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CRÓNICA
O DUPLO ROSTO DE JANEIRO
J aneiro era para os romanos o mês de Jano, o
deus das duas caras, que representava o pas-
sado e o futuro, já que olhava para trás, medi-
tando o que passou, e ao mesmo tempo para
a frente, acautelando o que viria no ano novo.
Aproveitemos então este mês precavido para
fazermos uma análise à nossa natureza.
Sejamos rudes, enfrentemos o touro pelos cornos,
assim mesmo, com uma expressão do “passado”,
sejamos reacionários quanto à humanidade em
nós. Testemunhamos uma tão grande aceleração
das mudanças que elas agora atropelam-se. A
adaptação é impetuosa, já não há sequer espaço
para a reflexão, menos ainda para o estabeleci-
mento do afeto. A afeição precisa de tempo.
Olhemos para trás. Qual a nossa origem? Sabe- Quanto mais possuímos, mais nos confundimos,
mos que é a inter-relação, a produção e a criati- mesmo que não nos sintamos perdidos, já que vi-
vidade, na plena solidariedade humana. Só que vemos na ilusão da certeza absoluta. Temos toda
os laços desta partilha vão-se desatando para dar a sabedoria do mundo ao dispor e desabamos na
lugar ao isolamento de cada um na sua própria ignorância. Ouvi um aluno de Português, do fim
renúncia. Tornamo-nos observadores passivos da do secundário, garantir que um avião “decola”
volatilidade de tudo, ao sermos arrastados pela e “aterrissa” porque consultou na internet. Não
tendência ditatorial do mercado e pelas oportuni- precisou de mais nada. Tal como uma notícia
dades incríveis facultadas pela inteligência artifi- falsa maquilhada, o virtual convence por guiar a
cial. Nem nos apercebemos da frieza que é ofere- totalidade aos nossos olhos numa fração de se-
cer um presente a alguém no Natal com um talão gundo. Não interessa qual é a versão da língua
para troca incluído no embrulho. Substitui-se o portuguesa predominante na internet, basta que
valor sentimental do gesto de partilha pela crueza predomine, como se não fossem duas variantes
do mercado: se não ficar satisfeito, nós trocamos imensamente diferentes. Primeiro aceita-se, de-
ou devolvemos o seu dinheiro. pois assimila-se o desregramento. Não é neces-
sário ser, basta parecer. A falta de iniciativa, tanto
A perseguição do lucro não está interessada em de quem aceita como de quem proporciona que
João Nuno Azambuja que o ser humano seja simples, ajuizado, e mui- se aceite, é sintoma de decadência. Faz parte do
to menos produtor; quer que seja um mero con- progresso, alegam. Pois defender a nossa herança
sumidor apressado, porque senão não compra. contra a balbúrdia faz parte da cultura.
A pessoa prudente e engenhosa é nociva. Só dá
proveito o comprador submisso do produto final. Olhemos agora para a frente. A nossa pátria só
De igual modo, a inteligência artificial não preten- será a nossa inteligência se nela quisermos viver.
de que um homem pense, porque se pensar não É fundamental a coragem para muito mais, no en-
vai andar atrás dela. tanto veem-se sinais positivos, como a limitação
dos telemóveis nas escolas, e alguns países de-
O que nos pedem a toda a hora? A publicidade in- cretaram o regresso ao livro em papel e à caligra-
centiva a indolência: não faça, nós fazemos por si; fia nas aulas. Reconheceram a coisa simples que é
não vá, nós vamos; não saia para comprar, nós en- a arte tanto de fazer com as próprias mãos como
tregamos; não venda a sua casa, nós vendemos; de criar vínculos com o palpável. O amor nasce
não passeie o seu cão, nós passeamos. Em suma: por aquilo que é frágil e sujeito à deterioração,
não faça nada, que nós fazemos tudo. A inteligên- porque nos excita o cuidado e a ternura.
cia artificial idem: não investigue, eu investigo, eu
escrevo, eu respondo, eu componho, eu penso Mia Couto disse que o termo “inteligência artifi-
por si, eu aperfeiçoo-me para si. É a desistência cial” é absurdo, pois a inteligência implica sensibi-
do ser humano, a queda na ausência, a aniquila- lidade. Logo, inteligência será sempre decorrente
ção do sentido das coisas. do pensamento, condição da natureza humana.
90 JANEIRO · 2026 #SIMatuaREVISTA

