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GASTRONOMIA



                                       CAMILO, BRAGA E AS FRIGIDEIRAS
                     J                 á todos sabemos que Camilo Castelo-Branco teve fama   jornal humorístico denominado a Frigideira, onde entre ou-




                                       de bon vivant. Uma vida repleta de aventuras, com amo-
                                                                                  tras notícias destacamos este pequeno poema, que as coloca
                                       res proibidos à mistura e, naturalmente, de boas comidas.
                                                                                  no centro da mesa bracarense.
                                       Não pretendo neste texto esmiuçar as suas preferências
                                                                                  Há bifes, peixe, vitella
                                       alimentares  porque  outros  já  o  fizeram  muito  bem.  Tão
                                                                                  Bacalhau e carne assada
                                       pouco pretendo abordar a sua relação com a cidade dos
                                       Arcebispos,  também  largamente  estudada.  Todavia,  do
                                       que já li sobre ele e sobre a mesa camiliana sobressai-me
                                                                                  Fructas, doces, marmellada
                                       um tema que ainda não vi desenvolvido e que se resume
                                                                                  Há carneiro com ervilhas
                                       ao gosto que parece demonstrar por uma comida típica de   Queijo da serra da Estrella
                                                                                  Bacalhau à espanholeira
                                       Braga – as frigideiras.                    Porém, nada se assimilha
                                       Sim, Camilo parece que gostava muito de frigideiras. Esse   Ao gosto da frigideira.
                                       gosto perpassa pela sua obra e pelos seus personagens. Se
                                       não vejamos: n’a Sereia (1865), pela voz de um monge bene-
                                       ditino, diz-se arrenegado pelas ditas anotando a preferên-  Mas de onde vêm as frigideiras? Como seriam confecionadas
                                       cia do D. Abade de Tibães. Ainda neste livro volta a referir o   no passado? No meu livro Viúvas de Braga e outros doces do
                                       gosto desenfreado dos beneditinos por frigideiras; na Bruxa   Convento dos Remédios apresento as frigideiras doces com-
                                       de Monte Córdova (1867), outro frade beneditino «recebia   pradas pelos beneditinos a partir de 1752. Eram já feitas com
                                       semanalmente da sua mãe uma canastra recheada de garra-  massa folhada, aromatizadas com canela e água de flor, re-
                                       fas de óptimo Douro, de fiambre de Melgaço, de frigideiras   cheadas com fruta ou massa de pão leve e polvilhadas com
                                       bracarenses,  de  lampreias  e  salmões  de  Viana  no  tempo»;   açúcar. Concluo nessa altura que o recheio de carne poderá
                                       no Mosaico e Silva (1868) fala-nos, aqui na primeira pessoa,   ter surgido depois. Pois estava enganada. Em 1672 observo os
                                       de «bifes de cebolada, frigideiras de Braga e pastéis de Gui-  frades do Pópulo a gastarem 700 reis em «lombos e línguas
                                       marães»; no Bom Jesus do Monte (1864) não deixa de referir   de vaca que se fizerão em huas frigideiras»; Compra que se
                                       «uma indigestão de frigideiras!», tal era o gosto pelas ditas;
                                       voltamos a encontrá-las nos gostos do marido de Tibúrcia   repete nos anos seguintes. Um século depois continuam a
                                       em Maria Moisés (1876-1877); finalmente, no livro Eusébio   comprar frigideiras de línguas, de bacalhau e de carne picada.
                                       Macário (1879) elogia vários produtos da região, o «belo pês-  Contas feitas, a frigideira, esse pastel do tamanho de uma
                                       sego de Amarante, as morcelas de Guimarães e pastéis da   frigideira, feito de massa folhada, e com os recheios mais di-
                                       Joaninha, as frigideiras de Braga, e o vinho verde de Basto».
                                                                                  versos, doces e salgados, anda por cá há vários séculos, aca-
                                       Todas estas notícias e outras, que por agora nos escapam,   bando, no século XX, a ser comercializada com um tamanho
                                       trazem as frigideiras para a mesa camiliana. Nas suas vindas   mais pequeno e apenas com o recheio de carne picada. É
                                       a Braga não deixava, com certeza, de se refastelar com elas e   claro que os séculos e o saber fazer fizeram deste pastel uma
                                       também não seria muito complicado mandá-las ir de Braga   pequena delícia com que ainda hoje nos deleitamos. E Cami-
                                       até Seide.                                 lo, apreciador de uma boa comida não lhe seria indiferente. E
               Anabela Ramos                                                      nós também não. Que continuem, pois, as frigideiras a deli-
               Historiadora            Por estes anos as frigideiras são famosas em Braga e com
                                       uma história de vários séculos. Em 1895 existe, inclusive, um   ciarem-nos pelos séculos seguintes!































               #SIMatuaREVISTA                                  JANEIRO · 2026                                           91
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