No tempo livre corríamos nas ruas perto de casa despreocupados, inventávamos jogos com pedras e paus, desenhávamos macacas, saboreávamos os verões azuis de tempo infinito.

Acreditávamos que os nossos pais sabiam tudo, até deixarem de saber, a rebeldia a assinalar a nossa adolescência, vivida sem pressa - tínhamos tempo para tudo, éramos imortais.

Ontem, éramos pais pela primeira vez.

Saíamos da maternidade envolvidos num misto de ansiedade e alegria.

Atravessávamos noites em claro entre cólicas e viroses.

Angustiados com as suas dores e tristezas, maravilhados com as suas proezas, primeiras palavras e passos, fases das birras e dos porquês, o medo do escuro afugentado pelo nosso colo de pais, o tempo a voar, eles a entrar na escola de mochila às costas pela primeira vez, e nós a perguntar por dentro onde estavam os nossos bebés.

E depois os dias foram transformados em muitos anos, e conforme as nossas vidas, os nossos filhos vão atravessando ainda a infância, as festas de aniversário com os amiguinhos, o encantamento pela vida apenas como ela é, ou navegando na adolescência, entre a primeira desilusão amorosa e a incompreensão com a nossa preocupação pela rebeldia deles (a nossa já esquecida), ou já nos deram a alegria do primeiro dia na faculdade.

Pelos olhos dos nossos filhos reconhecemos gestos que já foram nossos, expressões que atravessaram o tempo.

Como pais sentimos o tempo passar com o coração, nas roupas que deixam de servir, nos brinquedos esquecidos, na casa que fica, um dia vazia.

Porque a infância é sempre uma estação breve, como uma primavera fugidia - seja a nossa, seja a deles.

Mas os nossos filhos crescem num tempo diferente, vertiginoso, preenchido por écrans desde tenra idade, por agendas sobrelotadas, onde quase não existe espaço para serem só crianças, só adolescentes, demasiado ruidoso para escutarem as suas reais necessidades humanas, ficando perdidos entre a anestesia do que é virtual e distrai do que é principal, ou entre a excessiva exigência para crescerem depressa e serem os melhores em tudo, a competição por um bom lugar no mundo dos adultos a ocupar grande parte do seu tempo de infância, para trás, já muito distante a ficar o encantamento da vida como ela é.

Sinto isto não só como mãe, mas como médica, também.

Parece que foi ontem que fiquei sozinha perante os pais de um bebé, a inexperiência disfarçada pela bata branca que vestia, uma vontade imensa de praticar o que tinha aprendido na especialidade, já sabia muito, até, mas anos depois vejo que não sabia quase nada.

Tantos filhos que me passaram pelas mãos, tantos pais que me escutaram, tantos anos que já passaram.

E embora sinta que muito mudou na forma como é a medicina agora, e sinta que estes meninos nascem para um tempo diferente, o essencial mantém-se inalterado.

Há dias, tive a primeira mãe de quem fui pediatra a trazer-me o seu filho, e senti isso nitidamente no sorriso do seu bebé.

Porque parecia que tinha sido ontem, o sorriso deslumbrado dela, encantada pela vida como ela é.

Porque o essencial é a parte humana. O riso, o colo, o olhar que se mantém atento, o amor que sossega o medo.

Apesar de não conseguirmos devolver aos nossos filhos um mundo sem tecnologia, podemos oferecer-lhes algo precioso - estarmos mais presentes, no dia a dia.

Saboreando os risos, os abraços, as histórias repetidas, e o caos feliz da sua infância, criando memórias que fiquem gravadas no coração.

Avizinha-se o Dia Mundial da Criança.

Porque não dedicarmos algum tempo desse dia a olhar para os nossos filhos com olhos de ver?

E a partir daí, apesar do tempo cronológico continuar escasso, mudarmos a nossa perspetiva e desfrutarmos realmente de estar com os nossos filhos, quando as oportunidades surgirem?

Sem descurar tudo o resto, uns minutos roubados ao tempo poderão fazer toda a diferença.

Quantas vezes acontece termos memórias de coisas aparentemente insignificantes na altura, de dias iguais aos outros, mas que anos depois vêm à lembrança, nos fazem sorrir sozinhos e nos aquecem o coração?

Porque o tempo nunca vai parar, mas o amor vivido fica connosco para sempre, seja como filhos, seja como pais.

Porque um dia, talvez, seremos nós os avós, e diremos, mais uma vez, parece que foi ontem...