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CRÓNICA
SOBRE O AMOR INCONDICIONAL
DO CUIDADOR INFORMAL
Texto: Priscila Ferreira & Pedro Sousa Basto Foto: Stephen DiRado da série ‘With Dad’
“Naquela mesa, ele juntava a gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã
[…]
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala no seu bandolim
Naquela mesa, tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim”
Nelson Gonçalves
A sociedade portuguesa as-
senta grande parte da sua
resposta à dependência e
à velhice num pilar silen-
cioso e quase invisível: o
cuidador informal. Na maioria dos casos,
esse cuidador é um familiar direto, quase
sempre um filho, que assegura cuidados
diários, contínuos e exigentes, muitas
vezes à custa da sua vida profissional,
pessoal e emocional. Apesar do reconhe-
cimento formal desta figura, o sistema
continua a funcionar como se esse cuida-
do fosse um recurso inesgotável: sempre mente consegue preencher, revelando a Estes cuidadores vão muito além do exi-
disponível, naturalmente garantido e mo- fragilidade de um sistema que é deveras gível. Preservam a dignidade de quem
ralmente obrigatório. dependente da família como prestadora de depende deles e, acima de tudo, afirmam
Esta expectativa encontra eco na legis- cuidados. a humanidade do cuidado. Não só pro-
lação portuguesa, que consagra o dever É neste contexto que se torna particular- longam vidas: dão-lhes sentido, presença
legal dos filhos cuidarem dos pais. Tra- mente visível – e moralmente incontorná- e continuidade. Na prática, ao cuidarem
ta-se de uma norma decorrente de uma vel – o gesto dos filhos que cuidam dos seus de quem amam, substituem-se ao Estado
concepção fortemente familista do Es- pais apesar da lei. Filhos que relegam a sua nos seus pontos de falha, compensando
tado social, que transfere para o espaço vida profissional e pessoal para segundo
privado uma responsabilidade que é, na plano e suportam um desgaste emocional a insuficiência das respostas públicas e a
sua essência, coletiva. Num contexto de ausência de uma responsabilidade cole-
envelhecimento acelerado, maior longe- para cuidar dos pais numa viagem que se tiva pelo cuidado – uma insuficiência es-
vidade e crescente complexidade clínica, recusam a aceitar como sem retorno. Filhos trutural cujos efeitos recaem sobre toda a
esta transferência torna-se particular- que cuidam por amor; movidos por um pro- sociedade.
mente onerosa. A obrigação legal existe; fundo sentido de responsabilidade ética e, Quando a viagem chega ao fim, insta-
os meios materiais, técnicos e humanos sobretudo, por um vínculo que, na matu-
para a cumprir, não. ridade e na fragilidade, devolve o mesmo lam-se o vazio e a sensação de fracasso.
amor incondicional que um dia receberam Uma pergunta permanece, suspensa no
A atual arquitetura legal revela fissuras dos pais – sempre considerados eternos. coração destroçado: se ele me deu a vida
evidentes quando se consideram as pes- e cuidou de mim, por que é que o meu
soas sem descendência. Quem cuida de Quando o cuidador informal se apercebe cuidado e o meu amor não bastaram para
quem não tem filhos? Num modelo que de que deixou de cuidar de um pai ou de
pressupõe laços familiares disponíveis uma mãe para passar a cuidar do seu fim, o manter vivo? Resta esperar que o filho
para assegurar assistência informal, es- abre-se uma ferida que sangra sem defe- consiga ouvir, no mais fundo de si, a voz
tas pessoas tornam-se estruturalmente sas. O dano já não é ‘apenas’ emocional: é serena que lhe assegura: “Ó rapaz, saís-
mais vulneráveis. A ausência desses la- estrutural, íntimo e tem a exata medida do te-te mesmo bem.” E que, por fim, se re-
ços expõe um vazio que o Estado rara- amor que o sustenta. concilie com a vida.
76 FEVEREIRO · 2026 #SIMatuaREVISTA

