Page 89 - SIM 314
P. 89
CRÓNICA
JANEIRO NUNCA MAIS ACABA
N ada — absolutamente nada — nos prepara para re-
ceber a pior notícia das nossas vidas. Nem mesmo
quando ela está anunciada há meses ou anos. Nem
quando vivemos em suspenso. Nem quando acha-
mos que já chorámos (ou não) tudo o que havia para
chorar. Quando a notícia chega, não chega devagar.
Cai. E depois disso vem o vazio. A dor. O desespero.
O meu pai morreu em janeiro, depois de quase seis
meses em coma. Regressei ao trabalho no dia anterior.
Consegui. Como se isso fosse uma vitória. Como se ir
trabalhar fosse um regresso à vida. Disseram-me que
talvez estivesse à espera disso: que eu “voltasse à vida”
para poder ir embora. Dizem estas coisas para tornar o
absurdo mais suportável. Como se a morte tivesse pa-
ciência.
Nesse dia, vestia uma camisola de lã quentinha, de cor
amarela. Como que a pedir luz, alegria, conforto, vida.
Que ironia cruel. Nada naquele dia foi luz, alegria, con-
forto, vida. Foi o meu irmão mais novo que entrou pelo
jornal dentro... o nosso olhar cruzou-se. Partes de nós Mas piorou. Talvez um dia, escreva tudo em livro. Não
morreram ali! Chegámos a casa. A minha mãe tinha deixaram levar o corpo do meu pai para autópsia. Ti-
preparado para o almoço a minha “comida de conforto” vemos de chamar a polícia. Um advogado. A morte do
preferida: massa à lavrador. Uma panela cheia, como se meu pai transformou-se num processo. Num conflito.
o amor ainda pudesse proteger alguém. Durante muito Num campo de batalha burocrático. A minha mãe e o
tempo não consegui comer a minha “comida de con- meu irmão mais novo estiveram até à meia-noite numa
forto” preferida. O conforto tornou-se ausência. O sa- esquadra da polícia a prestar declarações. No dia em
bor tornou-se dor. Hoje, já a consigo comer. Saborear. que o marido morreu. No dia em que o pai morreu. Isto
A última semana de vida do meu pai foi numa unida- não é duro. Isto é desumano. Não se faz. Não podemos
de de Cuidados Paliativos, dita “de referência”. Dita. aceitar que quem trabalha em Cuidados Paliativos
Porque a palavra perde o sentido quando lhe falta hu- trate vidas com indiferença. Temos obrigação de exi-
manidade. Espero um dia acreditar verdadeiramente gir mais — mais humanidade, mais sensibilidade, mais
nos Cuidados Paliativos. Havia um responsável médi- proteção para quem está a morrer e para quem fica. Sei
co. Não me lembro do nome. Não me lembro da cara. que hoje, passados sete anos, muito mudou nos Cui-
Mas lembrar-me-ei para sempre do que nos disse no dados Paliativos. Ainda bem! Mas a nossa experiência,
dia que o meu pai foi transferido para lá... uma semana infelizmente, ninguém pode mudar.
antes de morrer. Disse-o a uma mulher que via o amor Todos lidamos com a morte de quem amamos de forma
Patrícia Sousa da vida dela morrer. Disse-o a dois filhos exaustos, a diferente. Não porque somos mais fortes ou mais fra-
O AMOR SUPERA TUDO morrer por dentro e a funcionar (muito pouco) por fora: cos, mas porque o luto depende de dezenas e dezenas
“Só gostava de saber como é que o Sr. Manuel este- de tarefas — mas há três que, por norma, podem pro-
Email: info@oamorsuperatudo.pt ve quase seis meses no hospital a tirar o lugar a outra
Facebook|Instagram: o.amor.supera.tudo vocar ainda mais sofrimento: a relação com a pessoa
Literacia do luto - Sessões de Informação pessoa.” Como se nós tivessemos culpa do meu pai (nem sempre bonita ou resolvida), as circunstâncias da
Storyteller de Histórias de Vida de ter sofrido uma paragem cardiorespiratória ao levar a morte e a rede de apoio.
Pessoas Especiais que já Morreram
Guia do Caminho de Santiago anestesia para uma suposta simples operação e ter es- E é aqui que, muitas vezes, falhamos miseravelmente.
968 246 011 perado 25 minutos pelo otorrino (que deveria lá estar). A nossa rede de apoio não está preparada. Não quer
Sim, eu sei... era uma bela e quente manhã de domingo
de agosto. falar, evita o tema, afasta-se. E depois, quando a morte
bate à porta, só faz asneira. Diz o que não deve, pergun-
Há comentários que condenam pessoas a um luto in- ta o que não se pergunta, partilha conselhos que ferem,
teiro. Uma frase pode ficar a viver dentro de alguém dá “ajuda que dói” a um coração já partido em mil pe-
para sempre. Quantas pessoas vivem uma vida inteira daços. Temos obrigação de fazer melhor. Muito melhor.
em luto por algo que alguém disse — sem pensar — no A falta de preparação da rede de apoio agrava o luto,
pior momento das suas vidas? cria traumas desnecessários e deixa cicatrizes que du-
ram para sempre. Não podemos continuar a assobiar
É ainda mais grave quando vem de um profissional de
saúde. Alguém que devia ser o primeiro a proteger. O para o lado.
primeiro a cuidar. O primeiro a não ferir. Fala-se muito Sim... Janeiro nunca mais acaba. Aprende-se apenas a
de dignidade no fim de vida. Mas a dignidade não é só viver com ele. E talvez seja isto que devíamos aprender
do doente. É também de quem fica. O luto não precisa antes de dizer qualquer coisa a alguém que perdeu al-
de pressa. Não precisa de lições. Não precisa de “seguir guém: às vezes, sobreviver já é tudo o que essa pessoa
em frente”. Precisa de respeito, silêncio e humanidade. consegue fazer. E isso, por si só, já é imenso.
#SIMatuaREVISTA JANEIRO · 2026 89

