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CRÓNICA SAÚDE
Fé em Tempos de Quaresma
E stamos na Quaresma e o mundo parece viver em E é nesse silêncio que começam a emergir as verdades
permanente estado de urgência. Tudo corre, tudo
que tantas vezes ignorámos, a culpa que escondemos,
a dor que normalizámos, a solidão que disfarçámos de
exige, tudo pressiona, tudo consome. As notícias
independência, a tristeza que mascarámos com ocu-
sucedem-se como golpes diários, com guerras, ca-
pação constante. A fé nasce aí, não na força, mas na fra-
lamidades, crises, medo, divisão, indiferença. Há um
cansaço coletivo no ar, um esgotamento que não se
gilidade, não no controlo, mas na entrega, não na cer-
mede em horas de sono, mas em esperanças perdi-
das, um cansaço da alma que não se resolve com su-
A Quaresma recorda-nos que não há ressurreição sem
plementos ou férias. E, no meio deste ruído global,
cruz, nem Páscoa sem noite, nem luz sem escuridão.
que a Quaresma surge em contraciclo: silenciosa, teza, mas na confiança que persiste apesar das dúvidas.
Não é apenas teologia, é vida. O mundo atravessa as
lenta, quase incómoda, como quem pede aquilo que suas noites, a humanidade carrega as suas cruzes, e
o mundo já não sabe dar, pausa.
cada um de nós enfrenta os seus abismos interiores.
Enquanto tudo grita por respostas rápidas, a Quaresma Acreditar não é negar a realidade, é escolher atraves-
convida à escuta. Enquanto o mundo nos empurra para sá-la com sentido. É decidir não endurecer num mun-
fora, ela chama-nos para dentro das nossas fragilida- do que endurece. É optar por amar e por praticar a em-
des, dos nossos medos, das contradições que evitamos patia num tempo que ensina a desconfiar e normalizou
enfrentar e das feridas que deixámos por sarar. Não há a indiferença.
conforto fácil neste caminho. A fé, neste tempo, não
é anestesia, é consciência. Não é fuga, é confronto. É Talvez por isso a Quaresma não seja apenas para os
olhar para o que somos sem filtros, sem máscaras, sem crentes. Falar de silêncio, de transformação interior, de
distrações. reconciliação, de responsabilidade, de cuidado e de
consciência é falar de humanidade. É um convite uni-
Vivemos numa era de excesso de informação, de opi- versal à reconstrução interior num mundo que parece
niões, de estímulos, de comparação constante. Somos fragmentar-se. A fé verdadeira não se exibe, vive-se.
chamados a reagir a tudo, a posicionar-nos sobre tudo, Não se impõe, testemunha-se. Está no perdão que
a produzir sempre mais. Estamos permanentemente custa, na escuta que exige tempo, no gesto que não es-
ligados, mas tantas vezes desligados de nós próprios. pera reconhecimento, no cuidado discreto, na presen-
É nesse contraste que a Quaresma se apresenta como ça que sustenta, no amor que não faz barulho.
resistência interior.
Enquanto tudo corre, a Quaresma ensina-nos a cami-
Jejuar, nesta Quaresma, pode significar muito mais do nhar com intenção. Enquanto tudo dispersa, ela cha-
que abdicar de alimento. Pode ser jejuar da crítica fácil, ma-nos ao recolhimento. Enquanto tudo fragmenta,
do julgamento precipitado, do consumo impulsivo, do ela reconstrói. Mesmo no meio do caos, há uma pro-
tempo perdido em distrações que nos afastam do es- messa silenciosa que permanece, a que a luz não desa-
sencial. É escolher conscientemente o que nos alimen- pareceu, apenas espera espaço para reacender. Muitas
ta e aquilo que apenas nos esvazia. É aprender a filtrar vezes, esse espaço começa num único coração dispos-
palavras antes de as dizer, a conter reações antes de as to a mudar.
publicar, a optar pelo silêncio onde antes haveria ruído. Cada escolha constrói. Cada silêncio ilumina. E cada
É criar espaço para o que realmente importa.
Fátima Campos ato de amor é um sinal de ressurreição.
74 MARÇO · 2026 #SIMatuaREVISTA MARÇO · 2026

