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CRÓNICA JUSTIÇA
A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA
O romance de Umberto Eco A misteriosa chama da rainha É um romance que trata da construção do romance. O
Loana vem-me à cabeça ao ler José Moreira da Silva,
catalisador é o acaso excitando os sentidos, a visão de li-
nhas que uma força aleatória desenhou na parede, por
poeta, escritor, linguista, editor, e também dinamizador
isso a ação não flui de modo contínuo, mas entrecruzada
cultural da cidade de Braga. No livro de Umberto Eco,
de ações, como as rachas que a parede não pediu para ter,
um homem esqueceu-se de quem é por ter sofrido um
nem ela foi feita para isso — ninguém pediu para nascer, e
AVC; então vai em demanda de si próprio, procurando
objetos, lendo aventuras da sua infância, relacionando-
numa parede que não foi feita para tal?
-se com o mundo para se reencontrar consigo mesmo.
Uma forma apela a outra. O voo da abelha na infância no
Assim é a obra literária de José Moreira da Silva, uma bus- esta obra indaga-nos: estaremos no mundo como traços
ca constante, como se as personagens, ou o eu poético, narrador, e que nunca esqueceu, com as patas dobradas
padecessem de uma fome insaciável de tudo o que exis- em aspa (semelhantes aos traços), é reencontrado por ca-
te, aquela fome de Tântalo que nunca estará satisfeita. Há sualidade na idade adulta no desenho de um livro.
uma vontade fremente de esmiuçar esta arena onde eu, A lei do acaso ditando o percurso da vida. Um cheiro, uma
lutador, foi lançado.
cor, um som. Há a intertextualidade da natureza, como
Nasci. E agora? O que sairá daquela porta? E esta árvore, Proust na busca do tempo perdido, já que não é estimu-
o que significa para mim? “Quantas janelas há numa cida- lada a memória voluntária, mas a involuntária, mais rica e
de?”, interroga-se o poeta num soneto de Ósculo na areia, surpreendente. “De histórias está a parede cheia”, diz na
na sofreguidão de conhecer além do quotidiano, porque página 20, como se a parede fosse um livro, ou o Univer-
“quero das coisas mais do que a certeza”, exige no soneto so. O volitar de uma pomba na praça da cidade leva-nos
Profundidade, e noutros, onde nos deparamos com voca- a embarcar na Arca de Noé, pois “lembrar é transformar o
bulário fértil, versatilidade, riqueza fonética, na minuciosa real em imagens”, então entramos no labirinto de uma bi-
blioteca, como as de Borges ou a do Nome da Rosa: cada
pesquisa da multiplicidade do real, com que deseja ser ín- tropeção numa palavra conduz a novos livros.
timo.
Mas neste caos aparente há um fio de Ariadne: “o amor é
Irrequieto, vai à procura da Gramática das coisas (título de o orientador do mundo”, e não sendo nem científico nem
um livro de crónicas), porque as coisas falam, fazem-nos previsível, este sentimento leva-nos à liberdade total atra-
reagir, pois entre todos os seres se estabelecem relações: vés da eventualidade.
eu, tu, ele, as pessoas do discurso em simbiose, que “de
cultura mais profunda a fala se reveste”. Sente-se a obriga- Sendo fundamentalmente uma história de amor, Sete tra-
ção de responder ao que subitamente nos interpela, seja ços na parede nua responde à questão «O que é a realida-
um som imprevisto, um mosquito, ou Sete traços na pa- de?»: é não se estar seguro da realidade, tal como as linhas
rede nua (romance de 2020). Neste livro, tal como no de na parede conduzem as personagens a destinos imprevis-
Eco, as leituras, as observações, os casos fortuitos, moldam tos por caminhos improváveis, até que os sete homens e
novas imagens, assim como evocam as que se haviam per- mulheres se encontram em Madrid, no centro do jardim
dido. Há um diálogo com o leitor, solicitando-o, até porque público, no centro da Península Ibérica, no centro dos sete
nem o narrador omnisciente conhece todos os pormeno- traços que a força do acaso riscou na parede, o acaso “que
res da história que narra, o que é intrigante. nos atira para os braços de todos em todos os lugares”.
João Nuno Azambuja
88 DEZEMBRO · 2025 #SIMatuaREVISTA

