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REPORTAGEM



                                                    não  nega  que  o  trabalho  teatral  o  forçou  a   tual”. Em contraponto, encontrou verdade na
                                                    abrir portas: “as artes plásticas têm a ver com   arte: “um objeto é um objeto. Olhas e lês o que
                                                    isso.  Grande  conflito com  a palavra.  A pala-  queres, mas ele está ali, não mente. É o que
                                                    vra  tem  sentido  no  teatro,  é posta  em  ação   é, é mau, é bom, bonito, é feio... depende de
                                                    no teatro. Demoramos dois meses em média   quem olha, mas o objeto não muda, está ali. A
                                                    para montar o espetáculo, ensaiamos a ‘partir   verdade da matéria e o efémero da palavra…
               Um objeto é um objeto.               pedra’, a dar-lhe o melhor que conseguimos,   este conflito, foi isto que vivi e que me ajudou
                                                    os  atores,  encenadores,  cenógrafos...  zan-
                                                                                         a apurar um modo de expressão no teatro e
               Olhas e lês o que queres, mas        gamo-nos, exigimos mais uns dos outros até   nas  artes  plásticas…  o  processo  artístico  é
               ele está ali, não mente. É o         que estreamos. É uma aposta de risco. Nunca   igual, é muito interessante esse lado; a ética
               que é, é mau, é bom, bonito, é       sabemos  se  um  determinado  tipo  de  espe-  no trabalho e na pesquisa é a mesma”.
                                                    táculo  vinga…  muitas  vezes  pode  morrer  na
               feio... depende de quem olha,        praia. Isto é, dás três ou quatro espetáculos,   “DESDE CEDO QUE AS ARTES
                                                                                         PLÁSTICAS VIVEM EM MIM”
               mas o objeto não muda, está          foram 1.000 ou 1.500 pessoas ver e morreu   Quando olha para o retrovisor, dá conta que
                                                    ali”.  Uma frustração  que  fez  contrabalança
               ali. A verdade da matéria e          com as artes plásticas: “tem muito a ver com a   as  artes  plásticas  sempre  rondaram  o  cami-
               o efémero da palavra… este           materialidade. Fazer uma obra e está ali, pode   nho  que  trilhou:  “apareceu  cedo.  Aos  oito,
                                                    ser  vista  e apreciada.  Não  pensava  isso  na
               conflito, foi isto que vivi.         altura, uma  pessoa aprende, a  palavra tanto   nove  anos  escrevi  uns  poemas,  coisas  ab-
                                                                                         surdas,  mas  de  uma  ingenuidade  deliciosa.
                                                    serve para mudar o mundo no sentido posi-  Deixei isso de lado, mas tinha apetência para
                                                    tivo como para estragar tudo. Confesso que   artes manuais... não havia muita tradição, mas
               OBCECADO POR TRABALHO                estou  um bocado  desiludido  com o  teatro.   havia sempre uma mãe e avó que faziam ren-
               Não  se  pense  que esta  falta  de  protagonis-  Hoje o que acontece é nivelar por baixo, o pú-  das  e pontos. Fiz arraiolos,  tapetes, lembro-
               mo o tenha libertado. Pelo contrário. A busca   blico não vai perceber, coitadinho, e temos de   -me de uma almofada de 11 pontos diferentes
               pelo belo é uma constante: “sou um bocadi-  baixar. Já se traduz Gil Vicente. A única coisa   que era uma borboleta. Tinha esse gosto de
               nho obcecado por trabalho, por fazer, ajudar.   que Gil Vicente tem de interessante e que nos   fazer essas pequenas coisas. No teatro, surge
               Algum  voluntarismo  absurdo.  Para  além  de   deixou foram as palavras escritas e isso esta-  a contradição entre o efémero da palavra e a
               ator, de carregar e descarregar cenários, sem-  mos a traduzir e estamos a arrancar tudo dos   materialidade dos objetos. Tinha 30 e tal anos.
               pre fui alimentando a questão plástica como   programas  das  escolas.  Abrem  concursos,  e   Começo pela máscara”.
               o texto habita o espaço vazio que é o teatro...   bem, verbas e fundos… mas de repente está
               tudo de forma autodidata de explorar mate-  toda a gente a fazer violência doméstica ou   MÁSCARAS
               riais, dimensões, técnicas nessa parte plástica.   igualdade de género”.   Os  primeiros  rabiscos  estão  nas máscaras.
               Mesmo aqui fiz algumas coisas, alguns cená-  PODER DA PALAVRA             A primeira é inesquecível: “era preciso fazer
               rios. Mas esse lado mais prático é sempre bom                             uma  máscara  para  os  Persas...  e  tinha  visto
               ter para montar espetáculos e sempre fiz com   António Jorge valoriza a força da palavra. O   uma  exposição  onde  tinha  máscaras  e não
               gosto”.                              partilhar com ética. Não admira que relate al-  achei nada de especial. Esqueci, mas depois
                                                    gumas desilusões: “a palavra mexe no sentido
               ‘NAMORO’ ESFUMADO COM O TEATRO                                            foi  necessário  num  espetáculo  fazer  uma
                                                    de  alguma  desilusão,  porque  tem  esse  lado   máscara e fiz. Autodidata, por instinto, era de
               As palavras  diluem-se  e voltam  a erguer-se   pernicioso e que agora se fala muito das fake   latão,  arame  dourado  e tinha  uma  base  em
               consoante o brilho de António Jorge. O ator   news, do que é verdade não é verdade, do vir-  camadas de papel que faz a forma do rosto e
                                                                                         depois era com folha de ouro. Nesse dia a dia,
                                                                                         chegava à uma da manhã a casa. Eu, obses-
                                                                                         sivamente, estava três  horas  a trabalhar  nas
                                                                                         máscaras”. Uma obsessão que o acompanha
                                                                                         diariamente: “existe sim, mas é mais pelo lado
                                                                                         da  necessidade.  Se  estou  parado  começo  a
                                                                                         mexer  as mãos  e  ficar  irrequieto. Ao  fazer...
                                                                                         entro no mundo, a ficha cai, estou no sítio cer-
                                                                                         to, estou a fazer algo que sou eu, que é pró-
                                                                                         ximo”.
                                                                                         AUTODIDATA
                                                                                         Impressiona  o  trabalho  que  temos  à  nossa
                                                                                         volta. Um espaço exíguo para tanto material.
                                                                                         Mais  impressiona  saber  que  tudo  foi  cons-
                                                                                         truído pelo instinto: “comecei com esta coisa
                                                                                         das máscaras até às três e quatro da manhã,
                                                                                         de  modo diário,  durante 10  anos.  Fiz  800
                                                                                         máscaras.  Fiz inconscientemente. Tinha  ne-
                                                                                         cessidade de fazer e comecei a experimentar
                                                                                         coisas e materiais. Ráfia, papel, arame, tripas,
                                                                                         fios telefónicos que eram antigamente muito
                                                                                         coloridos, madeira…”.


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