Depois chegou abril. E com ele, a ideia de liberdade. Mas essa liberdade não se distribuiu de forma imediata, nem igual.
O 25 de Abril de 1974 marcou uma viragem profunda na história de Portugal e abriu caminho a transformações políticas, sociais e culturais que também mudaram a vida das mulheres. Mais do que uma mudança de regime, representou o início de um processo de reconstrução da sociedade.
A Revolução dos Cravos abriu fissuras num país fechado durante décadas. Para muitas mulheres, isso significou o acesso a direitos fundamentais: estudar sem autorização, trabalhar com maior independência, escolher percursos de vida antes impensáveis. Tornou-se possível divorciar-se, decidir, recusar e participar de forma mais ativa na sociedade. Portugal começou a transformar-se também através da presença feminina em espaços que antes lhes estavam vedados, como as universidades, a política, as empresas e a comunicação social.
Estas mudanças foram conquistadas gradualmente, com esforço e resistência. No entanto, a igualdade formal não eliminou automaticamente todas as desigualdades.
O machismo persistiu, assumindo formas mais discretas. Continua presente nas diferenças salariais, na menor representação em cargos de liderança, nas oportunidades que nem sempre são distribuídas de forma equitativa e nas atitudes quotidianas que ainda desvalorizam o papel das mulheres. Muitas desigualdades deixaram de ser explícitas, mas não desapareceram.
A maternidade continua a ser um dos espaços onde essas desigualdades se tornam mais visíveis. Durante muito tempo, foi entendida como destino inevitável da condição feminina, em vez de uma escolha livre e apoiada. Ainda hoje, muitas mulheres enfrentam dificuldades profissionais associadas à gravidez e à parentalidade, bem como discriminação subtil em processos de contratação ou progressão na carreira. Além disso, a responsabilidade do cuidado continua, em grande parte, a recair sobre elas, mesmo em contextos de maior igualdade formal. Ser mãe em liberdade implica não apenas poder escolher sê-lo, mas também não ser penalizada por essa escolha.
Outro problema que permanece urgente é a violência doméstica. Todos os anos, continuam a registar-se casos de mulheres que vivem sob medo dentro das suas próprias casas, o espaço que deveria ser mais seguro. Esta realidade evidencia que a violência não é apenas um conjunto de atos isolados, mas também o reflexo de padrões culturais ainda enraizados.
Enquanto existirem mulheres a viver sem segurança ou igualdade plena, a transformação iniciada em abril não estará completamente cumprida.
Celebrar o 25 de Abril é, por isso, mais do que recordar. É reconhecer o que foi conquistado e, ao mesmo tempo, identificar o que ainda falta mudar. A liberdade não é um ponto de chegada, mas um processo contínuo, que se constrói todos os dias.
A liberdade mede-se na vida concreta, na segurança, na igualdade de oportunidades, na possibilidade de escolher sem condicionamentos e de existir sem justificação permanente.
Abril deu voz às mulheres portuguesas. O desafio atual é garantir que essa voz não precisa de ser contida.
Porque abril não pertence apenas ao passado, continua a existir na forma como a sociedade escolhe, ou não, concretizar a liberdade que prometeu.




