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REPORTAGEM



                                                    RECONHECIMENTO                       o que isso acarreta: “Coimbra é a cidade dos
                                                                                         doutores... há muita gente e ‘guerra de pode-
                                                    Com  duas  décadas  de  palco,  o  reconheci-
                                                    mento público  aconteceu  ou nem  por  isso?   res’… a universidade é um clã, a Câmara Mu-
                                                    A resposta  atravessa  vários  ângulos:  “posso   nicipal desculpabiliza-se e não faz ou então
                                                    dizer  que sim,  embora  esta  coisa  do  teatro   entram em choque. Depois os doutores, mé-
                                                    independente não é de todo reconhecida. O   dicos,  advogados  fazem  massa  crítica...  não
               Gosto da cidade, gostei das          que sai ao Estado, a quantidade de espetácu-  rola porque fica nesse ‘jogo de poder’. Qual-
               gentes. Foi fácil. Coimbra           los, espetadores, o Estado não paga esse tra-  quer ideia tem muitos atritos. Aqui em Braga,
                                                    balho. Durante esses anos, não tive grandes
               e Braga são dois mundos              férias.  Levantava-me,  8h30/9h00 estava  a   não. Mal ou bem as coisas fazem-se”.
               muito diferentes. Coimbra            trabalhar, havia coisas de produção para fazer   “NÃO VENHO MUITO ENTUSIASMADO”
               é muito intelectualizada,            e depois à tarde  ensaiávamos  ou tínhamos   Por paradoxo, António Jorge recorda os pri-
                                                    formação e à noite tínhamos espetáculos e no
               fechada, pesada. Braga é             dia seguinte a mesma coisa e aos fins-de-se-  meiros dias em Braga sem grande entusias-
                                                                                         mo:  “aqui  a  companhia  é  mais  centralizada,
               muito aberta, as pessoas são         mana o mesmo”.                       é um modelo. Muito centrada no diretor Rui
               muito mais abertas e faz-se          CHEGADA A BRAGA                      Madeira. Na companhia em Coimbra era di-
               coisas em Braga.                     Instalado  em  Coimbra,  eis  que  entra  na  es-  ferente,  tínhamos  uma  direção  com  várias
                                                    trada a palavra Braga. Porquê? A resposta é   pessoas e discutíamos demasiado. Mas aqui
                                                    linear:  “porque  houve  uma  rutura  e porque   também sabia para o que vinha. Vim para ser
                                                    havia algum contacto e conhecimento. Tínha-
               ARTE NO ARAME                                                             ator e fazer um trabalho muito concreto e aju-
                                                    mos intercâmbio com a ‘Companhia de Teatro
               Não  obstante,  a  companhia  foi  adquirindo   de Braga’ e conhecia o diretor. O Rui Madeira   dar  em  outras  coisas”.  A reboque,  a certeza
               casa  própria:  “conseguimos  passar  para  um   convidou-me  para  um  espetáculo  e  depois   do que era como homem e ator: “o que tinha
               espaço mais condigno até chegar ao que tem   fiquei. Porém, não vim logo. Ainda estive um   de bom e de mau como ator já estava lá. São
               hoje. ‘A Escola da Noite’ conseguiu que a Ofi-  ano como professor na escola Chapitô e criei   muitos  espetáculos,  muitos  autores,  tarimba
               cina Municipal do Teatro (estaleiro preparado   a ‘Razões Poéticas – Associação Informal de   muito grande que se apanha, rodagem muito
               para teatro) e a Cerca de São Bernardo, que   Artes’ na qual desenvolvemos em Penela um   grande com encenadores diferentes”, daí que
               são  espaços  belíssimos  para  artes  cénicas,   projeto  de  formação  e  programação  muito   quando  aterra  em  Braga  “não  venha  muito
               conseguissem  vingar”.  Nesse  desenrolar  do   interessante com verbas da Europa”. O pas-  entusiasmado, mas disponível”, fruto da “res-
               tempo, António Jorge cruzou com gente de   so seguinte foi trazer armas e bagagens para   saca de sair do projeto d ‘A Escola da Noite’ e
               todo o género: “vi de tudo. Gente que tinha o   a ‘Cidade dos Arcebispos’: “gosto da cidade,   tentar, apesar de tudo, na mesma área... não
               mesmo nível de entrega e de interesse artísti-  gostei das gentes. Foi fácil. Coimbra e Braga
               co. Outros que queriam trabalhar em ‘cenas’   são dois mundos muito diferentes. Coimbra é   vinha com grande expetativa de fazer gran-
               bacocas ou comerciais, mas que dão dinheiro.   muito intelectualizada, fechada, pesada. Bra-  des  coisas  – as  companhias  independentes
               Foi sempre trabalhar no arame e com esse fil-  ga é muito aberta, as pessoas são muito mais   estão sujeitas a uma enorme pressão: falta de
               tro de tentar fazer coisas interessantes e boas   abertas e faz-se coisas em Braga”. A explica-  tempo para experimentar, para errar – a arte
               com consistência artística”.         ção que encontra está no meio académico e   necessita de um tempo muito próprio”.





































 MARÇO · 2026  #SIMatuaREVISTA                                  MARÇO · 2026                                             47
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