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REPORTAGEM                                                                                                                              REPORTAGEM


                         ARTE POR RAZÕES POÉTICAS


                                                    ANTÓNIO JORGE


                                ATOR E ARTISTA PLÁSTICO EM BRAGA

                                                             TEXTO: Ricardo Moura
                                                        FOTOS: Marta Amaral Caldeira | DR






































              D           esde  puto  que  gosta  de  me-  O primeiro sinal aconteceu na terceira classe,   se falarmos da ética profissional e no sentido


                          xer  e construir  o imaginário.
                                                                                         de  cidadania,  como  homem  e  como artista,
                                                    ainda em tempos de ditadura, quando a pro-
                                                                                         aprendendo a humildade e a coragem de cor-
                          Quando entrou, pela primeira
                                                    fessora  chegou  num  determinado  dia  a  falar
                          vez, no teatro sentiu o sangue
                                                                                         rer riscos”.
                                                    de poesia: “recordo muito bem esse momento
                          a  fervilhar. António  Jorge,
                                                    Foi  um momento  libertador,  fantástico…senti
               nascido em Coimbra, é um homem que toca   onde  pudemos  escrever  o  que  quiséssemos.   A ESCOLA DA NOITE
               vários instrumentos. O atelier tem sede em   que estava perante algo diferente”. Aluno me-  É neste contexto, sem o crivo da censura, que
               Braga e quer chegar mais longe. Um embar-  diano, estava longe de prever que o teatro fos-  avança para a companhia de teatro ‘A Escola
               que com farol à vista: mostrar a identidade   se a raiz de um percurso com décadas: “embo-  da Noite’: “esse núcleo de aficionados, que es-
               que possui, banhada pela ética profissional   ra nunca me desse bem com a escola e com a   tava no teatro universitário, juntou-se e formá-
               de que não abdica. Se ficou curioso, marque   universidade, a verdade é que sentia que podia   mos uma companhia profissional e subsidiada.
               a sua visita e dê um pulo à Praça das Andori-  seguir um caminho diferente. O teatro univer-  Aconteceu nos anos 90”. Foram quase 20
               nhas, em Braga. Ao entrar, afague o fôlego.   sitário foi decisivo”.      anos de batalhas. Poucas horas de sono que
               Há muito espanto para ver.                                                não impediam o sorriso e o brilho do aplauso:
                                                    LIBERDADE CRIATIVA
                                                                                         “posso dizer que fui feliz. São processos inten-
                                                    Estava na casa dos 20 quando uma colega   sos. A maior parte das pessoas não tem noção
               É fácil falar com António Jorge, artista plásti-  o  convenceu  a  experimentar  um palco.  Foi   disso. Quem vive das ‘Artes’ é duro, ganha-se
               co radicado em Braga, terra de religião e arte.   avassalador o que sentiu: “foi uma grande   pouco, temos de provar muito… por outro lado,
               O olhar  convida  à serenidade.  Pousamos  a   paixão. Era fantástico, tínhamos liberdade de   fazemos  o  que  queremos,  trabalhamos  em
               tensão com  facilidade. Ao  entrarmos  no  es-  escolher autores e encenadores. Na altura, o   cima de temas que nos interessam e possam
               paço, cedo percebemos que estamos peran-  associativismo universitário era forte e o teatro   interessar aos outros e isso é muito gratifican-
               te um homem incomum. Veio a verificar-se no   de estudantes universitários de Coimbra – o   te… éramos poucos e fazíamos tudo, era muito
               adeus. Luminoso e terno, este artista nascido   mais velho da Europa – era forte, e tínhamos a   intenso e forte. O Município de Coimbra não
               na terra do fado, é todo ele um novelo de me-  liberdade para buscar pessoas para nos ensi-  aliviou a tensão. Essa luta uniu mas também
               mórias cruzadas à medida das escolhas.   nar”. Um trunfo que moldou o homem: “mudei   desgastou a companhia”.

               46                                               MARÇO · 2026                                 #SIMatuaREVISTA
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