter mas uma condição frequentemente Uma resposta integrada na cidade
transitória, marcada pela ausência de habitação estável, A intervenção da Cruz Vermelha constrói-se através
resultante da conjugação de fatores como desempre- de uma rede articulada de respostas, que vai do pri-
go, precariedade, ruturas familiares, doença ou falta de meiro contacto na rua até à chave de um apartamento.
respostas habitacionais acessíveis. É uma condição que Uma Equipa de Rua (ER) estabelece o primeiro elo de
pode atingir qualquer pessoa, quando as suas redes de confiança no espaço público, assegurando apoio ime-
proteção falham.
diato e escuta. O trabalho é continuado pela Equipa
Esta perspetiva é a pedra basilar para combater o estig- de Intervenção Social Direta (EISD), que promove
ma. Em Braga, esse trabalho é desenvolvido diariamente competências e autonomia. Para quem precisa de um
pela Cruz Vermelha Portuguesa – Delegação de Braga, porto seguro, o Centro de Alojamento Temporário
através da sua Área de Emergência Social, que acompa- (CAT) e o Centro de Acolhimento de Emergência
nha atualmente 240 beneficiários. Por trás deste nú- Social (CAES) oferecem acolhimento, camas e apoio
mero, há histórias de perda e de reconstrução. psicossocial. A Cantina Social combate a insegurança
alimentar e é, ela própria, um espaço vital de acolhi-
Para Catarina Santos, Diretora Técnica da Intervenção mento e relação humana. Um ponto alto deste percurso
“O maior mito é acreditar que as pessoas estão nesta é o modelo Housing First e Apartamentos Partilha-
Eva Pereira situação por preguiça, falhas pessoais ou porque não dos, que coloca a casa no centro de tudo.
52 FEVEREIRO · 2026 #SIMatuaREVISTA

