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CRÓNICA

                                       JANEIRO NUNCA MAIS ACABA
                 N                     ada  — absolutamente  nada  —  nos  prepara  para  re-




                                       ceber a pior notícia das nossas vidas. Nem mesmo
                                       quando ela está anunciada há meses ou anos. Nem
                                       quando  vivemos em  suspenso.  Nem  quando  acha-
                                       mos que já chorámos (ou não) tudo o que havia para
                                       chorar. Quando a notícia chega, não chega devagar.
                                       Cai. E depois disso vem o vazio. A dor. O desespero.
                                       O meu pai morreu  em  janeiro,  depois  de  quase  seis
                                       meses em coma. Regressei ao trabalho no dia anterior.
                                       Consegui. Como se isso fosse uma vitória. Como se ir
                                       trabalhar fosse um regresso à vida. Disseram-me que
                                       talvez estivesse à espera disso: que eu “voltasse à vida”
                                       para poder ir embora. Dizem estas coisas para tornar o
                                       absurdo mais suportável. Como se a morte tivesse pa-
                                       ciência.
                                       Nesse dia, vestia uma camisola de lã quentinha, de cor
                                       amarela. Como que a pedir luz, alegria, conforto, vida.
                                       Que ironia cruel. Nada naquele dia foi luz, alegria, con-
                                       forto, vida. Foi o meu irmão mais novo que entrou pelo
                                       jornal dentro... o nosso olhar cruzou-se. Partes de nós   Mas piorou. Talvez um dia, escreva tudo em livro. Não
                                       morreram  ali!  Chegámos  a  casa.  A  minha  mãe  tinha   deixaram levar o corpo do meu pai para autópsia. Ti-
                                       preparado para o almoço a minha “comida de conforto”   vemos de chamar a polícia. Um advogado. A morte do
                                       preferida: massa à lavrador. Uma panela cheia, como se   meu pai transformou-se num processo. Num conflito.
                                       o amor ainda pudesse proteger alguém. Durante muito   Num campo de batalha burocrático. A minha mãe e o
                                       tempo não consegui comer a minha “comida de con-  meu irmão mais novo estiveram até à meia-noite numa
                                       forto” preferida. O conforto tornou-se ausência. O sa-  esquadra da polícia a prestar declarações. No dia em
                                       bor tornou-se dor. Hoje, já a consigo comer. Saborear.   que o marido morreu. No dia em que o pai morreu. Isto
                                       A última semana de vida do meu pai foi numa unida-  não é duro. Isto é desumano. Não se faz. Não podemos
                                       de  de  Cuidados  Paliativos,  dita  “de referência”. Dita.   aceitar  que  quem trabalha  em  Cuidados  Paliativos
                                       Porque a palavra perde o sentido quando lhe falta hu-  trate vidas com indiferença. Temos obrigação de exi-
                                       manidade.  Espero  um  dia  acreditar  verdadeiramente   gir mais — mais humanidade, mais sensibilidade, mais
                                       nos Cuidados Paliativos. Havia um responsável médi-  proteção para quem está a morrer e para quem fica. Sei
                                       co. Não me lembro do nome. Não me lembro da cara.   que hoje, passados sete anos, muito mudou nos Cui-
                                       Mas lembrar-me-ei para sempre do que nos disse no   dados Paliativos. Ainda bem! Mas a nossa experiência,
                                       dia que o meu pai foi transferido para lá... uma semana   infelizmente, ninguém pode mudar.
                                       antes de morrer. Disse-o a uma mulher que via o amor   Todos lidamos com a morte de quem amamos de forma
               Patrícia Sousa          da  vida  dela  morrer.  Disse-o  a  dois  filhos  exaustos,  a   diferente. Não porque somos mais fortes ou mais fra-
               O AMOR SUPERA TUDO      morrer por dentro e a funcionar (muito pouco) por fora:   cos, mas porque o luto depende de dezenas e dezenas
                                       “Só gostava de saber como é que o Sr. Manuel este-  de tarefas — mas há três que, por norma, podem pro-
               Email: info@oamorsuperatudo.pt  ve quase seis meses no hospital a tirar o lugar a outra
               Facebook|Instagram: o.amor.supera.tudo                             vocar ainda mais sofrimento: a relação com a pessoa
               Literacia do luto - Sessões de Informação  pessoa.”  Como  se  nós  tivessemos  culpa  do  meu  pai   (nem sempre bonita ou resolvida), as circunstâncias da
               Storyteller de Histórias de Vida de   ter sofrido uma paragem cardiorespiratória ao levar a   morte e a rede de apoio.
               Pessoas Especiais que já Morreram
               Guia do Caminho de Santiago  anestesia para uma suposta simples operação e ter es-  E é aqui que, muitas vezes, falhamos miseravelmente.
               968 246 011             perado 25 minutos pelo otorrino (que deveria lá estar).   A nossa rede de apoio não está preparada. Não quer
                                       Sim, eu sei... era uma bela e quente manhã de domingo
                                       de agosto.                                 falar, evita o tema, afasta-se. E depois, quando a morte
                                                                                  bate à porta, só faz asneira. Diz o que não deve, pergun-
                                       Há comentários que condenam pessoas a um luto in-  ta o que não se pergunta, partilha conselhos que ferem,
                                       teiro. Uma frase pode ficar a viver dentro de alguém   dá “ajuda que dói” a um coração já partido em mil pe-
                                       para sempre. Quantas pessoas vivem uma vida inteira   daços. Temos obrigação de fazer melhor. Muito melhor.
                                       em luto por algo que alguém disse — sem pensar — no   A falta de preparação da rede de apoio agrava o luto,
                                       pior momento das suas vidas?               cria traumas desnecessários e deixa cicatrizes que du-
                                                                                  ram para sempre. Não podemos continuar a assobiar
                                       É ainda mais grave quando vem de um profissional de
                                       saúde. Alguém que devia ser o primeiro a proteger. O   para o lado.
                                       primeiro a cuidar. O primeiro a não ferir. Fala-se muito   Sim... Janeiro nunca mais acaba. Aprende-se apenas a
                                       de dignidade no fim de vida. Mas a dignidade não é só   viver com ele. E talvez seja isto que devíamos aprender
                                       do doente. É também de quem fica. O luto não precisa   antes de dizer qualquer coisa a alguém que perdeu al-
                                       de pressa. Não precisa de lições. Não precisa de “seguir   guém: às vezes, sobreviver já é tudo o que essa pessoa
                                       em frente”. Precisa de respeito, silêncio e humanidade.   consegue fazer. E isso, por si só, já é imenso.



               #SIMatuaREVISTA                                  JANEIRO · 2026                                           89
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