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JUSTIÇA
O TEMPO DA JUSTIÇA
E O TEMPO DAS PESSOAS
C aros leitores, que se arrastam, respostas que não vêm no tempo
de quem precisa. A lógica é sempre a mesma: pro-
Janeiro chega sempre com promessas de recome-
cedimentos a cumprir e um sistema que avança ao
ço, mas há vidas que entram no novo ano exata-
próprio ritmo, enquanto, do outro lado, projetos e
mente onde ficaram presas no anterior. Processos
decisões ficam adiados.
que não avançaram, respostas que não chegaram.
Com os anos de prática, percebi que uma parte
Enquanto os calendários mudam e as ruas reto-
mam o ritmo, há quem continue à espera, e esperar,
humana. É explicar o tempo. É ajudar o cliente a na-
quando não se escolhe, é uma forma silenciosa de
vegar pelo silêncio dos processos e validar os seus
exaustão. O tempo não corre da mesma forma para
todos. essencial do meu trabalho não é apenas técnica. É
sentimentos: reconhecer que a espera custa, e que
é legítimo que doa.
Compreendi isso verdadeiramente quando iniciei
a advocacia. Ao fechar o balanço do último ano, Neste fecho de ciclo, recordo decisões que chega-
percebi que existem dois fusos horários distintos: ram tarde demais para reparar perdas. Relações que
o tempo das pessoas — urgente, ansioso, cheio de se desgastaram, feridas mal cicatrizadas por respos-
perguntas — e o tempo das instituições, mais lento, tas tardias. Nesses momentos, a pergunta impõe-
cauteloso, quase imune à pressa de quem espera. -se: decidir bem será suficiente quando se decide
tarde?
Quem procura um advogado raramente o faz com
tempo de sobra; chega quando algo já dói ou se tor- Entro no novo ano continuando a acreditar que o
nou impossível de ignorar. Cada processo suspen- tempo é inevitável na justiça, mas renovo o compro-
so ocupa espaço na mente, nas conversas adiadas, misso de não esquecer quem espera. De não permi-
nas decisões que ficam por vir. A vida continua, mas tir que a demora se normalize. Enquanto processos
nunca totalmente tranquila. seguem o curso, as pessoas continuam a viver, a so-
frer e a envelhecer.
Dentro do sistema, o tempo obedece a outra lógica.
Há prazos e formalidades que a justiça alega pre- Justiça talvez não seja apenas decidir corretamen-
cisar para ser justa, mas essa explicação raramente te. É a capacidade de fazê-lo sem perder de vista o
conforta quem viu as estações mudar sem que sua tempo que passa e a vida que existe do outro lado.
vida saísse do lugar. No tribunal da vida, o relógio não tem botão de
pausa, a justiça que tarda, chega, muitas vezes, com
Essa distância entre quem espera e quem decide mãos vazias.
Eugénia Soares não se limita aos tribunais. Estende-se aos servi-
ADVOGADA ços públicos, onde a vida administrativa também Que este novo ano traga força, paciência e esperan-
fica suspensa: documentos que não chegam, atos ça a todos os que esperam.
82 JANEIRO · 2026 #SIMatuaREVISTA

