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OLHARES OLHARES
Semana Santa
Fé que estala na boca
TEXTO: Patrícia Sousa
FOTOS: Patrícia Sousa | DR
N a Oficina das Hóstias do Mas o verdadeiro mistério não está apenas na LITURGIA COMEÇA NA PENEIRA
fé que ali se molda: está no facto de cada hóstia
Instituto Monsenhor Airosa
Dentro da oficina, o som é hipnótico. As
vendida sustentar crianças e jovens acolhidos,
(IMA), o silêncio da Qua-
máquinas respiram num ritmo constante. A
resma transforma-se num
ritmo acelerado de fé e fari-
das ao nível da saúde mental e idosas.
— passa pela peneira como areia fina. Uma
nha. Com a aproximação da Semana Santa, mulheres com necessidades muito diferencia- farinha de trigo sem fermento — pão ázimo
No coração do IMA resiste uma oficina de hós-
medida de água, uma e meia de farinha. “Ago-
a procura quase duplica. São milhares de tias a funcionar desde o século XIX. Foi fundada ra já é tudo a olho”, sorri Filipa, com quase 25
pequenos círculos brancos que partem de pelo próprio Monsenhor Airosa e continua hoje, anos de casa.
Braga para altares de todo o país. Porque, século e meio depois, a produzir 70 mil hóstias
nesta casa centenária, a Páscoa começa por dia. Sim, leu bem: 70 mil. O que poucos sa- Filipa Pimenta nunca sonhou fazer hóstias.
muito antes de soar o primeiro sino. Era cabeleireira. Tinha um filho pequeno. Pro-
bem é que, por detrás de cada hóstia erguida
no momento da consagração, há uma oficina curava estabilidade. Entrou para ajudar nou-
centenária que nunca fechou portas — nem em tras valências do instituto. Quando era preciso
Antes de o sol tocar os sinos de Braga, já há um guerras, nem em crises, nem em pandemias. dava uma mão na oficina. Ficou. “O segredo?
milagre em curso atrás de uma porta discreta. É gostar”, diz a colaboradora, enquanto verifi-
Não tem incenso nem cânticos — tem farinha À frente da direção está Maria Teresa Falcão, ca uma a uma as hóstias que saem da máqui-
peneirada ao amanhecer, máquinas que não presidente da instituição, guardiã de um legado na de corte. “Quando vou à missa, vejo logo
param e mãos que trabalham “ao olhómetro” que é simultaneamente espiritual e profunda- se as hóstias são nossas. Conhecemos muito
como quem reza em silêncio. Nesta oficina mente social. “Manter esta oficina é preservar bem”, segreda. Filipa sabe distinguir. Sabe
centenária, em Braga, a eternidade mede-se uma tradição, mas também garantir a sustenta- pelo toque. Pela cor. Pela espessura. Pelo som
em gramas — e parte-se, às vezes, em cacos bilidade da casa”, sublinha Maria Teresa Falcão, quase impercetível ao partir.
estaladiços que sabem a futuro. até porque cada partícula vendida ajuda a sus-
tentar dezenas de vidas.
36 MARÇO · 2026 #SIMatuaREVISTA

