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CRÓNICA                                                                                                                                  EVENTO
              Q                        uerido Pai Natal,                          gos que se tornaram família e a certeza de que,
                                       CARTA AO PAI NATAL




                                                                                  mesmo na solidão, podem ser vistos, amados e
                                       Escrevo-lhe no silêncio das noites frias, quando
                                                                                  lembrados. Que ninguém se sinta invisível neste
                                       as ruas brilham de luzes e presépios, mas os cora-
                                                                                  Natal, porque a invisibilidade é, muitas vezes, a
                                       ções de muitos continuam vazios. Este ano, mais
                                                                                  maior pobreza.
                                       do que nunca, sinto que o Natal perdeu o seu ver-
                                       dadeiro sentido. Talvez seja apenas impressão mi-
                                                                                  num palco de aparências, jantares perfeitos, pre-
                                       nha, mas, quando caminho pela cidade e vejo as
                                                                                  sentes caros e selfies sorridentes, enquanto o que
                                       montras a disputar atenções com músicas repe-
                                                                                  realmente importa, a empatia, o amor genuíno, o
                                       tidas, noto sempre alguém que passa apressado,   Por vezes, parece que o Natal se transformou
                                       de olhar cansado, como se estivesse a atravessar   cuidar uns dos outros, fica esquecido. Que este
                                       dezembro apenas por obrigação.             Natal nos lembre de olhar para dentro e valorizar
                                                                                  o que é essencial, sem máscaras nem falsas ima-
                                       Não  peço  brinquedos  nem  grandes  banquetes.   gens. Não precisamos de árvores impecáveis nem
                                       Peço compaixão. Peço que o espírito do Natal   laços dourados para sermos humanos.
                                       alcance os que passam fome, os que não têm um
                                       teto, os que choram em silêncio e os que aguar-  Que Portugal possa ser, como o presépio, simples,
                                       dam milagres que tardam em chegar. Penso mui-  mas cheio de corações unidos, mãos dadas, soli-
                                       tas vezes nos que esperam algo tão simples como   dariedade e esperança. Que a essência do Natal
                                       um abraço, uma palavra ou apenas que alguém   seja sentir-se acolhido, amado e protegido. Este
                                       repare neles.                              é o presente que verdadeiramente importa. E há
                                                                                  tanta  gente  a  precisar  dele  que  não  cabe  numa
                                       Recordo o nascimento de Jesus, um menino nas-  lista de desejos.
                                       cido numa estrebaria, sem conforto nem rique-
                                       za, mas rodeado de amor e esperança. Que essa   E que, mesmo quando tudo parece escuro, se
                                       mensagem nos inspire a criar laços de cuidado e   lembrem, onde há amor, há Natal, e onde há Na-
                                       solidariedade, onde todos se sintam acolhidos.   tal, há sempre esperança. Talvez seja isso que
                                       Que possamos recordar que a maior abundância   realmente pedimos todos os anos, ainda que não
                                       não está no que se compra, mas no que se parti-  o digamos em voz alta, a esperança de que ainda
                                       lha.                                       somos capazes de cuidar uns dos outros.
                                       E aos que não têm família ou a perderam, Pai Na-  Este ano, Pai Natal, se puder, não traga magia ao
                                       tal, traga uma  palavra de  conforto. Que encon-  mundo.  Traga-nos  apenas  a  vontade  de  a  criar-
                                       trem calor nos pequenos  gestos, força nos ami-  mos nós mesmos.










               Fátima Campos




























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