Page 48 - SIM 316
P. 48
REPORTAGEM
não nega que o trabalho teatral o forçou a tual”. Em contraponto, encontrou verdade na
abrir portas: “as artes plásticas têm a ver com arte: “um objeto é um objeto. Olhas e lês o que
isso. Grande conflito com a palavra. A pala- queres, mas ele está ali, não mente. É o que
vra tem sentido no teatro, é posta em ação é, é mau, é bom, bonito, é feio... depende de
no teatro. Demoramos dois meses em média quem olha, mas o objeto não muda, está ali. A
para montar o espetáculo, ensaiamos a ‘partir verdade da matéria e o efémero da palavra…
Um objeto é um objeto. pedra’, a dar-lhe o melhor que conseguimos, este conflito, foi isto que vivi e que me ajudou
os atores, encenadores, cenógrafos... zan-
a apurar um modo de expressão no teatro e
Olhas e lês o que queres, mas gamo-nos, exigimos mais uns dos outros até nas artes plásticas… o processo artístico é
ele está ali, não mente. É o que estreamos. É uma aposta de risco. Nunca igual, é muito interessante esse lado; a ética
que é, é mau, é bom, bonito, é sabemos se um determinado tipo de espe- no trabalho e na pesquisa é a mesma”.
táculo vinga… muitas vezes pode morrer na
feio... depende de quem olha, praia. Isto é, dás três ou quatro espetáculos, “DESDE CEDO QUE AS ARTES
PLÁSTICAS VIVEM EM MIM”
mas o objeto não muda, está foram 1.000 ou 1.500 pessoas ver e morreu Quando olha para o retrovisor, dá conta que
ali”. Uma frustração que fez contrabalança
ali. A verdade da matéria e com as artes plásticas: “tem muito a ver com a as artes plásticas sempre rondaram o cami-
o efémero da palavra… este materialidade. Fazer uma obra e está ali, pode nho que trilhou: “apareceu cedo. Aos oito,
ser vista e apreciada. Não pensava isso na
conflito, foi isto que vivi. altura, uma pessoa aprende, a palavra tanto nove anos escrevi uns poemas, coisas ab-
surdas, mas de uma ingenuidade deliciosa.
serve para mudar o mundo no sentido posi- Deixei isso de lado, mas tinha apetência para
tivo como para estragar tudo. Confesso que artes manuais... não havia muita tradição, mas
OBCECADO POR TRABALHO estou um bocado desiludido com o teatro. havia sempre uma mãe e avó que faziam ren-
Não se pense que esta falta de protagonis- Hoje o que acontece é nivelar por baixo, o pú- das e pontos. Fiz arraiolos, tapetes, lembro-
mo o tenha libertado. Pelo contrário. A busca blico não vai perceber, coitadinho, e temos de -me de uma almofada de 11 pontos diferentes
pelo belo é uma constante: “sou um bocadi- baixar. Já se traduz Gil Vicente. A única coisa que era uma borboleta. Tinha esse gosto de
nho obcecado por trabalho, por fazer, ajudar. que Gil Vicente tem de interessante e que nos fazer essas pequenas coisas. No teatro, surge
Algum voluntarismo absurdo. Para além de deixou foram as palavras escritas e isso esta- a contradição entre o efémero da palavra e a
ator, de carregar e descarregar cenários, sem- mos a traduzir e estamos a arrancar tudo dos materialidade dos objetos. Tinha 30 e tal anos.
pre fui alimentando a questão plástica como programas das escolas. Abrem concursos, e Começo pela máscara”.
o texto habita o espaço vazio que é o teatro... bem, verbas e fundos… mas de repente está
tudo de forma autodidata de explorar mate- toda a gente a fazer violência doméstica ou MÁSCARAS
riais, dimensões, técnicas nessa parte plástica. igualdade de género”. Os primeiros rabiscos estão nas máscaras.
Mesmo aqui fiz algumas coisas, alguns cená- PODER DA PALAVRA A primeira é inesquecível: “era preciso fazer
rios. Mas esse lado mais prático é sempre bom uma máscara para os Persas... e tinha visto
ter para montar espetáculos e sempre fiz com António Jorge valoriza a força da palavra. O uma exposição onde tinha máscaras e não
gosto”. partilhar com ética. Não admira que relate al- achei nada de especial. Esqueci, mas depois
gumas desilusões: “a palavra mexe no sentido
‘NAMORO’ ESFUMADO COM O TEATRO foi necessário num espetáculo fazer uma
de alguma desilusão, porque tem esse lado máscara e fiz. Autodidata, por instinto, era de
As palavras diluem-se e voltam a erguer-se pernicioso e que agora se fala muito das fake latão, arame dourado e tinha uma base em
consoante o brilho de António Jorge. O ator news, do que é verdade não é verdade, do vir- camadas de papel que faz a forma do rosto e
depois era com folha de ouro. Nesse dia a dia,
chegava à uma da manhã a casa. Eu, obses-
sivamente, estava três horas a trabalhar nas
máscaras”. Uma obsessão que o acompanha
diariamente: “existe sim, mas é mais pelo lado
da necessidade. Se estou parado começo a
mexer as mãos e ficar irrequieto. Ao fazer...
entro no mundo, a ficha cai, estou no sítio cer-
to, estou a fazer algo que sou eu, que é pró-
ximo”.
AUTODIDATA
Impressiona o trabalho que temos à nossa
volta. Um espaço exíguo para tanto material.
Mais impressiona saber que tudo foi cons-
truído pelo instinto: “comecei com esta coisa
das máscaras até às três e quatro da manhã,
de modo diário, durante 10 anos. Fiz 800
máscaras. Fiz inconscientemente. Tinha ne-
cessidade de fazer e comecei a experimentar
coisas e materiais. Ráfia, papel, arame, tripas,
fios telefónicos que eram antigamente muito
coloridos, madeira…”.
48 MARÇO · 2026 #SIMatuaREVISTA

