Page 88 - SIM 314
P. 88
CRÓNICA CRÓNICA
SILÊNCIOS QUE DOEM,
ESPERAS QUE CANSAM:
E m Portugal, a saúde mental tornou-se finalmen- adequado, no reforço de profissionais, em servi-
RETRATO DA SAÚDE MENTAL
ços próximos das comunidades e respostas que
te tema de conversa, nas escolas, nas empresas,
não obriguem quem precisa a esperar meses. Fal-
nas campanhas e no debate público. O estigma
tam políticas que assumam a saúde mental como
diminuiu, a linguagem mudou e falar sobre o
parte central da saúde pública, não como tema de
que se sente já não é sinónimo de fraqueza. No
campanhas, mas como compromisso real. Falta
entanto, por detrás desta abertura crescente,
assumir que cuidar da mente é tão vital como cui-
mantém-se uma realidade que o país conhece
há demasiado tempo, o acesso continua pro-
dar do corpo, e que não se trata apenas de tratar
fundamente desigual.
doenças, mas de permitir que cada pessoa viva
com dignidade.
O Serviço Nacional de Saúde enfrenta tempos de
espera longos e equipas insuficientes para res- Ainda assim, assiste-se a uma mudança social im-
ponder à procura crescente. No setor privado, a portante. Há menos vergonha, mais capacidade
resposta chega mais depressa, mas os custos ex- de reconhecer fragilidades e uma geração que
cluem muitas pessoas. Entre estas duas realida- cresceu a ver o pedido de ajuda como sinal de
des fica uma parte significativa da população que maturidade. Mas nenhuma mudança cultural será
reconhece a importância de pedir ajuda, mas não suficiente se o sistema não acompanhar. Sensibili-
encontra condições viáveis para o fazer. E é aqui zar não basta quando, no momento crítico, não há
que a desigualdade se torna mais evidente, há consulta disponível, nem apoio imediato.
quem consiga tratamento continuado e há quem Portugal poderá tornar-se um país onde cuidar
desista, não por falta de vontade, mas por falta de da saúde mental não é um ato de coragem, mas
alternativas.
um procedimento simples e garantido, onde pe-
Esta disparidade, quase sempre silenciosa, choca dir ajuda não depende da carteira e onde a espe-
com a ideia amplamente repetida de que “a saúde rança não se esgota na falta de respostas. Até lá,
é para todos”. Na prática, a saúde mental continua permanece a necessidade de continuar a expor
a ser, em muitos casos, um privilégio. estas falhas e rejeitar o silêncio que, durante anos,
fez tantos estragos. Falar é um passo importante,
O discurso contemporâneo valoriza o bem-estar, mas é a ação que decidirá se o país está realmente
a prevenção e o equilíbrio emocional, mas o país pronto para levar a saúde mental a sério.
continua a falhar no essencial, no investimento
Fátima Campos
88 JANEIRO · 2026 #SIMatuaREVISTA

