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OLHARES                                                                                                                                 OLHARES


               Semana Santa
               Doce resistência




               TEXTO | FOTOS: Patrícia Sousa













































              H            á tradições que não se expli-  adoração, no exterior, é celebrada com a ale-  Durante  o  período  entre  a  Quarta-Feira  de


                           cam — provam-se. Em Braga,
                                                                                         Cinzas  e a Quinta-Feira  Santa, as  igrejas  da
                                                    gria simples de um rebuçado partilhado, num
                                                                                         cidade abrem as tribunas e revelam o esplen-
                           entre  o incenso  e o silêncio
                                                    gesto que une gerações. Vender ‘Rebuçados
                           das  igrejas,  há  um  aroma  a
                                                                                         arte e devoção. Braga transforma-se. E, à por-
                           açúcar queimado que anun-
                                                    de sobrevivência, mas um ato de resistência
               cia que o Lausperene Quaresmal da cidade   do Senhor’ já não é, para muitas, uma questão   dor da fé eucarística num percurso único de
                                                                                         ta, mantém-se a rebuçadeira.
                                                    cultural e afetiva. É uma herança que se leva
               começou. Cá fora, à porta de 23 templos, a   no coração e que se “oferece”, com orgulho,
               fé também se embrulha em papel colorido.   aos que por ali passam.        30 ANOS A MEXER AÇÚCAR
               Pequenos, artesanais e embrulhados à mão,                                 — E MEMÓRIAS
               são mais do que rebuçados — são memória   De 18 de fevereiro a 2 de abril, Céu Pentena   Começou por brincadeira. Hoje faz por amor.
               viva  de  uma  cidade  onde  a  fé  também  se   percorre 23 igrejas em Braga. Terceiros, Con-  Por missão. Via as vizinhas da Sé a fazer e ia
               saboreia.                            gregados  e Carmo  são  as  mais  concorridas   para  casa repetir o ritual.  “Eram  quase  20
                                                    e  onde  mais  vende  ‘Rebuçados  do  Senhor’.   mulheres que vendiam rebuçados e eu via e
                                                    “Tenho  dias  que  as  pessoas  fazem  fila  para   comecei a fazer sozinha em casa e também
               Entre  o silêncio  das  igrejas  e o burburinho   comprar os rebuçados”, confirma.  comecei  a  vender. Já  lá  vão  30  anos”,  lem-
               doce que se instala à porta, há uma tradição   Associados  ao  Lausperene  —  prática  qua-  ba a rebuçadeira que assegura a tradição. O
               que  resiste  ao  tempo  em  Braga.  No  cruza-  resmal que começou em 1710 pelas mãos do   tempo  tratou de  levar  quase  todas  as  rebu-
               mento improvável entre o sagrado e o profa-  arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles — estes   çadeiras.  Persiste Céu. “Com  a experiência
               no, o Lausperene Quaresmal da cidade não   rebuçados não se limitam a adoçar o paladar,   fui acertando na receita e aqui estou”, refere
               se  vive  apenas  em  oração  — saboreia-se.  É   transportam  a memória  viva  de  uma  fé que   a rebuçadeira, admitindo que “dá muito tra-
               neste cenário quaresmal que os ‘Rebuçados   também se prova.              balho e suja muito”, por isso, “ninguém quer
               do Senhor’ ganham vida. Dentro dos templos,                               continuar a tradição”.
               a fé manifesta-se em silêncio, em oração, em


               38                                               MARÇO · 2026                                 #SIMatuaREVISTA
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