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JUSTIÇA
                                       QUANDO DESLIGAR


                                       É UM DIREITO
               C                       urante muito tempo, o fim do dia de trabalho e os   que trouxe abriu portas que antes estavam fecha-




                                                                                  das. Sem essas barreiras físicas, o trabalho tende a
                                       intervalos eram marcados por um gesto simples:
                                       desligar. Era o muro invisível que separava a pro-
                                                                                  infiltrar-se como água: nos passeios, nas leituras e
                                       dução da vida que nos pertence, uma linha que
                                                                                  nos momentos que antes eram só nossos. O direito
                                       organizava  o tempo  e dava  nome ao  descanso.
                                                                                  à desconexão revela-se o guardião do lado huma-
                                       Hoje, esse muro desapareceu. O trabalho já não
                                                                                  no: garante o espaço para ser pai ou mãe, amigo ou
                                       tem morada fixa. Cabe no bolso, vibra a qualquer
                                       hora, atravessa conversas e invade silêncios que
                                                                                  tir sem a pressão da resposta imediata.
                                       antes eram só nossos. Perguntamo-nos: quando
                                                                                  A lei admite exceções para situações de força maior,
                                       termina o trabalho, afinal? Como distinguir o que   companheiro. É o intervalo vital para respirar e exis-
                                       é nosso do que nos é imposto pelo ritmo constan-  mas estas não devem servir de máscara para urgên-
                                       te das notificações e das reuniões virtuais?  cias  recorrentes, nem  para  o envio  de  e-mails  ou
                                                                                  mensagens que atravessam o muro por mero hábito
                                       Em Portugal, esta já não é apenas uma reflexão: é   ou cultura da disponibilidade, desrespeitando inter-
                                       lei. Desde 1 de janeiro de 2022, com a entrada em   valos e tempos de pausa.
                                       vigor  da  Lei  n.º 83/2021,  o direito à desconexão
                                       lembra que o descanso não é uma concessão, mas   A hiperconectividade não nos torna mais produti-
                                       uma condição essencial de quem trabalha. O artigo   vos,  torna-nos  mais  exaustos.  Burnout,  ansiedade
                                       199.º-A, n.º 1, do Código do Trabalho, consagra esse   crónica e exaustão emocional são as faturas silen-
                                       direito, estabelecendo  que o empregador  deve   ciosas de um mundo em que desligar parece impos-
                                       abster-se de contactar o trabalhador no seu perío-  sível.
                                       do de descanso. A violação deste direito constitui   Num mundo que nunca se cala, desligar tornou-se
                                       contraordenação  grave,  reforçando  que  proteger   um  gesto  quase  ousado.  Portugal,  ao  reconhecer
                                       o tempo de descanso não é apenas uma recomen-  este direito, lembrou algo fundamental: o progresso
                                       dação ética, mas uma obrigação legal. Não se trata   não se mede pela velocidade das respostas digitais,
                                       apenas de não enviar mensagens, e-mails ou fazer   mas pela qualidade da vida que sobra quando o tra-
                                       telefonemas; trata-se de impedir que a esfera pro-  balho termina. Sem silêncio, não há descanso, e sem
                                       fissional invada a vida pessoal do trabalhador. Des-  descanso,  não  há  criatividade  nem  produtividade
                                       cansar  não  é luxo  nem  favor:  é uma  necessidade   sustentável. Aprender a deixar repousar o telefone e
                                       biológica e ética.
                                                                                  a proteger o tempo que nos pertence é a verdadeira
                                       Esta norma surge como resposta à erosão das nos-  revolução silenciosa do nosso século. A escolha de
               Eugénia Soares          sas fronteiras pessoais. Se é verdade que o teletra-  desligar é o primeiro passo para retomarmos a pos-
               ADVOGADA
                                       balho não está na origem desta erosão, a liberdade   se da nossa própria existência. 


































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