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ENTREVISTA


















                                                                                         A fotografia pode afundar?
                                                                                         Pode. Eu afundei mesmo.
                                                                                         Já recusou fotografar em algum momento?
                                                                                         Sim. “Eu não fotografo isto!”. Já me aconte-
                                                                                         ceu. Quando foi o acidente da TAP na Ma-
                                                                                         deira – 19 novembro 1977, noite de chuva in-
                                                                                         tensa, um Boeing 727-200 da TAP ‘Sacadura
                                                                                         Cabral’, que provinha de Bruxelas via Lisboa,
                                                                                         tentou aterrar pela terceira vez na pista 24 do
                                                                                         então Aeroporto de Santa Catarina, em San-
                                                                                         ta Cruz. Essa última oportunidade revelou-
                                                                                         -se fatal para o voo TP425 que seguia com
                                                                                         164 pessoas a bordo – tenho pela frente uma
                                                                                         fila de mortos na pista e, a certo momento,
                                                                                         está uma criança com 5/6 anos. Parecia que
                                                                                         estava viva. Não fotografei. Não fui capaz. Fi-
                                                                                         cou na minha cabeça.
                                                                                         Ao fotógrafo exige-se pudor?
                                                                                         Tem de o ter, tal como o respeito.

                                                                                         O Código Deontológico assim o exige…
                                                                                         (interrompe)
                                                                                         Havia! Só que agora parece que desapare-
                                                                                         ceu. Tornou-se obsoleto.
                                                                                         Ainda se espanta com o que vê?
                                                                                         Espanto. Repare…eu vou mudar de paradig-
                                                                                         ma. Nada tem a ver com o que fiz. Falo do
                                                                                         meu último livro. No presente… estou a olhar
                                                                                         para Gaza e só vejo fotografias. Na Ucrânia, a
                                                                                         mesma coisa.









                                                                                         “… olhou para mim (Mário
                                                                                         Soares) e calçou o sapato e diz-
                                                                                         me: “se publicas isso eu ‘parto-
                                                                                         te a cara’”. No dia seguinte sai
                                                                                         no jornal. Ele olha para mim e
                                                                                         diz-me: “Eu não te disse que
                                                                                         aquilo iria ficar bem?”




               16                                              DEZEMBRO · 2025                               #SIMatuaREVISTA
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