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CRÓNICA                                                                                                                                 CRÓNICA

                                       SILÊNCIOS QUE DOEM,

                                       ESPERAS QUE CANSAM:

                   E                   m Portugal, a saúde mental tornou-se finalmen-  adequado, no reforço de profissionais, em servi-
                                       RETRATO DA SAÚDE MENTAL



                                                                                  ços próximos das comunidades e respostas que
                                       te tema de conversa, nas escolas, nas empresas,
                                                                                  não obriguem quem precisa a esperar meses. Fal-
                                       nas campanhas e no debate público. O estigma
                                                                                  tam políticas que assumam a saúde mental como
                                       diminuiu, a linguagem mudou e falar sobre o
                                                                                  parte central da saúde pública, não como tema de
                                       que se sente já não é sinónimo de fraqueza. No
                                                                                  campanhas, mas como compromisso real. Falta
                                       entanto,  por  detrás  desta  abertura  crescente,
                                                                                  assumir que cuidar da mente é tão vital como cui-
                                       mantém-se uma realidade que o país conhece
                                       há demasiado tempo, o acesso  continua pro-
                                                                                  dar do corpo, e que não se trata apenas de tratar
                                       fundamente desigual.
                                                                                  doenças,  mas  de  permitir  que  cada  pessoa  viva
                                                                                  com dignidade.
                                       O Serviço Nacional de Saúde enfrenta tempos de
                                       espera longos e equipas insuficientes para res-  Ainda assim, assiste-se a uma mudança social im-
                                       ponder à procura crescente. No setor privado, a   portante. Há menos vergonha, mais capacidade
                                       resposta chega mais depressa, mas os custos ex-  de reconhecer fragilidades e uma geração que
                                       cluem muitas pessoas. Entre estas duas realida-  cresceu a ver o pedido de ajuda como sinal de
                                       des fica uma parte significativa da população que   maturidade. Mas nenhuma mudança cultural será
                                       reconhece a importância de pedir ajuda, mas não   suficiente se o sistema não acompanhar. Sensibili-
                                       encontra condições viáveis para o fazer. E é aqui   zar não basta quando, no momento crítico, não há
                                       que a desigualdade se torna mais evidente, há   consulta disponível, nem apoio imediato.
                                       quem consiga tratamento continuado e há quem   Portugal poderá tornar-se um país onde cuidar
                                       desista, não por falta de vontade, mas por falta de   da saúde mental não é um ato de coragem, mas
                                       alternativas.
                                                                                  um procedimento simples e garantido, onde pe-
                                       Esta disparidade, quase sempre silenciosa, choca   dir ajuda não depende da carteira e onde a espe-
                                       com a ideia amplamente repetida de que “a saúde   rança não se esgota na falta de respostas. Até lá,
                                       é para todos”. Na prática, a saúde mental continua   permanece a necessidade de continuar a expor
                                       a ser, em muitos casos, um privilégio.     estas falhas e rejeitar o silêncio que, durante anos,
                                                                                  fez tantos estragos. Falar é um passo importante,
                                       O discurso contemporâneo valoriza o bem-estar,   mas é a ação que decidirá se o país está realmente
                                       a prevenção e o equilíbrio emocional, mas o país   pronto para levar a saúde mental a sério.
                                       continua a falhar no essencial, no investimento



               Fátima Campos

































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