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CRÓNICA
AQUI HÁ DRAGÕES
N os mapas antigos, quando não havia registo do
que existia numa zona inexplorada, e para sina-
lizar perigo potencial para os viajantes, devido à
incerteza acerca dessa região, desenhavam-se
monstros na área em branco, e até se escrevia
“Hic sunt dracones” (aqui há dragões). A ex-
pressão traduz a cautela e o medo do desco-
nhecido.
Pois é para esta área em branco que nos dirigi-
mos, mais ou menos à deriva. Há cerca de trinta
anos, Jürgen Habermas escreveu, em Direito e
democracia, palavras muito atuais. Segundo ele,
nas sociedades ocidentais, a política vai perden-
do a orientação perante novos desafios, como a
pressão das correntes migratórias, as chantagens
nucleares e as ameaças de lutas internacionais
de partilha. Estes desafios roubam a estabilidade se candidatou para ser presidente, só que quis
governativa, que agora parece só existir nas dita- deixar claro que é ele quem conduz a direita no
duras. Nas próprias democracias robustas, as ins- caminho certo, toda a direita, apresentando-se
tituições livres já não são inatacáveis, chegando como candidato a primeiro-ministro e a presiden-
a tornar-se instrumento do poder político. Além te da república em simultâneo. Os seus eleitores
disso, a pujança económica e a força dissuasora nem se importam com esta ética enviesada, por-
vão mudando de lugar, transferindo-se para paí- que a sua perplexidade não quer arriscar manter o
rumo que os levará a um território inexplorado. O
ses que não são democracias. O estado de ânimo receio não teme perder liberdades estabelecidas,
do nosso tempo é de angústia, motivada pela in- prefere a segurança, e a segurança é o que já se
segurança quanto ao que nos reserva o futuro. O conhece.
que se julgava adquirido cai por terra, as relações
internacionais degradam-se, a globalização está Nesta conjuntura temos ido a votos sucessivas ve-
posta em causa, a abertura ao mundo já não é de- zes nos últimos anos, e as ditaduras divertindo-se
sejável, constroem-se fortalezas em vez de pon- com o baile rotativo dos dirigentes democráticos
tes, as nações pacíficas armam-se para a guerra. (Putin brincou com a mudança de primeiros-mi-
nistros na Inglaterra, afirmando que não vale a
O primeiro-ministro do Canadá falou taxativa-
João Nuno Azambuja mente no mês passado, em Davos, dizendo que pena negociar com eles, porque amanhã serão
a ordem mundial entrou em rotura. A nova reali- outros). Em Portugal, o clima interno não ajuda,
uma vez que o eleitor nem tem hipótese de refletir
dade é brutal, com as grandes potências agindo serenamente, sendo bombardeado com sonda-
como se não houvesse um direito internacional gens diárias: hoje de manhã sobe este e de tarde
a respeitar. A Rússia e os Estados Unidos violam sobe aquele.
impunemente a soberania dos Estados, enquanto
deixam no ar ameaças de renovadas agressões, e Neste vendaval, Seguro mostrou-se o candida-
neste vale-tudo progride a máxima: “Se és inimi- to discreto que se impôs pela temporização, ao
go do meu inimigo és meu amigo, não interessa o contrário de Marques Mendes, a quem a tática
que faças”. comentarista e espalhafatosa de Marcelo saiu go-
rada. A extrema-esquerda manteve-se presa aos
Foi neste contexto que se realizaram eleições pre- seus dogmas, além de inconsistente nos momen-
sidenciais em Portugal (redigi esta crónica antes tos decisivos.
de saber o resultado da segunda volta), nas quais
assistimos, e desde as legislativas, à subida expo- Ficou-nos o humor sem cerimónias de Manuel
nencial de uma ideologia política conservadora e João Vieira, um homem que, como Shane Mac-
até regressista. Isto acontece porque grande par- Gowan, despreza os que levam a vida demasiado
te dos eleitores sente a inquietação de avançar a sério (os formalismos são dragões imprevisíveis).
no rumo da área em branco, onde se diz que há Ironicamente, talvez tenha sido Vieira o que mais
dragões, com André Ventura tirando partido des- jus fez ao nome candidato: a franqueza pública
ta angústia. Sabe que não será presidente, nem que veste de branco, ou de cândido.
64 FEVEREIRO · 2026 #SIMatuaREVISTA

