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GASTRONOMIA TRAIL RUNNING
QUE BOLO ESCOLHER
R ecentemente, num vídeo publicitário de uma cadeia de Na cidade de Braga observa-se o seu fabrico também por
PARA A MESA DE NATAL?
supermercados, dois supostos clientes disputam com
esta altura. Em 1908, a pastelaria Suissa, numa campanha
publicitária feita no Jornal Comércio do Minho, refere que
alguma agressividade o único bolo-rei disponível. Esta
é fabrico especial desta caza, com surpresas, até ao dia de
escolha indica-nos que nos tempos actuais o bolo-rei
reis.
continua no centro da mesa natalícia. Todavia, nesta
mesma quadra, começa já a observar-se em algumas
A partir daqui a sua fama não pára de crescer e hoje é
superfícies comerciais a presença de um outro bolo: o
presença obrigatória à mesa, recheado de frutos secos
panettone. Ao mesmo tempo, e especialmente na re-
e decorado com frutas cristalizadas, onde sobressaem a
gião do Minho, o pão-de-ló já se exibe nas pastelarias.
tradicional abóbora branca, vulgo calondro, e o cidrão. A
popularização deste bolo leva ao aparecimento de ou-
Temos, assim, no que toca a doces de forno, a presença de tras variantes tais como o bolo-rainha, mais sóbrio e sem
três bolos, que têm vindo a disputar a mesa de Natal por frutos cristalizados, e, no caso de Braga, o escangalhado,
toda a região do Minho: o pão-de-ló, o bolo-rei e agora, onde predomina o recheio de creme pasteleiro e a deco-
parece, o panettone. Olhemo-los, então, com mais acui- ração com doce de chila, nem sempre assumindo a forma
dade. redonda.
O pão-de-ló está à mesa desde tempos bastante antigos, Finalmente, o panettone, que, tal como o bolo-rei, tam-
especialmente nas casas dos mais ricos. Podia dar vários bém é um pão doce de fermentação longa e recheado
exemplos, mas fico-me pelas mesa dos mosteiros benedi- com frutos secos e cristalizados, podendo levar ainda pe-
tinos onde, desde o século XVII, se serviam fatias de pão- pitas de chocolate. Trata-se de um bolo natalício da região
-de-ló, coberto ou não de açúcar, ao longo das duas oitavas italiana de Milão, com origens bastante antigas. A sua di-
do Natal. Esta presença vai perdurar nos séculos seguintes vulgação em Portugal, entre outras razões que se pren-
dem com a globalização, poderá estar ligada ao crescente
popularizando-se na última centúria. Actualmente, é co- aumento da imigração brasileira no nosso país, onde este
mum por todo o Minho comprar-se um pão-de-ló para o bolo é bastante popular, levado pelos emigrantes italianos.
Natal. As pastelarias exibem-no com grandiosidade os- Neste momento, verifica-se que em Portugal são cada
tentando as formas de barro em cima do balcão. Os super- vez mais as pastelarias que o comercializam nesta quadra,
mercados, mais contidos, vendem-no embalado. É claro assim como se tem vindo a observar a sua presença nas
que se come também noutras festas, particularmente na mesas de alguma figuras do jet set, que o ostentam com
Páscoa, mas no Natal é largamente apreciado. alguma pompa.
O bolo-rei chegou a Portugal por volta de 1870 quando a Perante este quadro de bolos que, ao longo dos séculos, se
Confeitaria Nacional, em Lisboa, iniciou o seu fabrico, im- têm vindo a fazer presentes, é caso para perguntarmos se
portando a receita de um congénere francês. Nos anos se- não estamos perante o nascimento de uma nova identida-
guintes vai-se divulgando pelo país sendo a receita publi- de alimentar. Será que, daqui a uns anos, o panettone vai
cada por Carlos Bento da Maia em 1904. Este autor afirma, ser mais uma iguaria obrigatória à mesa de Natal?
Anabela Ramos então, ser um bolo de ocasião que se vendia em Lisboa e E você, caro leitor, qual destes bolos vai escolher para o seu
Historiadora
Porto em grande quantidade, do Natal até aos Reis. Natal?
94 DEZEMBRO · 2025 #SIMatuaREVISTA

