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OLHARES
O processo é minucioso. As folhas passam
pela estufa para ganhar o “ponto certo” e não
“partirem” no corte. Depois, cada hóstia é es-
colhida manualmente. “Parecemos galinhas”,
ri. Mas é assim, hóstia a hóstia, que se garante
a perfeição.
Produzem as pequenas partículas para os fiéis
e as maiores — 12, 14 e 18 centímetros — para o
altar. As maiores são cortadas à mão com bis-
turi, por encomenda. O Santuário de Fátima
é um dos grandes clientes da casa. Precisa de
hóstias maiores, visíveis à multidão.
Vendidas ao peso, seguem para igrejas de
todo o país. Algumas até cruzam a fronteira,
como já aconteceu com encomendas para
Tui, na Galiza, na vizinha Espanha.
SEM GLÚTEN, SEM FRONTEIRAS
A oficina é, também, produtora canonica-
mente autorizada de partículas sem glúten,
enviadas para Portugal Continental, ilhas, Eu-
ropa e Américas. Destinam-se a pessoas com
doença celíaca, que de outra forma ficariam quina dos Cacos’ parte cada peça em quatro. para Pessoas Idosas (ERPI) com 10 utentes, o
excluídas da comunhão plena. Cem gramas por saco. “Só hoje fizemos 600. Lar Residencial com 21 jovens mulheres com
Em média, são 400 por dia. O Hospital de necessidades muito diferenciadas ao nível
Aqui, a fé adapta-se. Moderniza-se. Inclui. As Braga pede 500 por semana e fazemos lá en- da saúde mental e o Centro de Acolhimento
máquinas foram renovadas há alguns anos. tregas duas vezes por semana”, conta Filipa, com 26 crianças e jovens.
São atuais, mas Maria Teresa Falcão não es- sussurrando que “a farinha ainda está no pote
conde que gostaria de ir mais longe. “Não e já está vendida”. Cada saco de Cacos, cada partícula consa-
é possível remodelar tudo de um momento grada, ajuda a pagar luz, alimentação, cuida-
para o outro. Há sempre dificuldades”, admi- São leves, estaladiços, viciantes. Baixas calo- dos, dignidade.
te. Já foram nove colaboradoras. Hoje são cin- rias. Um lanche improvável que sai da mesma Nesta oficina rara, a tradição não é um museu.
co, a tempo inteiro. Todas sabem fazer tudo. massa que alimenta altares. Vendem-se na É uma engrenagem viva. Um equilíbrio de-
entrada do instituto, na livraria do Diário do
As máquinas trabalham o dia inteiro. À hora Minho, em quase todas as paramentarias da licado entre máquinas que gostariam de ser
de almoço, alguém fica a assegurar o ritmo. cidade de Braga. Entre o sagrado e o quoti- mais modernas e mãos que sabem trabalhar
Aqui, a fé não entra em pausa. diano, os Cacos criaram uma ponte inespera- “ao olhómetro”. Entre fé e contabilidade. En-
tre altar e lanche.
PECADO CHAMA-SE CACOS da. No fim do dia, quando as máquinas finalmen-
Mas há uma heresia deliciosa nesta história. FÁBRICA QUE SUSTENTA VIDAS te descansam, ficam 70 mil pequenos círculos
Chamam-se ´Cacos d’Hóstia` e são, oficial- A oficina é mais do que um negócio. É a prin- prontos para viajar pelo país. E talvez seja essa
mente, o snack mais improvável da cidade. cipal fonte de receita do Instituto. Só com a maior metáfora desta história: em Braga, há
Nasceram da necessidade de rentabilizar a subsídios do Estado seria impossível manter uma fábrica onde se produz fé em escala in-
produção. Tornaram-se um ex-líbris. A ‘má- as respostas sociais: a Estrutura Residencial dustrial — mas sempre, sempre, à mão.
#SIMatuaREVISTA MARÇO · 2026 37

