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REPORTAGEM
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Vejo-me ‘à rasca’ em certas
alturas. Sou instintivo,
intuitivo, não faço grandes
planos. Agarro o material e
começo e a páginas tantas
para onde vou... estou
lixado..., mas não largo e
tenho de descobrir soluções.
“NUNCA DEI MUITO VALOR AO
APLAUSO”
Tudo é arte. Em cima do palco ou senta-
do a burilar uma máscara. Pelo meio, que
importância tem um aplauso? De forma
surpreendente, António Jorge puxa pelo
gatilho da memória e responde: “pode pa-
recer um bocadinho mau, mas nunca dei
muito valor ao aplauso. Sou espetador de
mim próprio. É agradável, mas não é isso
que me leva a acabar uma peça ou obra
em artes plásticas e começar uma outra”. FECHO DA CORTINA “FIQUEI DESILUDIDO COM BRAGA -
Porém, a falta dele nunca aconteceu: Falamos do aplauso que sai ou não. E a CAPITAL DA CULTURA”
“nunca tive essa experiência. Felizmente cortina quando se fecha é um alívio ou um No ano findo, Braga ostentou a bandeira de
nunca tive. Podem achar estranho e não dever cumprido para o ator? António Jor- capital portuguesa da cultura. O resultado
gostar tanto e percebemos isso perfeita- ge respira fundo. Passa a mão pela cabeça no trabalho de António Jorge foi nulo: “con-
mente, mas nunca tive essa experiência e diz: “dever cumprido. Cada ator tem o corri com um projeto de programação que
das pessoas não baterem palmas. Embora seu método de entrar na coisa, de aque- permitiria abrir o meu atelier ao público du-
tenhas espetáculos que as pessoas che- cer, de se mentalizar... naquele tempo que rante todo o ano com exposições e peque-
gam cá fora e dizem que foi uma ‘merda’, estás em palco estás num outro estado... nos espetáculos. O projeto foi chumbado.
não ouvi nada, não percebi nada – tam- mas quando esse momento resulta, a res- Fiquei desiludido, mas estamos habituados.
bém faz parte”. piração do público e do palco funciona... Pode ser, e acredito que sim, que outros
aí no fim... é agradável!” projetos que venceram tenham sido mais
interessantes. Embora, do que vi e que per-
NÃO CONHEÇO CURADORES
cebi da ‘Braga 25’, desiludiu-me. As capitais
Em volta de nós estão centenas de obras de cultura são um mecanismo perverso. Ra-
de arte a pedir casa. A venda está difícil ramente criam raízes, fixam massa crítica e
pela ausência de um contacto, com auto- artistas ou promovem um público mais cos-
ridade, que possa espalhar a palavra: “não mopolita e exigente. Nas políticas culturais
conheço nada, estou à margem, não co- persiste o equívoco entre animação cultural
nheço curadores. Obriguei-me há cerca e arte: são coisas diferentes, com propósitos
de dois anos a fazer uma página no Ins- e alcance diferentes. E, no entanto, Braga
tagram e um site. Tenho vendido pouca tem tudo para se afirmar a um outro nível”.
coisa. Isto precisa rodar. Concorri à CON-
TEXTILE – Bienal de Arte Têxtil Contem-
porânea de Guimarães e fiquei de boca OLD.CAT.ART
aberta. Fui selecionado.... 1.300 artistas Razões Poéticas - Associação Informal
de 75 países a concorrer e selecionaram de Artes
duas peças e fiquei com ânimo. Convida- Praça das Andorinhas, 6 A, Braga
ram para as ‘Peninsulares’, cinco artistas @old.cat.art_
de Espanha e cinco artistas de Portu- antonio-jorge.com
gal... esteve em exposição em Guimarães Visitas – 964 345 592
– onde é bem visível o trabalho e investi-
mento continuado na cultura”.
50 MARÇO · 2026 #SIMatuaREVISTA

