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ENTREVISTA
Nos próximos tempos vem aí um combate à bu- A engenharia ajuda no pensamento? proceder a essa mudança. Os meus colegas são
rocracia. Isto significa, pelo que estou a ouvir, muito vocais. No entanto, tenho plena consciên-
que a mensagem do Reitor demora a chegar ao Eu diria que sim. Além de ser engenheiro, e ter um cia se não a fizer de um modo consistente e célere,
outro extremo. A universidade anda a comuni- pensamento predominantemente dedutivo, sou pode transformar-se em frustração.
car mal? engenheiro industrial onde a grande ênfase é a
otimização de recursos, processos e tempo. A mi- Noto prudência no tom da sua resposta…
Reconheço que sim. No entanto, a academia tem nha formação de base marca a forma como penso
algumas particularidades. Desde logo dentro da nestas questões, isto é, como podemos adaptar e É natural que haja. Não quero criar expetativas
universidade, embora visto de fora haja uma rela- redesenhar a instituição (universidade) para que infundadas. Tenho de conhecer melhor a ‘casa’.
ção hierárquica relativamente ampla, mas na prá- se adapte àquilo que a comunidade precisa. Saber mais detalhes sob as condições em que
tica é muito pequena. A nossa estrutura não é a estamos, nomeadamente financeiras e não só.
mesma que acontece, por exemplo, no seio militar. Propõe “investimento em infraestruturas e Sabendo tudo isto, seremos mais ambiciosos e co-
A universidade é um espaço de liberdade onde to- equipamentos que tragam a Universidade do municaremos melhor com a comunidade.
dos podem dar a sua opinião. Minho para o presente e a deixem preparada A somar, o ‘estado de graça’ é muitas vezes cur-
para um futuro cada vez mais desafiante e me-
Noto que quer flexibilizar e modernizar. Está es- nos previsível”. Refere-se à globalidade dos dois to.
tudado o caminho para ver e sentir ‘coisas práti- ‘campi’? Temos essa consciência que a ‘janela’ é pequena.
cas’ em pouco tempo? Queremos mostrar trabalho daquilo que defende-
Sim, embora em Guimarães haja problemas de
Concordo! Temos de ter ‘coisas práticas’ em pou- maior relevância. O que acontece é que a Univer- mos. É para isso que estamos a trabalhar desde o
co tempo. Há a referência dos ‘100 dias’, embora sidade tem um parque edificado que tem, na sua primeiro dia.
queira agilizar ideias o mais rápido que puder. No maioria, entre 30 e 40 anos, exceto este onde esta- Ficou surpreendido por ter sido candidato úni-
primeiro dia do mandato já reunimos com esse mos que remonta ao século XIV. São edifícios que co?
ponto na agenda, isto é, o que podemos já fazer se não tiverem manutenção rigorosa e sistemática,
para proceder a alterações. Não é fácil. Há peque- atingem um estado oneroso para uma instituição Não. Percebo que quem vê de fora, possa ter essa
nas particularidades que podem ser feitas. Por que não vive desafogada em termos financeiros. surpresa tendo em conta que estamos a falar de
exemplo, flexibilizar regulamentos na tentativa de uma comunidade alargada. Não esquecer, tam-
olhar para processos de forma a dar-lhes autono- Qual é o orçamento da Universidade do Minho? bém, que o lugar de Reitor é um concurso inter-
mia. A universidade tem uma plataforma eletróni- Ronda os 225 milhões de euros. É uma verba de nacional. Dizer que na Universidade do Minho,
ca de gestão documental e de processos (docUM) grande relevância. Basta compará-la, por exemplo, quem elege o Reitor é o Conselho Geral. Este, por
onde circula toda a informação. O que verificámos com o orçamento das autarquias deste país. questões de aprovação estatutária, é eleito antes
é que, por vezes, para um processo muito simples – do Reitor. O que significa que há o entendimento
por exemplo, contratar um bolseiro para trabalhar claro, sob o ponto de vista político, que quem se
num projeto de investigação – está tão complexifi- posicionar no Conselho Geral de alguma forma
cado sob o ponto de vista administrativo que apre- percebe o resultado para a reitoria.
senta 20 ou 30 etapas diferentes. Nós compreen- Quando começou a ter a noção que ia ser Rei-
demos muito bem porque vai a 20 ou 30 pessoas, tor?
mas a verdade é que estamos a dissipar a respon-
sabilidade por muita gente, o que significa que um Já tinha noção antes quando, por uma questão de
um processo simples como este possa demorar transparência, liderei uma lista ao Conselho Geral,
meses. Temos de reduzir os passos. Em termos familiares vivia mas com uma nota a toda a comunidade, desde
num contexto que nada o primeiro momento, dizendo: “eu lidero esta lista
Pressinto que queira aproximar mais a Universi- porque quero, em voz própria, discutir e debater
dade às pessoas… tinha a ver com o contexto as ideias que tenho para a Universidade do Minho,
Sem dúvida! No entanto, temos de ter alguma académico. O ‘sonho’ em mas eu serei candidato a Reitor”, isto é, se fosse
precaução. Estamos perante uma instituição con- entrar na universidade eleito conselheiro, nunca tomaria posse porque
servadora. Queremos modernizá-la e tirar-lhe um seria candidato a Reitor. O que veio a acontecer.
pouco este ‘peso’. Aproximá-la mais às pessoas. representa muito para a Há quanto tempo tinha em mente ser Reitor?
Não queremos que o poder de decisão se afaste minha família. Fui o primeiro
da realidade. Se acontecer, não há qualidade. Não há muito tempo. Eu presidi à Escola de En-
Estamos a realizar esta entrevista no Largo do a conseguir, daí esta genharia durante dois mandatos e o trabalho era
tal que não deixou espaço para este pensamento.
Paço. Um edifício nobre que semeia história. Por gratidão. O que posso adiantar é que houve vários colegas
certo, já pensou aproximá-lo a uma comunidade que me contactaram. Convém ser claro que estes
que, estou em crer, pouco ou nada o conhece. contactos não vinham do nada. Partilhávamos al-
Este pode ser um bom exemplo de estreitar re- O apoio do poder central é decisivo? gumas críticas sobre a situação da instituição. Na
lações… senda dessas manifestações de algum descon-
É, sendo que as universidades não têm capacidade forto, senti que poderia estar numa posição mais
Concordo. Estamos num espaço lindíssimo e histó- financeira para trabalhar na recuperação dos seus
rico, com um ‘peso’ muito grande, mas que nos cria edifícios. Tem de ser uma aposta faseada e, sobre- fácil em assumir este lugar, bem como congregar
dificuldade, ou seja, é quase uma ‘torre de marfim’ tudo, recorrendo a fontes de financiamento. Feliz- um conjunto de pessoas à volta da mesma ideia.
que nos afasta do sítio onde a universidade está a mente tivemos o PRR - Plano de Recuperação e Devo confessar que, numa fase inicial, rejeitei to-
acontecer, isto é, nos dois campi, particularmente Resiliência, que permite um esforço significativo das essas abordagens porque nessa altura tinha
em Braga (Gualtar) e Guimarães (Azurém). Este de renovação e até de construção. uma filha muito pequena, com problemas de sono.
afastamento propicia que, a certa altura, tomemos Estava numa fase complexa da minha vida pessoal
decisões e possamos construir regulamentos afas- Na sua cabeça já sabe o que vai fazer? e não sentia estabilidade para pensar no que quer
tados um pouco do que está a acontecer. Neste que fosse. Foi um processo que se arrastou um
sentido, vou pedindo a toda a minha equipa para Grosso modo está mapeado. pouco. A determinada altura, senti que a insistên-
estarmos absolutamente sintonizados para não Sente que a comunidade tem altas expetativas cia era cada vez maior. Por essa altura, a minha vida
deixar que isso aconteça. Queremos aliar o simbo- com esta nova reitoria? estabilizou, com ânimo diferente. Pouco depois,
lismo do edifício, como elemento de trabalho, com percebi que havia o posicionamento de outro can-
tudo o que acontece no terreno. Sinto. Temos ouvido muita coisa. As pessoas que- didato, o que fez com que essas pessoas que não
rem mudanças. Tenho uma grande vontade de se identificavam com esse candidato, quisessem
mesmo que eu avançasse.
16 JANEIRO · 2026 #SIMatuaREVISTA

