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ESPECIAL                                                                                                                                ESPECIAL


               ACIDENTE COLOCOU MIGUEL BARBOSA

               A TITULAR NO RELVADO



               TEXTO: Fernando Rui
              E         m 2023 foi campeão nacional de futebol em sub-19

                        pelo Famalicão, treinou com a equipa principal e aca-
                        bou a carreira de lateral-direito... por causa das costas.
                        Mas agora regressou aos relvados, após um comboio
                        lhe  levar  a  perna  esquerda…  para  lançar  o  projeto
               Futebol de Amputados em Portugal. Isso mesmo: com equipas,
               campeonato e seleção nacional. O barcelense Miguel Barbosa,
               de 21 anos, é um poço de confiança e otimismo – sonha até ir aos
               Jogos Paralímpicos 2032,  se  incluir esta  modalidade.  E  está  a
               terminar Engenharia Aeroespacial na UMinho (onde entrou com
               19.8 valores), a pensar num mestrado em Física Teórica.
               Desde pequeno que quis ser atleta de alto nível. Começou pelo
               futebol e na vizinha Academia do Sporting, na freguesia de Silva,
               Barcelos. Aos 13 anos, rumou ao modesto Lomarense, em Braga, e
               aos 15 chegou ao FC Famalicão, partilhando o balneário com nomes
               como o médio ofensivo Gustavo Sá (atual capitão da equipa sénior)
               e Pablo Filipe (ex-Gil Vicente, agora no West Ham, Inglaterra).
               A carga de jogos e treinos atacou-lhe o nervo ciático e acentuou as
               dores nas costas, que nem cirurgia, reforço muscular, fisioterapia,
               descanso e apoio psicológico sanaram: “Alimentava uma expecta-
               tiva que nunca se iria tornar realidade, por isso ‘pendurei as chutei-
               ras’”, afirma. A decisão foi difícil, “2024 foi o pior ano da vida”, mas
               ajudou a “moldar o pensamento nas coisas positivas”.
               Craque com nota 20

               Durante o período da lesão, Miguel Barbosa entrou na universidade,
               optando pelo curso com a melhor média do país. “Sempre fui bom
               aluno, a matéria entra-me naturalmente,  sobretudo no que tem
               que se estudar mais, como Matemática e Físico-Química”, explica.
               Era de comboio que ia para as aulas em Guimarães e para os treinos
               em Famalicão. Para manter-se ativo nessa fase, também ia ao giná-
               sio e corria, fazendo até a São Silvestre de Esposende com a família.
               “Sempre fui bom a correr, em miúdo ganhei seis ou sete corta-ma-
               tos”, lembra.
               A 10 de fevereiro de 2025, saiu para correr, capucho na cabeça, aus-
               cultadores nos ouvidos e, ao cruzar uma passagem de nível perto de   de para pessoas amputadas, jogada com canadianas. Miguel Bar-
               casa, foi colhido por um comboio. “Não o devo ter visto, não me lem-  bosa desafiou-se então a desenvolvê-la no país e ajudar quem está
               bro”, conta. Esteve quase dois meses no Hospital de Braga, em coma   numa situação similar.
               e com várias lesões, a mais grave obrigou-o a amputar uma perna ao
               nível da tíbia. “Decidi agarrar-me ao que tinha e sempre com grande   Os primeiros dias foram árduos, porque do acidente resultaram tam-
               apoio da família e namorada”, agradece. “Para eles foi difícil, não sa-  bém fraturas nos seus braços e numa clavícula. Este desporto exige
               biam se eu ia acordar, se despertaria neurologicamente diferente, se   força nos membros superiores e, aquando do remate, o corpo fica
               teria alguma paralisia”, confessa.                      suspenso. O seu médico ortoprotésico partilhou-lhe então o con-
                                                                       tacto  deixado  por  um  futebolista  brasileiro  amputado,  para  quem
               Quem disse que um amputado não pode jogar futebol?      estivesse interessado na modalidade.
               Com a febre do desporto nas veias,  quis  perceber como poderia   Era Iuri Nunes, a viver em Braga e trabalhar em Barcelos, ligado ao
               competir. “Nada me encaixava, desde futebol para surdos ou ce-  campeão espanhol e vice-campeão europeu Flamencos Amputa-
               gos, andebol e basquetebol em cadeira de rodas… até que em julho   dos Sur. Iuri perdeu a perna direita devido ao rompimento de uma
               recebi a prótese e fui logo dar toques na bola”, graceja. Julgou que   artéria e ao diagnóstico errado de um médico. Miguel telefonou-lhe
               poderia jogar assim oficialmente, embora condicionado. Não, não é   e encontraram-se na Academia do Sporting onde o barcelense deu
               permitido. Por fim, percebeu que existe noutros países a modalida-  os primeiros toques na bola. “Falámos mais do que treinámos”, sorri.


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