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REPORTAGEM REPORTAGEM
SAUDADES DO PALCO não posso ser ouvido. Qualquer posicionamento que tenha lá, sou
massacrado. É melhor nem tocar nesse assunto”.
Não obstante esta força interior, Kadu Moliterno não disfarça a dor
pelo esquecimento a que foi sujeito há quase uma década: “isto “AGORA ESTOU INTEIRO”
dá uma dor de alma. A palavra é essa. Não sou só eu, são centenas Avanço se a palavra saturação faz sentido na vida de um ator que
de atores da minha geração que estão a ir para o teatro e cinema. deve à ficção brasileira tudo que conquistou. Hesita. Um hesitar
A televisão não está a chamar, não está a valorizar”. Lembra que a que logo entendi como proteção. Um proteger de quem ama mes-
última participação na televisão foi na TV Record. Aconteceu em mo sendo maltratado. Arrisca e fala em deceção: “não sei se a pa-
2016. Questiono se a palavra saudade mora no peito. Perto de ‘de- lavra é ‘saturado’, mas estou dececionado com o Brasil. Posso dizer
sabar’, responde: “sim, sinto saudades. Saudades da coxia, do texto. que a violência tomou conta, principalmente onde vivo, no Rio de
Gosto muito de estar em cena. A minha alma sente-se feliz”.
Janeiro. Existe uma insegurança total, não se pode sair à rua, an-
Deixo que o autor se recomponha. Pega no lenço de papel e apara dar com celular. Você é parado na rua, não sabe se é a polícia ou
as lágrimas. Há silêncio cortante. Uma lâmina que se apazigua com a milícia. Está muito complicado”. Chegado aqui solta a memória
o ponteiro do relógio. De seguida, pergunto como se ultrapassa a para um rumo que faça menos mal à cabeça: “acho que estamos
dor. A resposta chega com uma força inesperada: “é vir para cá! a sair num momento muito oportuno. Nada nesta vida é por aca-
O Brasil não tem respeito pelos profissionais. E agora, vindo para so, desde a minha entrada na televisão até hoje. Estou num mo-
cá, tenho a certeza de que me vão respeitar... porque vim para cá. mento que posso ser ouvido, antes não podia. Agora estou inteiro.
Emociono-me porque foi muito trabalho até chegar aqui. Também Tenho muitos fãs que me admiram e que me dizem que os fiz feliz,
é uma emoção de felicidade porque tem gente que não tem opor- que fiz chorar e rir e isso vem do povo, não vem dos dirigentes, dos
tunidade de dar a ‘virada’ e virar um ‘embaixador da paz’...eu tive diretores, dos responsáveis da televisão, vem de quem realmente
essa sorte”. acompanha a carreira dos atores. O talento não se mede. São todos
iguais, mas são poucos os que têm 50 anos de carreira”.
“NO BRASIL NÃO POSSO SER OUVIDO”
REGRESSO DA ‘BORBOLETA’
Kadu Moliterno volta a ‘bater’ no Brasil que ama. Não compreende
a cúpula do poder. Olha para o céu e tenta encontrar palavras para Mesmo neste caldo com condimentos sem sal, não há espaço para
descrever o respirar do ‘país irmão’: “no Brasil está a acontecer uma baixar os braços. Uma força pelos muitos que acreditaram e por
coisa muito estranha. Um conceito “para quê valorizar a família e a tantos outros que ainda valorizam o trabalho honesto: “desistir,
pátria?”. Isto é a base de tudo! E temos um Presidente que fala nis- nunca! ‘Never Give Up’ (Nunca desistir)! Tenho esta frase como fi-
so. Não faz sentido. Achei que na vida nunca iria ouvir e passar por losofia de vida. Foi o meu pai que me ensinou. Só crescemos quan-
isso. Por isso defendo que a gente tem de se posicionar, não tem de do batemos lá no fundo. Ninguém cresce na vida se não passar por
deixar passar em branco. Aqui na Europa eu posso falar. No Brasil dificuldades. A dificuldade traz aprendizagem e crescimento. É o
que me está a acontecer agora: não estou a ser chamado no Brasil,
mas abriu uma porta na Europa para ser o ‘embaixador da paz’ e
trazer um monólogo. E quando eu regressar, eles vão respeitar-me.
“Poxa Kadu, que legal!”. Quando a vida está por cima, aparece mui-
ta gente. São como borboletas. Quando sentem luz, ficam. Quan-
do a luz se apaga, desaparecem. É a vida!”.
“NÃO HÁ AMIGOS NA ARTE”
O ruído do nada foi lição que aprendeu à medida do tempo. Olho
para o meu entrevistado e sinto que pouco ou nada o pode sur-
preender em matéria de relações humanas: “não há amigos na
arte. A confiança está na família – pai, mãe, irmão, esposa, filhos.
São estes que dão suporte até ao fim. O resto é assim: quando tens
sucesso, querem aproveitar-se de ti. No fracasso, desaparecem”.
Não há felicidade fora da tranquilidade e da
paz. Uma pessoa em conflito nunca vai ser feliz,
vai ser sempre um ser problemático. Mesmo que
tenha muito trabalho, muito dinheiro, muitos
amigos... se não tiver paz, nada adianta.
30 DEZEMBRO · 2025 #SIMatuaREVISTA

