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REPORTAGEM REPORTAGEM
TEXTO: Ricardo Moura
FOTOS: Hugo Delgado
C om 40 anos de TV Globo, onde participou em “ATOR NÃO TEM IDADE”
mais de 30 telenovelas, o ator brasileiro Kadu
O lamento é mais do que muito. Culpa a falta de lucidez e sensibi-
Moliterno virou o holofote para a paz. Um espírito
lidade de quem comanda. Interrogo o autor se a idade é um carim-
que tem conquistado nos últimos anos à custa de
55 anos de carreira, por entre sonho e amargura.
Observa-me com o olhar humedecido pela falta do aplauso. De
Confessa “sentir-se inteiro” sem desviar o olhar a um Brasil que bo para sair do palco. Respira fundo. Deixa o silêncio ganhar corpo.
pontapeia a arte. É esta falta de memória e gratidão que o fez seguida, olha-me profundamente e desabafa: “no Brasil é o que
embarcar para outros projetos. Um deles passou por Braga atra- está a suceder. Eu tenho 73 anos e sinto-me bem. Os veteranos es-
vés do ‘Florest Rock – A Festa da Paz’ onde assumiu o papel de tão encostados, não estão a trabalhar. Eles estão a valorizar mais
embaixador. aqueles que têm seguidores e isso é uma tristeza. Um ator não tem
Nos anos 80 não podia sair à rua. Era engolido pelos milhões de idade”. Aproveita o embalo para agradecer a quem ainda acredi-
fãs fruto do muito trabalho que produziu no teatro e na televisão ta: “olho para esta oportunidade, de voltar à Europa, como uma
brasileira. Era o ‘boom’ da telenovela que planou do outro lado do bênção. Venho como diretor de cinema e de teatro, trazer o meu
Continente até alastrar pela Europa. O rosto ‘vendia’. Os contratos talento e experiência para cá. A ideia é fazer uma peça teatral. Um
apareciam sem grande esforço. Hoje, com mais de 70 anos, Kadu monólogo com o título ‘De repente’. Porquê? Porque de repente
Moliterno, é uma ‘sombra’ com o coração a sangrar. Aponta o dedo tudo acontece na vida da gente. Vamos começar por Portugal e
à falta de memória e à ingratidão de um país que derrete o tanto queremos ir para a Itália, Espanha, Suiça e restantes países da Eu-
que se fez no meio artístico: “depois de fazermos 50 ou 60 anos, ropa. No Brasil estava a fazer uma peça de Augusto Cury, ‘O futuro
já nem olham mais para o currículo. Não faz sentido. Você vê no da Humanidade’, onde interpretava a personagem de um psicólo-
Japão as pessoas a trabalhar com 90 anos. Se é lúcido e saudável
pode trabalhar até ao fim da vida. Principalmente o ator. Posso fa- go, morador de rua, que só falava a verdade. E isso trouxe-me alen-
zer o pai, o avô. Agora, eu acho muito estranho, por exemplo, um to para a minha alma. É importante você sentir-se inteiro como ser
diretor atual de 30 anos, diz que não me conhece. Eu digo-lhe para humano e tudo tem o seu momento certo. Se fosse há 30 anos não
perguntar para a mãe dele quem é o Kadu. Um diretor de elenco conseguiria vir a Portugal fazer um monólogo. Agora tenho baga-
não pode não saber quem são os atores que fizeram a história da gem e experiência e venho em nome da paz, o mais importante no
TV brasileira”. momento”.
28 DEZEMBRO · 2025 #SIMatuaREVISTA

