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OLHARES
Como todas as receitas feitas com amor, Céu vive da reforma. Continua por gosto e bico”. Mas Rosa não fica por ali: “amanhã não
também os ‘Rebuçados do Senhor’ têm um por herança afetiva. “Também faço, às vezes, vou conseguir vir, vou levar mais uma saqui-
segredo — mas esse continua bem guarda- para casamentos, baptizados e comunhões. A nha”, pede a Céu. Levou duas sacas com 10
do com a rebuçadeira. A receita parece sim- última vez que fiz, foram dois mil para um ca- rebuçados cada. E segreda: “vou esconder
ples: água, açúcar e muita paciência. “É deitar samento”, revela. A partir de setembro, troca esta saca, senão vão todos de uma vez e não
água e açúcar numa panela e deixar ferver até os rebuçados pelas castanhas, junto ao Posto pode ser”.
chegar ao ponto. São horas sempre a mexer”, de Turismo. Também Filomena Carvalho, da freguesia
explica. Depois, o açúcar em ponto é coloca- Enquanto conversamos, os clientes não pá- de S. Lázaro, percorre as igrejas nesta altura.
do sobre a pedra mármore untada em azeite. ram. Ainda estamos no início da tarde e está “Ainda me recordo quando era miúda, haver
Queimadelas? “Muitas, menina”, responde a quase tudo esgotado. “Só tenho rebuçados muitas senhoras a vender os ‘Rebuçados do
rebuçadeira, levantando os casacos quentes para mais uma saca, quando os vender vou Senhor’, até em forma de bengala vendiam”,
para mostrar as marcas de um ofício que se para casa fazer mais para amanhã”. conta a reformada, lamentando que quando
entranha na pele. Céu deixar esta arte, “a tradição vai acabar”.
“É PRECISO ADOÇAR O BICO”
Por dia, faz quatro ou cinco remessas. Pelas
suas contas, são sempre mais de 500 ‘Re- Rosa Lima, natural de Cabeceiras de Basto e Entre uma venda e outra, surge Marta Car-
buçados do Senhor’ diários. “Demora muito residente no centro de Braga há muitos anos, valho com o filho Rodrigo. Vivem em Prado
tempo a fazer os rebuçados e depois a em- cumpre o Lausperene com devoção. “Só não e, aproveitaram uma consulta no centro da
brulhar leva outro tanto”, refere. Compra o vou quando me sinto mais cansada, se esti- cidade, para passar pela igreja da Lapa. “Já
papel colorido e recorta o embrulho, um a um, ver a chover muito ou se está a decorrer nas tínhamos comentado em casa que estes re-
com uma tesoura de biquinhos. Cada rebuça- igrejas que ficam mais longe, mas para com- buçados são tão bons e foi uma coincidência
do é embrulhado primeiro em papel branco e pensar vou à mesma igreja dias seguidos”, vir à cidade”, refere Marta. Rodrigo não hesita
só depois no papel colorido. Um ritual que se garante, enquanto pede a Céu uma saca de em reforçar: “É tão importante manter a tradi-
repete centenas de vezes por dia. ‘Rebuçados do Senhor’. ção e a cultura”.
Mais do que açúcar em ponto, os ‘Rebuçados
“Dá mesmo muito trabalho, por isso, ninguém Depois de rezar na Igreja da Lapa, voltou a
quer fazer e continuar a tradição”, lamenta comprar. “Sempre que venho ao Lausperene do Senhor’ são memória moldada à mão —
Céu. E a casa paga o preço: “Tenho os móveis levo rebuçados para mim e para o meu mari- pequenas provas de que a fé, em Braga, tam-
todos cobertos, fico sempre com a cozinha do. Ainda temos lá em casa, mas já levo refor- bém se embrulha em papel colorido.
numa desgraça”. ço”, refere, admitindo que é preciso “adoçar o
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