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CRÓNICA


 DR. SOUSA BASTO: UM LEGADO            ENTRE CRITÉRIOS

 DE HUMANIDADE NA MEDICINA             E HUMANIDADE,
                                       CUIDAR É DIGNIFICAR
                   E                   xistem espaços onde o silêncio se impõe, não por ausên-  É por isso que o ponto de partida importa. Quando a ava-




                                       cia de palavras, mas pelo peso das decisões que ali se
                                                                                  liação se constrói a partir da confiança, abre-se espaço à
                                                                                  compreensão. É, portanto, essencial que não se feche so-
                                       tomam. Há salas onde o silêncio não é vazio. É pesado.
                                       Um silêncio feito de expectativa, receio e da esperança
                                                                                  bre si própria e que o rigor seja mantido, pois questionar
                                                                                  não é desacreditar. Avaliar implica apoiar e compreender
                                       contida de quem aguarda uma decisão capaz de alterar
                                       o quotidiano. Nessas salas reúnem-se comissões, equi-
                                                                                  melhor para intervir de forma mais justa.
                                       pas técnicas, profissionais experientes. E, mesmo quan-
                                       do não estão fisicamente presentes, entram também fa-
                                                                                  se perde  pelo  caminho.  Perdem  as  famílias,  obrigadas  a
                                       mílias, crianças, jovens e adultos, através de relatórios,
                                                                                  justificar  repetidamente  aquilo  que  vivem  todos  os  dias.
                                       pareceres e histórias condensadas em páginas.
                                                                                  Perdem os profissionais, cujo trabalho técnico e acompa-
                                       As  avaliações  médico-pedagógicas  têm  como  propósito   Quando o foco se desloca da pessoa para a restrição algo
                                                                                  nhamento continuado é desvalorizado. E perde o próprio
                                       compreender, de  forma  integrada,  as necessidades  fun-  sistema, que fragiliza a cooperação e substitui o diálogo
                                       cionais, educativas e terapêuticas de crianças, jovens ou   por hierarquias burocráticas.
                                       adultos. Compreender pessoas reais, em contextos reais,
                                       com necessidades que não cabem em formulários nem se   Há ainda um aspeto muitas vezes esquecido nestes pro-
                                       esgotam em grelhas de critérios.           cessos, que se reflete no impacto concreto das decisões.
                                                                                  As terapias  implicam  custos  continuados,  sendo  o reco-
                                       São espaços de diálogo entre saberes, onde o rigor técnico   nhecimento de apoios essencial para garantir um acesso
                                       caminha a par da escuta ativa e da responsabilidade social.
                                                                                  equitativo  ao  cuidado,  de  acordo  com  as  necessidades
                                       Os relatórios apresentados por profissionais são o resul-  reais das pessoas e das famílias, reforçando a confiança no
                                       tado  de  um acompanhamento  prolongado,  observação   sistema.
                                       direta, utilização de instrumentos validados e experiência
                                       clínica  e pedagógica  consolidada,  respondendo  a uma   Humanizar as avaliações não significa abdicar de critérios
                                       necessidade sentida no quotidiano. Para quem os solicita,   nem de exigência técnica. Significa lembrar para que exis-
                                       fazê-lo implica frequentemente exposição, vulnerabilida-  tem. Recentrar o olhar na funcionalidade, no impacto no
                                       de e até desconforto. Reconhecer este ponto de partida é   dia-a-dia, na pessoa para além da burocracia. Significa as-
                                       essencial para que a avaliação decorra num clima de res-  sumir que os direitos devem ser salvaguardados face aos
                                       peito e confiança mútua.                   critérios e regras do sistema, não descurando o cuidado
                                                                                  para com as famílias assumido como uma responsabilida-
                                       Mas nem sempre é assim.                    de coletiva.
                                       Para quem chega a estes processos, os relatórios não são   Talvez seja isso que estas salas “silenciosas” procuram, uma
                                       atalhos nem expedientes. São, quase sempre, o resultado   escuta proativa, um sistema que avalia com humanidade é
                                       de um percurso longo: consultas, observações, tentativas,   um sistema que protege, acompanha e dignifica. E é pre-
                                       frustrações e progressos lentos. Poucas famílias o fazem   cisamente nessa direção que vale a pena continuar a ca-
                                       com naturalidade, mas sim com reserva e constrangimen-  minhar.
                                       to.
               Fátima Campos
































               #SIMatuaREVISTA                                 FEVEREIRO · 2026                                          79
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