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REPORTAGEM
SEGUNDA VIDA foi feita esta reportagem – e responde convictamente: “não. Não
há felicidade fora da tranquilidade e da paz. Uma pessoa em con-
Estar fora da televisão há quase uma década e ter agora este con- flito nunca vai ser feliz, vai ser sempre um ser problemático. Mesmo
junto de projetos é encarado pelo ator como uma ‘segunda vida’: “é que tenha muito trabalho, muito dinheiro, muitos amigos... se não
isso mesmo. Acho que a imprensa brasileira ao começar a divulgar tiver paz, nada adianta. Por exemplo, um grande milionário pode
que eu estou em Braga como diretor e responsável por um monó- ter um relógio, mas um relógio de 20 dólares marca a mesma hora
logo de sucesso, vão chamar-me de novo para fazer novela”.
que um relógio de milhão e meio... não é o dinheiro. A verdadeira
Esta nova oportunidade de ser feliz marca o regresso a um país no riqueza da vida é a paz de espírito”.
qual guarda grata memória: “há muito tempo que não vinha a Por-
tugal. Estou a adorar. Estive em 1978 na Mealhada e, também por Não largo a conversa sem recuperar uma frase anotada: “referiu
essa altura, em Peniche. Fui convidado para ser o ‘Rei do Carnaval’. há pouco que há 30 anos não conseguiria encarnar este proje-
Nunca mais voltei...”. Uma ausência que quer comprimir: “estive to que está a tentar implementar em Portugal. Como era o Kadu
em Ponte de Lima e agora estou em Braga. A visão é totalmente desse tempo?”. Sorri. Um sorriso que escurece ao acompanhar a
nova. Dá para sentir a importância da história com as suas catedrais lembrança do que ficou: “o Kadu há 30 anos era um galã assediado
e castelos. Estive no Sameiro e fiquei encantado. Fiquei mesmo que não podia sair na rua. Adorava o trabalho e fazia pelo melhor
emocionado, arrepiei-me todo. Senti o peso da espiritualidade, o quando pegava nos textos. No entanto, sempre que podia, escon-
valor da alma verdadeira e a gente está distante disso. Aqui esta- dia-me do mundo. Fiquei quase antissocial. Não participava em
mos próximos da essência do ser humano”. festas, não aceitava convites e não saía de casa. Tive uma namora-
da de quatro anos, depois uma namorada de cinco anos... para não
PAZ É AMOR ter de viver na rua e nas festas”.
Reservamos a palavra paz para o fecho da conversa. Pergunto A terminar, alerta que ao “ficar infeliz, perde-se a paz”, daí que te-
a Kadu Moliterno como a define. A resposta é pronta: “é estar de nha procurado “a felicidade o tempo todo, dentro do que o mun-
bem com a vida. É amor. Receber e transmitir amor. Nada abala do me ofereceu e agradeci ao destino me ter colocado nisto”. O
uma família que se ame. Não existe nada no mundo que destrua último rabisco fê-lo na consciência do dever cumprido: “não vivo
um amor familiar. A paz é estar bem consigo mesmo, não ter dú- do passado. O meu objetivo é hoje e agora e daqui para a frente.
vidas da sua alma, da sua honestidade, do seu amor à vida e agra- O passado já foi, o presente é uma dádiva e o futuro só Deus sabe.
decer diariamente”. Ato contínuo, solto uma provocação: “O ser Mas a gente planta. Na vida plantei e colhi. Hoje, estou a receber e
humano consegue ser feliz sem paz?”. Kadu lança o olhar para a ter a honra de ser o ‘embaixador da paz’. Simples”.
envolvência da livraria bracarense ‘Centésima Página’ – local onde
32 DEZEMBRO · 2025 #SIMatuaREVISTA

