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ENTREVISTA
Como encontrou o mundo da fotografia? O que ficou do tempo em que assumiu a Teve logo consciência que estava a ‘viver’
função de fotógrafo oficial de Ramalho Ea- história?
Não o encontrei. Eu nasci no mundo da foto- nes e Mário Soares?
grafia. O meu avô, o meu pai e os meus irmãos Um miúdo com 20 anos não tem muita cons-
foram fotógrafos, logo eu tinha de ser fotó- Em termos de amizade, fiquei muito amigo de ciência. Se tivesse consciência não estaria ao
grafo. Penso que fiz a minha primeira fotogra- Mário Soares. Quanto ao Eanes, era diferente. pé do Salgueiro Maia numa altura em que
fia com sete anos. Tinha um sentido de ‘humor negro’ incrível. vários tanques estavam apontados para ele.
Há uns meses encontrei-o e digo-lhe: “o se- Mais…um deles tinha ordem para disparar o
O que sentiu nesse primeiro ‘disparo’?
nhor General, está com ótimo aspeto”. E ele que felizmente não sucedeu. Ali era pensar:
Senti-me adulto porque, no fundo, era imitar de seguida: “você tem mesmo de ir ao oftal- “eu tenho de fazer isto!”.
um gesto que o meu pai fazia. Não o esqueço. mologista” (risos). Às vezes acontecia uma Mesmo assim não houve em si, por um mo-
O meu pai vinha de um casamento e chegou fuga de informação e o assessor (não vou di- mento que seja, a clarividência que estava
ao café da minha tia em Celorico da Beira e zer quem) ia ter com ele para assumir a culpa. a testemunhar um dia histórico para Portu-
diz-me: “tira aí uma fotografia aos teus ir- Resposta do Eanes: “deixe lá! Chernobyl tam- gal?
mãos”. Senti que fiz qualquer coisa de impor- bém foi um erro humano” (risos).
tante. Eu fui fotógrafo do ‘Notícias da Amadora’,
Como lembra esse tempo de ser o fotógrafo conheci o Comité Central do PCP antes do
Que outros ‘disparos’ teve a sua infância? oficial de dois Presidentes da República? ‘25 abril’. Na casa da minha mãe, durante um
A minha infância é uma constante viagem. Foi um tempo fantástico! Consegue-se se es- mês, esteve escondido o adjunto de Samora
Vivi em muitos sítios. No Brasil (Campo Gran- tivermos dispostos a esta função. Tive sempre Machel, o futuro Secretário da Presidência,
de, capital do estado de Mato Grosso do Sul); uma relação fantástica com os dois, embora Muradali Mamadhusen. Já não era de todo
Mangualde, Guarda, Lisboa e regressei ao com o Mário Soares tenha sido mais próxima. inocente sobre o que me rodeava.
Minho. Dormíamos a sesta os dois… Nesse tempo onde se enquadrava politica-
Consegue viver um dia sem fotografar? A célebre fotografia do Presidente Soares a mente?
escrever numa secretária sem um sapato…
Não. Isso é impensável. Tenho sempre tarefas A questão política, para mim, era clara. Era
ligadas à fotografia. Olhe quando a fiz, olhou para mim e calçou o antifascista. Até tenho um episódio engraça-
sapato e diz-me: “se publicas isso eu ‘parto-te do porque fui preso pela PIDE (Polícia Inter-
É você que persegue a fotografia ou é o in- a cara’”. No dia seguinte sai no jornal. Ele olha nacional e de Defesa do Estado), durante 10
verso? para mim e diz-me: “Eu não te disse que aqui- minutos. Foram ao jornal, prendem-me e per-
A fotografia é a minha vida. Não concebo a lo iria ficar bem?” (risos). guntam-me qual o meu político favorito e eu
minha vida sem ela. Toda a minha vida foi ga- Defende que a fotografia é uma opção. É respondo: Papa Paulo VI (risos). Deram-me
nha a fotografar. A fotografia tratou-me bem. sempre verdadeira? dois estalos e puseram-me na rua.
Eu também a tratei bem. Fui e sou feliz na mi- Quando começou a ter noção do impacto
nha profissão e na minha vida. Não gosto de dogmas e muito menos dog- das fotos que tirou no ‘25 abril’?
mas fotográficos. Imagine esta sala onde nos
Implicou resiliência ou é uma questão de encontramos…se eu fotografar aquele ‘boca- Há pouco tempo, talvez há 10 anos. Eu foto-
ADN? dinho’ é uma opção. grafava furiosamente e só quando a minha
Sabe…o que eu digo aos jovens fotógrafos é Como é que foi parar ao meio da revolução filha me mostrou os manuais escolares é que
para nunca desistirem. Se tiverem um sonho, do 25 de abril de 1974? comecei a ter noção das minhas fotografias.
lutem por ele… eu sempre que inicio um pro- Nunca cobrei para os manuais escolares. Esse
jeto, toda a gente me diz: “tu estás é maluco, Para compreender temos de regressar ao impacto só o senti agora. Tenho 300 capas de
isso é impossível. Vão-te gozar”. E eles vão mês anterior. Como sabe, houve uma tentati- livros…
acontecendo. Este livro, ‘Cartografia do De- va de ‘golpe de Estado’ e estava de férias na O que sente no presente?
sejo’, que agora estou a lançar, é um exemplo Serra da Estrela. Eu que sabia que iria haver o
onde juntei mais de 100 fotografias, a preto e ‘25 abril’, disse para comigo: “não acredito!”. Sinto-me bem. Sinto que cumpri o meu dever
branco, que exploram o corpo, o hedonismo e Tinha vindo da Guiné. Fui para casa a correr, e que fui boa pessoa. Vivi e fotografei o meu
a intimidade como forma de arte. mas aquilo falhou tudo. tempo. É uma vida com sentido. Acho que vivi
muitas vidas. As fotografias revelam isso.
Sente rutura na fotografia? Continuou a pressentir a pólvora?
De tanto mundo que palmilhou o que ficou
É uma constante. Faço a minha vida por ciclos (risos) Há um dia em que vou a uma festa, na alma?
(jornais, agências noticiosas, revistas…). No aquele tipo de festa dos anos 70, com muitos
meio de tudo isto, tive um ciclo muito inte- ‘charros’ pelo meio, e onde vou para casa todo Acumulei muitos mortos e eu não gosto da
ressante: o lado de dentro do poder, onde fui maluco. Às três da manhã a minha mãe acor- morte. Em todos os locais por onde andei
fotógrafo dos Presidentes da República, Ra- da-me e diz-me: “levanta-te que vai haver (Roménia, Iraque, etc.) houve sempre muitos
malho Eanes e Mário Soares. Estar do lado de uma revolução”. Bebi café, meti umas sandes mortos. Não é fácil. Passados uns meses, tive
dentro do poder é muito divertido. no bolso e fui para a revolução. uma depressão (silêncio)… o resto temos de
aguentar!
14 DEZEMBRO · 2025 #SIMatuaREVISTA

