Já lhe passou pela cabeça comprar um bilhete de avião sem perguntar a ninguém se quer ir consigo? Fazer a mala, desligar o telemóvel e partir? Sozinho. Apenas consigo próprio.

Para muitas pessoas, a ideia continua impensável. Há quem não consiga ir sozinho ao cinema, jantar num restaurante ou estender uma toalha na praia sem companhia. Para outras, porém, viajar sozinho é uma forma de independência, descoberta e crescimento pessoal. Cruzam continentes, apanham comboios onde ninguém fala a sua língua, fazem amizades improváveis, aceitam desafios que nunca imaginariam enfrentar.

Aventurar-se sozinho deixou de ser um plano B. Tornou-se uma escolha consciente. E se a companhia que sempre esperou fosse, afinal, você próprio?


O fenómeno que não para de crescer 

Será coincidência que as viagens a solo estejam a conquistar cada vez mais adeptos numa sociedade hiperconectada, mas onde tantas pessoas se sentem, paradoxalmente, cada vez mais sós? Talvez. Talvez não. Os estudos apontam sobretudo para a procura de liberdade, autonomia e desenvolvimento pessoal. Mas muitos viajantes reconhecem que estas experiências surgem também em momentos de viragem: após um divórcio, o fim de uma relação, um burnout, a saída dos filhos de casa ou, simplesmente, pela necessidade de fazer uma pausa, reencontrar o equilíbrio e redescobrirem quem são.

Os números confirmam que esta tendência está longe de ser passageira em todo o mundo. Segundo vários estudos internacionais, entre 70% e 84%* do mercado das viagens a solo é atualmente composto por mulheres. Os Millennials e a Geração Z lideram esta tendência, mas cresce também o número de mulheres com mais de 50 anos que decidem partir à aventura sozinhas após mudanças marcantes na sua vida pessoal, como um divórcio, a saída dos filhos de casa ou a reforma.

Mas as estatísticas contam apenas parte da história. Por detrás de cada mochila existe uma história diferente. Há quem viaje para celebrar uma conquista. Há quem viaje para celebrar uma conquista. Há quem procure curar uma perda. Uns partem à procura de aventura. Outros apenas de silêncio.


Histórias de quem decidiu partir 

Confesso: também eu já viajei sozinha. E continuo a acreditar que algumas das aventuras mais transformadoras da minha vida aconteceram precisamente quando não tinha ninguém ao meu lado, quando cada decisão dependia apenas de mim. Talvez por isso tenha sentido vontade de ouvir outras histórias. Quis perceber se esta sensação de liberdade, descoberta e desenvolvimento pessoal era apenas minha ou se era partilhada por quem, um dia, decidiu fazer as malas e partir sem esperar pela companhia perfeita. 

A Revista SIM falou com seis viajantes que decidiram partir sozinhos para perceber o que realmente acontece quando deixamos de esperar por alguém e começamos simplesmente a jornada. 

As respostas que encontrei mostram que cada viagem é única, mas todas têm algo em comum: a capacidade de nos transformar por dentro. 

Mariana Beleza Tavares

Gana

Mariana não se considera uma solo traveler no sentido mais lato do termo. Gosta de viajar sozinha, mas integrada em pequenos grupos de desconhecidos, sobretudo para destinos menos explorados, onde o contacto com a natureza e com as comunidades locais acaba por ser tão marcante quanto a própria jornada. Mais do que colecionar países, procura histórias, tradições e encontros humanos que lhe ampliem os horizontes.

Entre as experiências que mais a marcaram está uma aldeia remota no Laos, onde foi recebida numa cerimónia tradicional em que cada habitante lhe atou um fio branco no pulso como símbolo de saúde, proteção e prosperidade. Um gesto simples, mas carregado de significado. "Só se vê bem com o coração", recorda, citando “O Principezinho.

Viajar ensinou-lhe a abraçar a diversidade e a aceitar que as maiores aprendizagens acontecem quando deixamos cair as nossas certezas. A quem ainda hesita em partir sozinho, deixa um desafio simples: "Feel the fear, but do it anyway." Afinal, pergunta, "quando foi a última vez que fizeste algo pela primeira vez?"

Raquel Hennig

Tiger's Nest, Butão

Marraquexe, Índia, Sri Lanka, Namíbia... a lista de destinos é longa. Mas, se tivesse de escolher apenas uma viagem, Raquel aponta sem hesitar para o Butão. Foi ali que descobriu que viajar não significa apenas conhecer novos lugares, mas aprender a abrandar, redefinir prioridades e olhar para a vida de uma forma diferente.

Ao longo das suas aventuras a solo, percebeu que a confiança não nasce antes da partida — constrói-se passo a passo, decisão após decisão. Cada desafio superado fortaleceu a sua autonomia e a capacidade de adaptação, transformando-a não só como viajante, mas também como mulher.

Àquelas que sonham fazer a primeira viagem sozinhas, aconselha a não esperarem pelo momento perfeito. "Preparem-se, escolham um destino onde se sintam seguras e deem o primeiro passo. O resto aprende-se pelo caminho." Para Raquel, uma jornada a solo continua a ser um dos maiores investimentos em liberdade, autoconhecimento e confiança.

Mariana Lemos 

Machu Picchu, Peru

Durante anos alimentou um sonho: lançar-se, sozinha, à descoberta da América do Sul. Em 2025, fez as malas, comprou um bilhete de ida e partiu para uma aventura de três meses por cinco países.

Fez voluntariado no Peru, percorreu o Chile, a Bolívia, a Colômbia e o Brasil e regressou com muito mais do que fotografias.

Se as paisagens a deixaram sem palavras, foram sobretudo as pessoas que tornaram esta jornada inesquecível. "Viajar sozinha pode ser solitário, mas encontrei pessoas que me abriram o coração ao fim de cinco minutos de conversa. Muitas dessas amizades permanecem até hoje.”

Mas a maior experiência acabou por ser interior. Aprendeu que é muito mais capaz do que imaginava e que a sensação de entrar sozinha num avião rumo ao outro lado do mundo é uma liberdade difícil de explicar. "Enquanto mulheres, é importante sabermos que o mundo também nos pertence." Para Mariana, viajar a solo é sinónimo de autoconhecimento, coragem e da vontade constante de voltar a sair da zona de conforto.


Beatriz Pinheiro Torres

Huacachina, Peru

Quando decidiu viajar sozinha para o Peru, Beatriz não teve uma explicação racional. Simplesmente sentiu que aquela era uma descoberta que precisava de fazer por si. E foi precisamente essa decisão que lhe ensinou a confiar mais na própria intuição.

Durante duas semanas, acumulou encontros improváveis e histórias inesquecíveis: uma portuguesa-espanhola que conheceu num hostel e que acabou por se tornar companheira de aventuras, um inglês e uma húngara com quem atravessou os Andes de autocarro, uma norte-americana de 56 anos que percorre o mundo na reforma e uma família italiana com quem enfrentou, entre gargalhadas e algum medo, as dunas de Huacachina. No final, percebeu que nunca esteve verdadeiramente sozinha.

Hoje tem uma certeza: viajar a solo abre portas que vão muito além dos destinos. "Estava com receio de me sentir sozinha, mas descobri exatamente o contrário." Regressou do Peru convencida de que basta, muitas vezes, um sorriso e um simples "Olá" para transformar desconhecidos em companheiros de viagem e uma aventura numa experiência para a vida.

Jorge Pinto

Chiang Mai, Tailândia

Durante 28 dias, Jorge percorreu sozinho a Tailândia. Embora as praias paradisíacas e as paisagens exuberantes tenham ficado na memória, garante que o verdadeiro destaque do percurso não foi o destino, mas a forma como o viveu. Viajar sem companhia obrigou-o a sair da sua zona de conforto, a estar mais disponível para conhecer pessoas e a deixar-se surpreender pelo inesperado. No final, percebeu que as melhores recordações não cabem numa fotografia: são as histórias, as amizades e os encontros que nasceram precisamente porque estava sozinho.

Antes de partir, confessa que o medo era inevitável. Medo do desconhecido, da solidão e de enfrentar, pela primeira vez, o mundo apenas consigo próprio. Mas foi precisamente essa experiência que mais contribuiu para o seu crescimento pessoal. "O medo não desaparece antes da partida, mas depois da chegada", afirma, convencido de que adiar uma viagem não a torna menos desafiante.

Hoje deixa uma mensagem simples a quem continua indeciso: "Entre a jornada e o destino, eu prefiro a companhia." E explica porquê: viajar sozinho nunca significou sentir-se só. Pelo contrário. Foi essa disponibilidade para se abrir ao mundo que lhe permitiu regressar a casa com muito mais do que fotografias — voltou com histórias, amizades e a certeza de que, por vezes, basta ter coragem de partir para descobrir que nunca estamos verdadeiramente sozinhos.

José Manuel Vasconcelos 

Namíbia

José Manuel prefere viajar sozinho, sobretudo porque a fotografia exige tempo, paciência e liberdade. Estar sozinho permite-lhe parar quando quiser, observar, fotografar sem pressões e sem sentir necessidade de justificar as suas escolhas ou o ritmo da viagem. 

Ao falar da Namíbia, refere que este foi um destino especialmente marcante por ter conseguido concretizar praticamente tudo o que tinha planeado. Destaca a sensação única de isolamento que o país proporciona, não como sinónimo de solidão emocional, mas como uma experiência física e visual de vastidão e tranquilidade. 

Questionado sobre o que aprendeu ao viajar sozinho, considera que o seu verdadeiro objetivo é viver a viagem, fotografar a vida selvagem, explorar novos lugares e conhecer pessoas

“Aventurar-me a solo permite-me assumir total responsabilidade pelas minhas decisões, enfrentar o inesperado e descobrir a forma como cada pessoa reage às diferentes situações”. Por fim, deixa uma mensagem simples e direta a quem nunca viajou sozinho: “Just do it!”


Sozinhos, mas nunca sós.

Curiosamente, apesar de todos terem escolhido viajar sozinhos, nenhum dos entrevistados recorda a solidão como a principal memória da viagem. Pelo contrário. Todos falam dos encontros improváveis, das amizades inesperadas e das conversas que dificilmente teriam acontecido se tivessem partido acompanhados.

Viajar sozinho não significa estar sozinho. Significa aprender a gostar da própria companhia. Descobrir que o mapa mais difícil de percorrer talvez seja aquele que nos leva até nós próprios. 

Porque, no fim de contas, há viagens que mudam o destino. E há outras que mudam quem somos.