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ENTREVISTA                                                                                                                              ENTREVISTA



               O que recorda de menina quando já reve-  aquele caminho podia resultar. Mas conhe-  num café… o que eu quero é que se sintam
               lava ‘queda’ para uma arte até então pou-  cia-me.  Sabia  que  eu  não  desistia  daquilo   bem e felizes quando vestem as minhas rou-
               co ou nada conhecida?                que verdadeiramente queria. Com o tempo,   pas.
                                                    percebi que essa exigência também me for-
               É uma história que começa numa menina   taleceu.                          Há um empoderamento?
               que ainda nem sabia o que era moda, mas                                   Sim… quero que se sintam empoderadas. A
               que já sabia que queria ser diferente. Não                                roupa serve para isso.
               havia referências, não havia informação
               como hoje. O que existia era uma inquieta-                                Fazer a viagem diária ‘Braga-Porto’ não
               ção muito grande dentro de mim.                                           devia ser estimulante.
               Houve algum ‘clique’ que lhe provocasse                                   Estudar moda em Portugal nos anos 90
               curiosidade para este mundo?                                              era pioneirismo. Havia muito pouco estru-
                                                                                         turado. Pouca informação, poucos está-
               Não houve um “clique” específico. Foi um
               processo. A minha madrinha fazia roupa e  Quando decidi que queria        gios, pouca valorização da profissão. Fazia
               isso despertou-me curiosidade. Comecei a   estudar moda, os meus          a viagem diária ‘Braga-Porto’ de autocarro.
                                                                                         Saía cedo, chegava tarde. Hoje parece pré-
               desenhar muito cedo. Eram desenhos sim-
               ples, mas já havia ali intenção. Eu não tinha  pais não viam aquilo como   -história, mas foi ali que ganhei disciplina e
               comparação, não tinha acesso a revistas,   uma profissão com futuro.      resistência.
               não tinha referências internacionais. Talvez                              Houve algum dia em que a palavra desistir
               por isso tenha desenvolvido uma criativida-  Queriam que eu seguisse      entrou na sua cabeça?
               de muito própria.                    Arquitetura ou Belas                 Nunca. Eu tinha consciência de que os
               Como era o seu brincar?              Artes. Então fui falar com           meus avós estavam a investir em mim. Isso
               Muito independente. Brincava sozinha, com   a minha avó. Expliquei-       dava-me responsabilidade.
               bonecas  e pedaços  de  tecido presos  com                                Vamos  descomprimir  e  viajar  ao  ano  em
               alfinetes. Não tinha amigas com o mesmo  lhe tudo. Ela ouviu-me e         que ganhou o prémio ‘Novos Talentos’…
               interesse. Era um mundo muito meu.   respondeu apenas: “se                Foi um impulso importante. Mas nunca tra-
               É  uma  menina  que  pensa  diferente.  Que   é isso que queres, nós      balhei para ganhar prémios. Trabalho por-
               ‘papel’ teve a sua avó na sua afirmação?                                  que amo criar. O reconhecimento é conse-
                                                    ajudamos.” Essa confiança            quência. Sempre me senti mais confortável
               Foi absolutamente determinante. A minha                                   a criar do que a aparecer.
               avó foi a minha segunda mãe. Quando de-  mudou a minha vida.
               cidi que queria estudar moda, os meus pais                                No meio dessa opacidade, sei que tem um
               não viam aquilo como uma profissão com                                    episódio que nunca revelou publicamen-
               futuro. Queriam que eu seguisse Arquitetu-                                te…
               ra ou Belas Artes. A minha avó fazia-me as   Quando sentiu que o conquistou?  Sim, penso que nunca revelei isto. Quando
               vontades todas. Quando falo da minha avó   Muito mais tarde. Lembro-me do meu pri-  acabei o curso – apesar do meu pai ter sido
               fico emocionada (pausa)…             meiro grande desfile no ‘Portugal Fashion’.   um pouco contra – foi ele que me arranjou
               Quando faz um ‘traço’ ela está lá?   Ele já estava doente. No final, foi aos basti-  o primeiro estágio, numa empresa de relevo
                                                    dores e abraçou-me. Não era um homem de   que,  infelizmente,  já não existe.  Isto acon-
               Ela está em tudo na minha vida. Até na for-  muitas palavras, mas naquele abraço esta-  teceu porque a Academia não garantia es-
               ma como educo os meus filhos (emociona-  va o reconhecimento que esperei durante   tágio. Pior, a maioria das empresas do ramo
               -se).                                anos. Foi um momento de paz.         têxtil,  não  queriam  saber de estilistas.  Tive
               A verdade é que quando tinha 14 anos disse:   Alguma frase que ficou nesse abraço?  sorte porque era uma empresa inovadora,
               “quero ser estilista”. Fui falar com a minha                              com estilistas a trabalhar. Fui recebida com
               avó. Expliquei-lhe tudo. Ela ouviu-me e res-  Disse-lhe “ainda bem que estás aqui para   naturalidade.
               pondeu apenas: “se é isso que queres, nós   ver isto”. O meu pai estava com as lágrimas   Esteve nessa empresa três anos e meio. O
               ajudamos.” Essa confiança mudou a minha   nos olhos. Isso disse tudo para mim.  que ficou em si dessa experiência?
               vida.                                De que forma é que valeu a pena esse mo-
               Na época era a Ana Salazar e pouco mais…  mento?                          Aprendi tudo. Rigor, indústria, tendência in-
                                                                                         ternacional. Lembro-me de viajar para Paris
               Sim. Em Portugal nem se falava de estilismo   (Pausa). Foi total… (emociona-se).  e, como não podíamos fotografar montras,
               nem de criação de moda.              A mulher portuguesa gosta do que vê ao   sentava-me num café e desenhava tudo o
                                                    espelho?                             que tinha visto. Cheguei a desenhar mais de
               Quando é que o pai começou a levar a sé-                                  200 peças num mês. Era sede de aprender.
               rio a filha?                         Há de tudo. Não posso generalizar. O que
               Muito mais tarde. O meu pai era exigen-  posso  dizer  é  que  as  minhas  coleções  são
               te e pragmático. Demorou a acreditar que   a pensar nelas. Observo-as muito. Na rua,


               10                                               MARÇO · 2026                                 #SIMatuaREVISTA
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