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ENTREVISTA ENTREVISTA
O CIRCO POR DENTRO – UMAS
HORAS DE GLÓRIA TERRENA
P orquê ir ao circo? SIM: Tem filhos a seguir essa identidade?
Para quem ainda sabe maravilhar-se
Ruben: Tenho três. E sim, querem continuar, mas
No circo, respira-se o sublime e o terreno. Deixar as
por vocação, não por imposição. O circo é a nossa
telas por uma noite é redescobrir um raro estado de
casa, o nosso trabalho, a nossa escola.
graça: o de estar presente, de corpo e alma, numa
cápsula do tempo onde a magia não se edita, acon-
SIM: A vossa vida é nómada. Como se descreve o
tece.
É um regresso ao essencial, ao humano, ao mágico,
Ruben: Viajamos de terra em terra, de praça em
ao imprevisível. Ir ao circo é uma pausa dourada no quotidiano?
praça. Vivemos em caravanas que são pequenos
mundo digital: ali, tudo se desenrola ao vivo, sem palácios com rodas — práticos, económicos, cheios
filtros, sem retoques. O zumbido suave do gerador de memórias. Acordamos num concelho diferente
funde-se com valsas de acordeão, o perfume da ter- quase todas as semanas. É uma vida dura, mas de
ra molhada mistura-se com o aroma doce do algo- liberdade intensa e pura.
dão-doce, e sentimos no peito o impacto elegante
de um salto perfeito no trapézio. É uma experiência SIM: E a escola?
que se vive, e se sente, com todos os sentidos.
Ruben: Até ao quarto ano, são “alunos-passantes”.
Depois, podem optar pelo ensino à distância. Temos
uma escola-mãe no Porto que nos acompanha. É
um desafio, mas rio-me quando digo que aprendem
geografia no terreno.
SIM: Que já faz o Ruben sob as lonas…
Ruben: Já fui palhaço, domador, malabarista. Hoje
sou o apresentador, não cansa tanto. É como con-
duzir um sonho coletivo. É um papel que adoro.
SIM: Um acontecimento engraçado?
Ruben: Tantos, uma vez estava a fazer de palhaço,
tive uma grande dor de barriga fui a correr à casa
de banho e ficou o outro palhaço em palco a fazer
a apresentação… enquanto eu respondia da casa
de banho! Às vezes os artistas também se esque-
cem de entrar em cena, a música falha, imprevistos
é uma constante. O circo é um espetáculo ao vivo, e
no espetáculo ao vivo tudo pode acontecer.
SIM: Quais são os maiores desafios do circo hoje?
Eva Pereira Ruben: A burocracia e a discriminação. Não temos
os apoios de outras artes. Dependemos da bilhetei-
ra, do tempo, da sorte. Muitas vezes, sentimos que
não somos levados a sério como arte. E somos arte
como os outros, somos cultura viva. Às vezes para
nos passarem uma licença levam semanas para nos
Entrevista ao guardião da tradição – Ruben darem uma resposta e ainda assim com muita insis-
Mário (dono do Circo) tência, sinto que não nos consideram …
SIM: Ruben, é uma honra. O circo para si é… Nós fazemos tudo, montamos, desmontamos, so-
Ruben: É o meu mundo inteiro. Vem do meu bisa- mos a bilheteira e passamos horas e horas a ensaiar.
vô. Sou a terceira geração de artistas. Passou pelos SIM: Apesar disso, há um momento que redime
meus avós, pela minha mãe, e agora segue comigo. tudo?
Não é uma profissão, é uma identidade. Fica no san-
gue. Ruben: Há. Durante e no final, quando as luzes se
reacendem.
62 JANEIRO · 2026 #SIMatuaREVISTA

