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REPORTAGEM
EMBAIXADOR DA PAZ nesto, quando se posiciona bem na vida, tem boa educação...meu
pai era professor de ténis. Ensinou-me que a humildade e a hones-
É fácil conversar com Kadu Moliterno. Tem o coração no lugar cer- tidade são o único caminho para o sucesso. Foi o que aconteceu
to. Fala de paz como o ar que respira. Sente-se grato pelo presente comigo. Agora, estou no momento maduro para poder ser embai-
e explica a razão: “para mim foi uma honra ter sido convidado para xador da paz e trazer a minha arte para a Europa”.
ser embaixador do ‘Florest Rock – A Festa da Paz’, idealizado pelo
meu amigo Renato Pimentel. Aconteceu num momento perfeito
da minha carreira. Estou a comemorar 55 anos de uma carreira bo-
nita. O mundo está de cabeça para baixo. Os dirigentes mundiais
estão a pensar em guerra e nós, como população, temos de pensar
em paz. Acho que cheguei na hora certa e agradeço mais uma vez
o convite e estou disponível e aberto para projetos dentro da área
artística, principalmente teatro e cinema, para posicionar, colocar e Depois de fazermos 50 ou 60 anos, já nem olham
passar toda a experiência que tenho de vida artística”. mais para o currículo. (...) Acho muito estranho,
“ENTREI NA TELEVISÃO...POR ACASO” por exemplo, um diretor atual de 30 anos, diz
Apesar dos anos 80 serem sinónimo de fama e prestígio, já na dé- que não me conhece. Eu digo-lhe para perguntar
cada anterior Kadu Moliterno tinha descoberto a representação. para a mãe dele quem é o Kadu. Um diretor de
Ironia do destino, o arranque está associado a uma novela portu- elenco não pode não saber quem são os atores
guesa: “foi engraçado porque entrei na televisão muito por acaso. que fizeram a história da TV brasileira. Fico
Foi na novela ‘As pupilas do senhor reitor’. Fazia de Pedro, enquan- indignado!
to criança. Na altura, trabalhava numa agência de publicidade.
Certo dia, um modelo faltou para fazer as fotos para uma revista
e o meu chefe disse “veste essa camisa, vê se serve”. Serviu! Foi
assim que saí na revista ‘Claúdia’. Mais tarde, um diretor, Dionísio
Azevedo, que já faleceu, estava a folhear a revista na televisão ‘TV
Record’ de São Paulo, quando me viu e disse “este garoto tem olho
claro e cabelo muito parecido com Fúlvio Stefanini (Ator). Liguem
para ele”. Assim aconteceu. Procuraram na agência e fui. Conheci
o Dionísio e pediu para ler um texto. Li e disse-me “se você quiser
trabalhar, está contratado”.
DO DESPORTO À FICÇÃO
Um contexto surreal para os dias de hoje onde a ‘máquina’ já tem
o perfil formatado: “veja bem como as coisas aconteciam naquela
época. Eu nem sabia o que era atuar. A minha vida era ser despor-
tista. Fui campeão de natação e vice-campeão de ténis. Fazia gi-
nástica olímpica. Nem houve teste. No dia seguinte já estava em
cena, gravando a novela. Adorei fazer aquela brincadeira”. Uma
diversão que cedo virou paixão: “a verdade é que fiquei apaixona-
do pela profissão. Gravei durante 15 dias. Quando acabou fui para
um canto chorar e ele veio ter comigo e perguntou porque estava
a chorar e respondi que queria continuar a gravar. Ele disse que já
tinha uma personagem para mim e que ia ser protagonista na pró-
xima novela. Interpretei ‘O Príncipe e o Mendigo’ de Mark Twain.
Eram duas personagens contracenando comigo mesmo. Foi a pri-
meira vez, na história da televisão brasileira, que a imagem foi divi-
dida ao meio. Fazia de ‘Príncipe’ e de ‘Mendigo’. A partir dali nunca
mais parei de trabalhar”.
“ACREDITO NO DESTINO”
Tenho à minha frente um homem de fé. O caminho teve ‘pedras’,
mas nunca impediram o ‘espanto’ pelo que observava e a crença
que podia derrotar o infortúnio: “claro que na época, como está a
acontecer agora, fazia uma novela e ficava desempregado. Então,
virei propagandista de laboratório para sobreviver. Voltei para o
teatro e do teatro para a televisão. E esse ‘espanto’ que você disse
já acontece há 55 anos”. Um tempo largo que invoca com visível
orgulho: “sou uma pessoa que acredita no destino. Quando é ho-
#SIMatuaREVISTA DEZEMBRO · 2025 29

