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SAÚDE
Restaurante dos Pedidos Errados
Os funcionários têm Alzheimer
Q uando pensamos que uma doença é um fim, a criati- eventos mundiais da criatividade, pela campanha cria-
e nunca se sabe o que vai chegar à sua mesa
tiva associada ao conceito. Demonstrando como a cria-
vidade escreve um novo começo. Durante anos, a de-
tividade pode transformar uma dificuldade numa po-
mência foi vista como um ponto final. Um diagnóstico
derosa ferramenta de mudança social. Como o próprio
que, no pensamento coletivo, parecia apagar não só
Oguni resume: “A mudança não virá deles, tem de vir da
a memória, mas a própria pessoa, confinando-a a um
sociedade. Ao cultivar a tolerância, quase tudo pode
papel passivo e à margem da sociedade. Os estereó-
tipos falavam mais alto: alguém com demência seria
incapaz, dependente e, acima de tudo, “ausente”.
Na Europa, projetos culturais, científicos e comunitários
Mas e se olhássemos para esta realidade por um prisma ser resolvido.”
procuram também desafiar a visão tradicional da de-
diferente? E se, em vez de nos focarmos apenas no que mência, colocando a pessoa — com a sua história, capa-
se perde, nos concentrássemos também no que perma- cidades e dignidade — no centro das respostas sociais.
nece e pode ser valorizado?
De restaurantes inclusivos na Bélgica a programas
Foi com esta filosofia que nasceu, em Tóquio, o “Res- culturais em museus portugueses ou projetos de in-
taurant of Mistaken Orders” — o “Restaurante dos vestigação europeus que utilizam a arte, a música e o
Pedidos Errados”. Neste estabelecimento temporário, teatro como formas de participação ativa, cresce um
os empregados de mesa são pessoas com Alzheimer ou movimento que procura olhar para a doença de forma
outras formas de demência. A premissa é desarmante: o mais humana. Por exemplo no caso do “EU no musEU”,
seu pedido pode não chegar exatamente como o fez, e criado em 2011 no Museu Nacional de Machado de
isso faz parte da experiência. Castro em Coimbra, é um dos primeiros e mais antigos
programas europeus dedicados a esta causa. O sucesso
O objetivo é promover a interação, a empatia e mostrar é tal que o modelo já foi replicado noutras instituições,
algo que muitas vezes esquecemos: estas pessoas con- provando que o património artístico é uma ferramenta
tinuam capazes de trabalhar, de socializar e de contri- poderosa para combater o isolamento social e estimular
buir para a comunidade. funções cognitivas através da reminiscência.
E os números surpreendem. Apesar de cerca de 37% Todos partilham a mesma convicção: mesmo quando a
dos pedidos saírem trocados (impensável num restau- memória falha, a pessoa permanece.
rante convencional) 99% dos clientes dizem sair satis-
feitos e, emocionados com a experiência. Aquilo que E talvez seja essa a grande lição destes projetos. Quando
poderia gerar frustração transforma-se num modelo a sociedade decide olhar para a fragilidade com criati-
de humanidade. vidade e empatia, aquilo que parecia o caminho do fim,
pode transformar-se num novo começo. Redesenhar o
O projeto, idealizado pelo produtor japonês Shiro Ogu- que significa envelhecer e viver com a doença, colocan-
ni, ganhou visibilidade internacional e foi distinguido do a pessoa – com as suas capacidades e a sua história
Eva Pereira com um Leão de Prata no Festival Internacional de – no centro de tudo.
Criatividade de Cannes, um dos mais prestigiados
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