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CRÓNICA
LUZ AO FUNDO DO TÚNEL
H á quem espere o Natal com a ansiedade de quem ensaia Depois, já em casa de familiares e com a sala cheia... de ri-
sos, de músicas, do cheiro do bacalhau, das rabanadas ain-
um sorriso para uma fotografia que ainda não existe. O
da mornas. Tudo parecia… ilegítimo. Como se eu estivesse
Natal chega sem pedir licença, invade, exige presença,
impõe alegria como um decreto. Mas há casas onde a luz
a viver dentro de um cenário emprestado. Estava aneste-
não entra. Há portas fechadas, janelas que só deixam
siada, entregue ao absurdo cru da vida.
passar o eco das ausências, cadeiras que continuam a
Talvez tu também atravesses o Natal como quem atraves-
gritar por quem não voltou. Dezembro pesa. Dezembro
sa um campo minado. Cada gesto normal é um ato de co-
exige. E há quem já não tenha força para sustentar o es-
petáculo obrigatório da felicidade. O luto não tira férias.
de ser visto.
Muito menos no Natal.
Depois vem o Ano Novo, com a contagem decrescente
As luzes acendem-se cedo demais, os centros comerciais ragem. O amor que dói é silencioso, mas é feroz — e precisa
repetem músicas felizes como máquinas em piloto auto- ensaiada, o champanhe obrigatório, os fogos que rasgam o
mático, e as mensagens de “boas festas” caem como frases céu como promessas vazias. Nesse ano não consegui sor-
enlatadas. “Que o teu Natal seja cheio de alegria”, escre- rir, não consegui pedir desejos. Cada luz parecia uma men-
vem, como se a alegria fosse uma ordem. Como se enviar tira. Eu sabia. Sabia que aquele seria o pior ano da minha
a mesma mensagem em simultâneo para a lista de contac- vida. Sabia que o meu pai ia morrer. Cada brinde era uma
tos tivesse algum valor. contradição: celebrar a vida enquanto assistia, impotente,
à morte aproximar-se. Senti amor absoluto e dor infinita
Fala-se tanto de empatia e tão pouco de desconforto. ao mesmo tempo, a fusão brutal de ternura, desespero e
Quase ninguém fala do desconforto real: entrar numa sala impotência. Janeiro chegou. Sem pejo nenhum... levou o
onde alguém falta. Olhar para uma mesa igual a todas as meu pai.
outras e saber que nunca mais será a mesma. Da violên-
cia polida de ouvir um “então, já estás melhor?” dito com Mas mesmo aí, no meio da escuridão, a vida encontra bre-
gentileza, mas carregado da expectativa de que a tua dor chas: uma mão que se junta à nossa, alguém que não foge
já devia ter passado. Para muita gente, estas festas são uma da nossa dor, uma lágrima partilhada sem vergonha. O luto
maratona emocional sem sítio onde respirar. Sorrisos for- não desaparece. Aprende a caminhar ao lado da luz.
çados nas fotografias, presentes que pesam, músicas que Que Dezembro acabe sem te levar mais do que já levou. E
abrem feridas. Fingem normalidade para não incomodar que, no meio deste brilho todo, exista alguém — pelo me-
quem não sabe o que fazer com a dor dos outros. nos alguém — que tenha a coragem de ver a tua dor em vez
Estes dias arrastam-me sempre de volta ao quarto de hos- de te pedir que a escondas.
pital. O meu pai em coma, ligado às máquinas. O frio dos O Natal fala muito de luz, mas ninguém deveria ter vergo-
lençóis, o cheiro acre do desinfetante, o bip que marcava nha da própria escuridão. Talvez o milagre seja esse: atra-
um tempo que já não era tempo. Salvava-nos, a cartolina, vessar o escuro sabendo que a luz não está lá fora — está
colada na parede, com as nossas fotografias e a legenda dentro. Teimosa, frágil, crua, verdadeira.
“O amor supera tudo”. Apego-me a essa frase ainda hoje
— uma âncora ingénua, mas necessária. Segurei as mãos Que 2026 traga coragem, cuidado e, acima de tudo, o di-
dele como se pudesse resgatá-lo dali à força. Sair daquele reito de sentir tudo: a dor, a esperança e o intervalo entre
quarto na Consoada foi deixar metade de mim ali — e con- as duas. No fim, há sempre um túnel. E, por mais distante
tinuar a caminhar como se fosse possível. que pareça, a luz insiste. Há sempre luz. Sempre.
Patrícia Sousa
O AMOR SUPERA TUDO
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Literacia do luto - Sessões de Informação
Storyteller de Histórias de Vida de
Pessoas Especiais que já Morreram
Guia do Caminho de Santiago
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