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HOMENAGEM CRÓNICA
DR. SOUSA BASTO: UM LEGADO
DE HUMANIDADE NA MEDICINA
A um ausente
“Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade
da natureza.
Nem nos deixaste sequer o direito de
Indagar porque o fizeste,
Porque te foste”.
H á olhares bondosos que nos atravessam e que ficam O Dr. Sousa Basto, médico dermatologista em Braga,
Excerto de poema do poeta Carlos Drummond de Andrade
para sempre em nós. Não se explica. Sente-se. Porque
ainda há homens bons no mundo.
Naquele dia, eram cinco horas da manhã e já me
encontrava à porta do consultório para conseguir uma
consulta. Estava com um ‘ataque’ de eczema feroz que
me afetou o rosto. Eu tinha chegado a Braga há pouco
tempo ainda e uns amigos aconselharam-me a procurar “o
reconhecida na especialidade, com décadas de
melhor dermatologista” – o Dr. Sousa Basto. A consulta no
experiência e uma carreira marcada pela excelência no
consultório privado tinha uma lista de espera enorme e eu
acompanhamento dos seus pacientes. Fundador e diretor
precisava urgentemente que ele me visse. não era apenas um clínico dedicado: era uma referência
clínico da Clínica A. Sousa Basto, em Braga, ele combinava
Esperei. Com o desconforto visível no rosto e o cansaço prática clínica com ensino médico na Universidade do
de quem já não dormia, senti também o peso do medo — o Minho, tendo sido distinguido ao longo dos anos com
de não ser atendida e consequentemente não conseguir várias medalhas de mérito por instituições profissionais
encontrar alívio para a minha situação clínica. Quando e locais, o que reflete o impacto do seu trabalho na
finalmente entrei, foi o olhar dele que me sossegou dermatologia portuguesa e no reconhecimento dos seus
primeiro. Um olhar atento, calmo, humano. Antes mesmo pares.
de qualquer diagnóstico, senti que estava em boas mãos.
O Dr. Sousa Basto faleceu recentemente e eu fiz questão
O que não sabia ainda é que aquele médico não se de ir ao velório despedir-me dele, agradecendo o apoio
ficaria pelo gesto profissional esperado. Ao perceber a que me deu. Inevitavelmente, este meu editorial é um
gravidade da situação, decidiu acompanhar-me para gesto de memória e de gratidão a este gigantesco vulto
além das paredes do seu consultório privado. Levou-me da sociedade bracarense e portuguesa. O legado que o
para o hospital, assumindo ali também o meu seguimento, Dr. Sousa Basto deixa à Medicina ficará para sempre na
garantindo que eu teria o cuidado, o tempo e a atenção de história, mas é o seu legado pessoal que devemos recordar:
que precisava. Não me deixou entregue a papéis, filas ou um médico nobre, um exemplo de uma medicina feita
incertezas. Ficou. Ajudou. Acompanhou. com tempo, com presença e com compaixão. Recordá-lo
é lembrar que o saber científico só ganha sentido pleno
A partir desse momento, começou um caminho de quando caminha lado a lado com a bondade. A sua vida
verdadeira dedicação médica. Realizou-me todos os profissional permanece como um modelo a seguir, não
exames possíveis, com rigor e paciência, procurando apenas para médicos, mas para todos os que acreditam
compreender a fundo o que se passava com o meu que cuidar do outro é uma forma elevada de Humanidade.
corpo. Nada foi apressado, nada foi desvalorizado. Cada
Marta Amaral resultado era explicado, cada passo pensado, como se a Naquele percurso – entre a minha primeira ida ao seu
minha urgência fosse também a dele. E era. consultório e o hospital, onde passei a ser seguida por
Caldeira ele, aprendi que a Medicina é, antes de tudo, um ato
Jornalista O eczema, que, entretanto, acalmara no meu rosto e se de Humanidade. Há médicos que tratam doenças e há
manifestava de forma dolorosa nas mãos, encontrou médicos que cuidam de pessoas. O Dr. Sousa Basto foi
finalmente uma resposta. Foi ele quem me proporcionou sempre aquele médico que cuidava muito bem dos seus
o tratamento de fototerapia, acompanhando de perto pacientes.
cada sessão, cada pequena melhoria, cada recaída. As
mãos, que já não reconhecia como minhas, começaram O seu olhar terno e compreensivo de médico para comigo,
lentamente a recuperar. E, com elas, recuperava eu sua paciente, tão simples e tão raro, ficou gravado em mim
também — a confiança, a esperança, a sensação de que como uma prova silenciosa de que, mesmo nos dias mais
estava a ser cuidada como pessoa inteira e não apenas frágeis, ainda há homens bons no mundo.
como um caso clínico.
78 FEVEREIRO · 2026 #SIMatuaREVISTA

