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ENTREVISTA
Conta ser surpreendido pelo Ministro da Educa- res praticamente nem existiam, o meu pai investiu da forma como o meu caminho na ciência estava
ção? num computador… era o único na freguesia. Estes e a acontecer. No meio disso tudo, achava que já ti-
outros apoios, que não esqueço, possibilitaram que nha atingido um patamar fantástico, planeio uma
Vou ser certamente. Aqui e ali vou ser. Espero que, o meu caminho até à universidade fosse mais fácil. segunda sabática onde iria trabalhar para uma
dentro do possível, seja de uma forma positiva, em- das melhores universidades da Europa, a ETH em
bora esteja preparado para as duas ‘faces’. Sentiu o ‘peso’ da responsabilidade em não fa- Zurique (Suiça), pensando atingir o topo da minha
lhar?
No discurso de tomada de posse citou Umberto carreira. Tinha tudo marcado: voos e apartamento
Eco que um dia referiu: “Para sobrevivermos, te- Sim, senti. Devo confessar que o meu caminho na apalavrado. E eis que um dia me chamam à reitoria,
mos de contar histórias”. Qual é a sua história de universidade foi um pouco sinuoso. Passo os dois na altura presidida por António Cunha, para me in-
sobrevivência? primeiros anos com alguma dificuldade, com ca- formar que afinal iria para os Estados Unidos, para
deiras em atraso e praticamente sem ir às aulas. o MIT - Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
Não sinto que tenha uma história de sobrevivên- Muito relaxado, sem pensar muito. Estive perto de Convenceu-me a desmarcar. Fui e mudou outra
cia porque tive um percurso de vida relativamente reprovar do segundo para o terceiro ano. Aí senti a vez a minha vida. Estive em Boston, inicialmente
confortável. Porém, foi improvável no destino que minha consciência a dizer: “os teus pais não mere- como investigador, e quando venho para Portugal
me conduziu ao lugar de Reitor. Sabe… costumo cem”. sou convidado a liderar o próprio programa através
dizer que sou de Barcelinhos (Barcelos), um lugar do qual tinha ido, MIT Portugal. Isto catapulta-me
com uma cultura muito própria, muito bairrista que Foi um abanão interior? para um outro nível de visibilidade. E aqui estou
se exprimiu muito bem nesta minha eleição como Foi. Disse para mim mesmo que isto não podia hoje, sem nada o prever, como Reitor da Universi-
Reitor. Mesmo não residindo lá, recebi vários tele- acontecer. Com esse ‘susto’, comecei a estudar dade do Minho
fonemas de lá e até a felicitação da Junta de Fre- mais e, a partir daí, foi um percurso totalmente di-
guesia… Atingiu a sua ‘cadeira de sonho’?
ferente onde me tornei um dos melhores alunos
É o ‘filho da terra’ mais proeminente… da turma. No ano seguinte, fui convidado para dar Sim, não tenho dúvidas. Estou onde jamais pensei
aulas e terminei, muito provavelmente, com uma estar e estou muito bem.
Sim, talvez (risos). Sou filho de um pai que foi um das médias mais altas do meu curso. A seguir, tudo
comerciante bem-sucedido. De verdade, nun- aconteceu com naturalidade. Fui absorvido na No meio de tudo isto, tem um problema: a sua
ca passei por grandes dificuldades, mas longe do ‘onda dos anos 90’ onde o recrutamento na Uni- mãe não gosta do seu cabelo curto. Vai deixar
contexto académico. O meu pai não fez o ensino versidade do Minho era mais fácil do que existe crescer o cabelo?
superior por opção. Preferiu ser voluntário da Força neste momento. Havia muita oportunidade. Não, dificilmente (risos). Já nem é um problema de
Aérea, no tempo da guerra, o que evitaria ser mo- o deixar crescer, porque ele já nem cresce. É uma
bilizado para o Ultramar, o que não sucedeu. Foi Sente que esteve no ‘sítio e momentos certos’? brincadeira. A minha mãe vai insistindo nisso. Eu
para Angola com um longo período militar de cinco não conheci o meu avô materno e ela própria não
anos. Sempre percebi que isso lhe teria provocado Há quem lhe chame sorte. Eu concordo consigo: tem noção porque ele faleceu quando a minha mãe
grande frustração daí que tivesse um grande de- estive sempre no sítio certo, no momento certo. O tinha apenas quatro anos. Contudo, toda a gente
sejo que um filho seu ingressasse na universidade. meu orientador de doutoramento foi uma pessoa dizia que eu era exatamente igual ao seu falecido
Fui o primeiro a conseguir. A seguir, a minha irmã chave na minha vida e abriu-me o mundo. Foi um pai, o meu avô maternal Rogério. Acontece que o
fez o mesmo. Senti que o meu pai, de forma discre- ‘pai e irmão’. Abriu-me a porta para tudo, desde a meu avô, nos anos 40/50, usava o cabelo mais vo-
ta, me apoiou muito. Desde logo, incentivou-me a música à ópera, ao teatro e à vida internacional. lumoso. O meu avô tinha o cabelo ondulado que
aprender inglês quando na altura era o francês a Mudou a minha visão. Criei contactos e redes. Fui é exatamente como eu tenho se o deixar crescer.
língua dominante nas escolas. Não compreendia. trabalhar para a Holanda. A minha estadia em Delft Hoje não se usa o cabelo dessa forma… acho que
Matriculou-me no Instituto Britânico quando eu – cidade dos Países Baixos, localizada na província essa preferência da minha mãe está associada às
tinha menos de 10 anos. Quando os computado- da Holanda do Sul – muda outra vez a minha visão fotografias que conhece do seu pai.
VICE-REITORES
António Salgado – Vice-Reitor para a Investigação e Política Científica
Cristina Dias – Vice-Reitora para a Educação e Organização Académica
João Cardoso Rosas – Vice-Reitor para a Cultura, Inclusão e Responsabilidade Social
Nuno Castro – Vice-Reitor para a Modernização Institucional
PRÓ-REITORES
Carlos Videira – Participação Universitária e Ligação ao Território
Lígia Rodrigues – Pessoas, Planeamento e Qualidade
Raul Fangueiro – Inovação, Empreendedorismo e Transferência de Conhecimento
Sandra Dias Fernandes – Cooperação Internacional
Tiago Miranda – Sustentabilidade e Infraestruturas Físicas
GALERIA DE REITORES
Carlos Alberto Lloyd Braga (1973-1980)
Joaquim José Barbosa Romero (1980-1981)
Lúcio Craveiro da Silva (1981-1984)
João de Deus Pinheiro (1984-1985)
Sérgio Machado dos Santos (1985-1998)
Licínio Chainho Pereira (1998-2002)
António Guimarães Rodrigues (2002-2009)
António M. Cunha (2009-2017)
Rui Vieira de Castro (2017-2025)
Pedro Arezes (desde 2025)
#SIMatuaREVISTA JANEIRO · 2026 17

