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ENTREVISTA
Algo que gostasse de fazer neste momen- pouco tempo comecei a encarar a sério as mi- tenha consciência que é errado, porque há
to? nhas limitações. Vou ser operado à vista onde muita coisa que me falta fazer.
tenho uma catarata no olho esquerdo e onde
Sim. A guerra do lado dos russos, porque sin- estou a perder a visão periférica. Faço exercí- Exemplifique…
to que deve ser como nós antes do ‘25 abril’. cio, mas o tempo é inexorável. Falta-me viajar muito. Só conheci cerca de
Sabe…antigamente a guerra podia ser feita 30 países. Há ainda muita coisa que não vi.
dos dois lados. O fotógrafo fazia de um lado Ainda se surpreende quando tira uma foto- Tenho uma filha que conhece mais países
e depois ia para o outro lado. Aconteceu, por grafia? que eu. Gostava de viver mais tempo. Porém,
exemplo, no Vietname. Hoje matam-se jor- Surpreendo-me sempre. Fico muito entusias- deixei a minha pegada. Fotografei o meu
nalistas.
mado e no dia seguinte, por vezes, olho para tempo. Espalhei amigos. Sinto-me realizado.
A sua fotografia tem como carimbo o preto e as mesmas fotografias e não lhes acho piada. A fotografia pode ser inimiga?
branco. Nunca equacionou mudar de iden- Pode acontecer. Tenho dois conceitos: só foto-
tidade? grafo o que me surpreende e o outro é quando Pode ser terrível. Dou-lhe um exemplo. No
estou farto de uma situação, paro de fotogra- tempo do PREC (Processo Revolucionário
A luz não tem a ver com o preto e branco. Para far. Sempre foi assim. em Curso), a malta de direita fotografava as
mim, a cor é ruido. Este distrai-nos da forma. O manifestações do PC. Colocava-se por trás,
que me interessa é a forma.
com uma grande angular, onde se via gran-
Face ao que defende, vê a vida como um ruí- des vazios. A malta de esquerda, fotografava
do? a mesma manifestação com planos compri-
midos. Isso é terrível.
Não. A realidade é uma coisa, a fotografia é
outra. As fotografias não são a vida. São frag- Quem fotografa tem uma ‘arma’ na mão?
mentos. “A fotografia está num É uma arma de defesa. É um testemunho e
Como tem acompanhado a evolução foto- caminho terrível. É uma todos eles são perigosos.
gráfica?
encruzilhada. Nem está no Qual é a fotografia da sua vida?
Tenho vários processos fotográficos. A foto- digital nem no analógico. É a mais conhecida do Salgueiro Maia. Mu-
grafia está num caminho terrível. É uma encru- Está na Inteligência Artificial dou a minha vida e abriu-me as portas para
zilhada. Nem está no digital nem no analógico. tudo. Curiosamente, numa fase inicial, foi
Está na Inteligência Artificial (IA). Hoje isto é (IA). Hoje isto é verdade. recusada como sendo uma má fotografia. O
verdade. Daqui a 10 anos não sabemos o que Daqui a 10 anos não sabemos chefe de redação olhou para ela e diz-me:
é verdade e o que é a mistificação. Eu gosta- o que é verdade e o que é a aqui não se passa nada. Recusou a fotogra-
va que me enganasse naquilo que vou dizer: mistificação. Eu gostava que fia. 20 anos depois, o jornal ‘Público’ – cujo
estamos no fim de um tempo. O jornalismo e diretor era o Vicente Jorge Silva – assinala a
o fotojornalismo serão outra coisa. Aqui entra me enganasse naquilo que data, em toda a primeira página, com a foto-
a questão da salvaguarda da verdade. Não sei vou dizer: estamos no fim de grafia do Salgueiro Maia. A partir daí foi uma
como será feita. um tempo. O jornalismo e o loucura. Até eu já achava que não prestava
A verdade irá ter sempre ‘nuvens’ à sua vol- fotojornalismo serão outra (risos). Durante vários anos, enviava-lhe 4/5
ta? coisa. Aqui entra a questão da fotografias. Eu dizia-lhe: outra vez? E ele: as
É um pouco isso porque creio que irão existir salvaguarda da verdade. ‘gajas’ levam-me as fotos todas!
verdades alternativas. Repare: o Presidente Não sei como será feita.”
dos Estados Unidos acaba de ter uma mani- Olho para si e sinto que ainda vive “
festação onde estiveram 10 milhões de pes-
soas contra ele. O que faz? Pega nisso e cons- No ‘25 abril’ chegou a fartar-se de fotogra- …a madrugada que eu
trói um filme de IA, num avião F-16, com uma far?
coroa na cabeça, e onde se está a ‘cagar’ para esperava. O dia inicial inteiro
as pessoas. Isto é uma nova forma de encarar Não. Nesse dia não fiz um quinto do que po-
dia fazer porque tínhamos de ir a correr para e limpo. Onde emergimos da
as coisas. Faz isto e não lhe acontece nada?
Não vai preso? revelar as fotos. Nessa altura trabalhava para noite e do silêncio. E livres
o jornal ‘O Século’, revista ‘Século Ilustrado’
Qual é a fotografia que ainda não tirou? e ‘Vida Mundial’. habitamos a substância do
Não sei…sei que gostava de ter feito muitas e Não pode negar que há um lado eterno tempo”
não fiz. O que se passa em Gaza e na Ucrânia, nessa jornada… (Sophia de Mello Breyner Andresen)
por exemplo, são fotografias que não irei fazer.
Todos nós temos um sentimento de eterni- … às vezes acordo de noite e penso que ain-
Está conformado com o legado que deixa ou dade. Nós achamos que somos eternos. Va- da estou nesse tempo. Vivi um sonho…
ainda sente que pode ‘voar’? mos a funerais e achamos que é sempre com
Tenho mais de 70 anos. Isto limita. Há muito os outros. Eu também assim o sinto embora
#SIMatuaREVISTA DEZEMBRO · 2025 17

