Tem pouco mais de 50 anos, nasceu em Guimarães e é considerado um dos pioneiros da música country em Portugal. Um percurso de sucesso que quase desabou em 2019, quando uma insuficiência hepática, provocada por uma violenta intoxicação no fígado decorrente da toma de medicação preventiva para a tuberculose, o deixou entre a vida e a morte.

A fé e a determinação em nunca desistir devolveram-no aos palcos. Hoje, realiza mais de uma centena de espetáculos por ano em Portugal e cerca de meia centena junto das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

A poucos meses de celebrar 20 anos de carreira, Zé Amaro abriu-nos a alma. Uma conversa que arrepia pela força e profundidade do seu testemunho.

  • Que imagens tens da tua infância?

Somos 10 irmãos e a conjetura da minha família, em princípio, não permitiria grandes sonhos. Venho de uma família humilde e com muitas dificuldades. No entanto, acredito que quem vem da dificuldade tem uma força maior de vencer e mostrar aquilo que somos.

A pessoa que sou hoje tem muito da pessoa que fui na minha infância, isto é, dou-me bem com toda a gente e faço o meu caminho a respeitar os outros tal como fui educado pelos meus pais. Esta é a minha máxima.

  • Com o contexto familiar que tinhas, que sonhos moravam em ti?

Por volta dos sete anos, dava por mim a ouvir rádio. A escutar os artistas da época. Creio que nascemos com algo dentro de nós. O meu legado é a música. Passou a ser um sonho porque identificava-me com o que escutava. Era aquilo que eu queria ser.

Foi difícil pelo ambiente que tinha. Não passei fome, mas passei necessidade de muita coisa.

  • Li que não tiveste calçado até aos oito anos. É verdade?

É verdade! Andei sempre descalço. As calças que tinha eram dos irmãos mais velhos. Como era o sétimo, já eram muito rompidas. A verdade é esta.

  • Como geriste o deslumbramento à medida que a tua carreira caminhava para o sucesso?

É um exercício que faço todos os dias… de não deslumbramento. Nós somos aquilo que somos, não somos aquilo que gostaríamos de ser. O que vejo e sinto é que há pessoas que vivem como gostariam de ser. É uma ilusão. Eu gosto daquilo que sou.

  • És um fazedor?

Isso mesmo! A vida tem-me dado tanta coisa…e ‘pancadas’ também! Se formos humildes, as portas abrem-se.

  • Foram os teus pais que te incutiram esta clarividência?

Verdade! A minha mãe corrigia e o meu pai (faleceu há 15 anos) vinha do seu trabalho. Apesar de ser baixo, via-o como um ‘super-homem’. Não corrigia nem nunca bateu em ninguém. Na educação, foi a pessoa que mais me marcou.

  • Falta-te o pai?

Muito. Falta-me em tudo (emociona-se)… antes de ser conhecido, as pessoas passavam na casa, ele vendia nas feiras, e o meu pai dizia com orgulho em todo o lado: “eu sou pai do Zé Amaro! Não o conhecem?” (risos). Felizmente, antes de falecer, já tinha feito os grandes palcos. Já me viu feliz…

Era muito ligado ao meu pai. A primeira vez que teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral), eu estava a subir a um palco. Foi difícil. Estava a viver nas Taipas quando o meu pai faleceu. Estava a quatro quilómetros e fui o primeiro a chegar. Vi-o a despedir-se de mim (…) Foi como perder os espelhos da casa. Ficamos sem chão. Foi uma pessoa incrível. Conseguiu criar 10 filhos e era mesmo espetacular.

  • É correto dizer que vocês tinham uma relação umbilical?

Sim. Era muito ligado ao meu pai. A primeira vez que teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral), eu estava a subir a um palco. Foi difícil. Estava a viver nas Taipas quando o meu pai faleceu. Estava a quatro quilómetros e fui o primeiro a chegar. Vi-o a despedir-se de mim. É uma imagem que nunca esquecerei.

  • O que te invadiu nesse dia?

Foi como perder os espelhos da casa. Ficamos sem chão. Foi uma pessoa incrível. Conseguiu criar 10 filhos e era mesmo espetacular.

  • Tens muito do teu pai quando falas com a tua Margarida (filha)?

Tenho! A necessidade de lhe dizer para nunca se deslumbrar, nunca descurar a família.

  • Noto que tens muita necessidade de preservar a tua família…

É verdade! No meu meio, há gente boa e outra que temos de evitar. Há muita hipocrisia. Nunca pisei ninguém. A minha esposa é formada, eu tenho o 12.º ano tirado nas ‘Novas Oportunidades’. Se sentir que a pessoa é boa, tiro o meu chapéu e bato palmas. Não custa nada. Todos ficamos a ganhar. Não é por ter um bom carro que vou ser outra pessoa. Trabalhei para isto, respeitando toda a gente. Infelizmente, vemos coisas que não devíamos ver. A nossa vida é deixar educação aos outros. A parte cívica é a minha maior ‘arma’.

  • Que importância tem a tua mulher no teu percurso?

Sabes… quando alguém tem um sonho e está com outra pessoa que não respeita esse sonho, este vai por ‘água a baixo’. Só tenho de agradecer à minha esposa. Está comigo há quase 30 anos e ajudou-me em tudo. Compreende que sou um profissional. É a minha melhor amiga. Em 90% está sempre certa. Juntos resolvemos os nossos problemas. É fantástico!

  • É uma bênção?

Sem dúvida. Nem todos temos essa sorte como nem todos se põem a jeito para isso. Dou este exemplo: tenho alguns amigos que chegam a casa bêbados e sem dinheiro. Eu chego às cinco da manhã a casa, com dinheiro e nada de álcool.

  • Como ultrapassas um dia menos bom?

Já passei por situações que senti que correram menos bem. Estou frustrado e depois nos autógrafos, os fãs dizem: “hoje foi maravilhoso!”. É incrível. Talvez por eu ser demasiado exigente comigo próprio.

  • És muito exigente contigo próprio?

Sou. Nunca fiz playback na minha vida. Tenciono nunca fazer porque senão vou parar de cantar. As televisões trouxeram uma coisa horrível: o playback. Isto faz com que as pessoas pensem que os concertos e a vida na estrada são aquele formato. É tudo mentira! Se Deus me deu voz, é para cantar.

  • Sempre gostaste da tua voz?

Foi estranho escutar a minha voz. Tive um produtor que quis tirar a minha essência e aí percebi que ali não estava o Zé Amaro. A partir daí, fiquei a gostar. Aprendi a gostar.

  • Nos programas recreativos de televisão, é comum observar a presença de artistas permanentes. Como olhas para este facto?

Eu já meti para aí 20 cantores na televisão. O problema é que depois não sabem sair. É um facto, estão sempre lá. Não pode! Quem está sempre lá, é sinal que não tem trabalho. Alguns programas vieram trazer isto e não abona nada para os artistas.

  • Como nasceu a imagem do ‘Cowboy Português’?

Foi um ‘boneco’ que criei associado ao estilo ‘country’. Um nicho que senti que estava por explorar. É uma personagem que caiu bem. Recordo que quando tirei a carta de condução, comprei um ‘dois cavalos’ e estava uma cassete de Willie Nelson. Quando ouvi aquela voz nasalada, foi uma campainha que tocou em mim.

  • Lembras-te do dia em que decidiste ‘pegar no chapéu’?

Lembro perfeitamente. Tinha um chapéu de couro do ‘Trio Os Boémios’ e nesse ano fomos à Virgínia, nos Estados Unidos. Vi lá um chapéu que gostei e trouxe. Era preto. Ainda o conservo. Guardo tudo. Até o cabelo de uma fã, guardo. Comprei um armazém enorme onde tenho as coisas que os fãs me oferecem. A minha esposa não se importa… desde as cuecas aos soutiens (risos). Ainda em relação ao chapéu – como trabalhava numa fábrica de calçado – juntei-lhe umas botas, coloquei um cinto… as coisas encaixavam.

Fui aos Estados Unidos e vi lá um chapéu que gostei e trouxe. Era preto. Ainda o conservo. Guardo tudo. Até o cabelo de uma fã, guardo. Comprei um armazém enorme onde tenho as coisas que os fãs me oferecem. A minha esposa não se importa… desde as cuecas aos soutiens (risos).
Ainda em relação ao chapéu – como trabalhava numa fábrica de calçado – juntei-lhe umas botas, coloquei um cinto… as coisas encaixavam.
Foi um ‘boneco’ que criei associado ao estilo ‘country’. Um nicho que senti que estava por explorar. É uma personagem que caiu bem.

  • Como encaraste o espelho?

Olhei e achei estranho. E compreendo, no início, quando ia a uma rádio e eles fechavam-me a porta. Pensariam que seria do Brasil, sei lá…

  • Tiveste muitas ‘portas fechadas’?

Tive. Não esqueço, mas não levo a mal. Ainda hoje continuo a ter. É normal!

  • Lidas bem com a rejeição?

Sim. Perfeitamente. Tens que estar bem contigo próprio e eu estou muito bem com aquilo que faço. Temos de lidar com a crítica. É a vida…, mas o que vejo é que há muita gente frustrada.

  • Que opinião tens sobre as redes sociais?

Uma selva! Eu nem tenho razão para grandes lamentos, mas vejo colegas meus a serem insultados. Tentar diminuir os outros, é mau. No entanto, no meu caso, são muito importantes. Eu quero ser uma boa influência. Ser positivo.

  • Estiveste quase uma década no grupo ‘Trio Os Boémios’. Porque saíste?

Antes de tudo, dizer-te que me ajudou a ter uma visão diferente. Posso dizer que gostei e consumi e havia muitas coisas que não podia consumir. Não era bom. Aprendi muito em palco, mas depois havia ações das pessoas, desde aparecerem com os copos… isso não se pode permitir a um artista. Aquilo tinha tanto para dar, mas não nos identificávamos. Eu só queria ajudar. Imagina… nós tínhamos 50 canções e nós tocávamos sempre as mesmas 15. Assim não funciona. Vai dar erro. Fui despedido! Mandaram-me embora porque eu insistia que devíamos mudar, crescer e evoluir.

  • Ficas-te magoado?

Só me magoou a forma como foi feito. Soube através de um papel, no restaurante ‘Manel’, onde li: “foi muito bom trabalhar contigo, mas chegou ao fim”. Guardo esse papel religiosamente.

  • Como foi o dia seguinte?

A vida continua. Eu segui o meu caminho e eles seguiram o deles. Nunca mais deu nada porque não trabalhavam e continuam a não trabalhar.

  • Estás quase a celebrar 20 anos de carreira. O que mudou desde o início?

Creio que há uma coisa muito interessante: a coerência musical. Os meus fãs percebem o meu trabalho e que faço tudo para lhes dar o melhor. Hoje é muito importante ter uma boa banda, investir na banda. As pessoas percebem quando há seriedade. Há muita gente que quer o problema. Eu quero ser a solução. Sem o meu público, não sou nada.

  • És um homem de fé?

Muita fé. A fé salva. Posso garantir.

  • Vamos parar em 2019. Fala-me desse ano.

O meu problema foi algo muito violento. Não só na parte médica como no após tudo. Eu vivia estabilizado a todos os níveis. Financeiramente, bem. Na família, tudo a correr bem e de repente fico sem saúde. É o pior que podemos ter. Podemos ter tudo, mas se não tivermos saúde não temos nada. Vi-me numa cama privado de tudo que tinha. Tive a minha fé, bons amigos e a minha família que nunca descurou nada. Tive três meses internado no hospital. A minha esposa foi-me ver todos os dias. Levou-me comida porque eu não comia a comida do hospital.

  • Vamos ao fundo da questão. O que tiveste?

Senti-me a desmoronar. Estive no fim da linha. Praticamente do lado de lá. A minha mãe tinha índices de tuberculose e todos nós tomamos um medicamento para despiste. Os meus irmãos nada tiveram. A mim, em mês e pouco, destruiu-me o fígado. Absolutamente irreversível. Foi uma alta toxidade. Tive que receber transplante.

  • Como viveste esse tempo?

Quando recebes a notícia não percebes o porquê. Perdes peso, não consegues conduzir, cais às valetas… eu não percebia. Fui a um grande médico que me ajudou. Fui logo internado. O mais difícil foram aqueles 10 minutos a seguir à notícia. Chorei muito. Depois chamei os médicos e quis saber qual a solução. Resposta: o transplante. Pedi ajuda nesse sentido.

  • Passou-te pela cabeça que ias morrer?

Claro… vem a vida inacabada. São milhões de pensamentos.

  • Mudou-te como ser humano?

Eu já era uma pessoa agarrada à terra. Sou um homem de raiz. Nessa altura, eu só queria sair do hospital para viver as minhas coisas simples. Nas minhas orações só pedia mais tempo.

  • Acreditas que foste ouvido?

Fui! Eu respeito toda a gente, mas há uma coisa que eu não posso negar a mim mesmo: o acreditar, salva. Em mim, a palavra que tem mais força é acreditar.

  • Houve alguns telefonemas que não foram feitos?

Muitos. Desde logo a começar pelas visitas. Não tenho vergonha em dizer que tive pessoas na família que fizeram coisas que não deviam fazer. Foram a comissões de festas dizer: “olhe, ele vai morrer e eu vim cá de propósito para vos dizer que vou pegar nas festas dele”. E nem sequer me foram visitar. Nunca falei disto, mas é a verdade!

  • Depois de tanta desilusão, consegues hoje estar em paz?

Consigo. Houve uma altura em que senti que tinha de falar com essas pessoas. Chamei-as a minha casa e disse-lhes: vocês estão perdoados. Desmoronaram-se a chorar. Arrumei as gavetas na minha mente. O que sobra depois? Paz. Perdoar é uma grandeza. Há pessoas que acreditam que podem tirar o brilho, mas não conseguem. Quem tem esse brilho, só tem de bater palmas. Só fiz alguns desvios com classe e respeito.

  • Ultrapassado o ‘abalo’, surge a Covid-19. Como geriste esse tempo?

Tive um ano parado. Reuni com a minha editora para trabalhar. Resposta: “você é maluco!”. Eu queria gravar um novo disco. Tinha escrito algumas músicas no hospital, como o ‘Homem de Sonhos’. Dizem-me para estar em casa. Mas gravei. A voz estava um pouco embargada, mas quis para ficar como registo para a vida. A Covid-19 foi mais um ano parado. Mas há algo que tenho de dizer. Tenho uma equipa fantástica (somos 30) que esteve sempre comigo. Consegui manter os salários.

  • Tornaste-te um homem melhor?

Refinei-me um pouco. Passei a valorizar aquilo que eu pensava que era pouco, como dar um passeio pelo parque com a minha filha. São coisas simples, mas que passaram a ter valor. Apesar de estar privado de comer algumas coisas, os almoços ou jantares com amigos é algo que passei a saborear de outra forma.

  • Como foi o teu regresso aos palcos?

Senti algo que nunca tinha sentido. Eu estou cá! Mas fiz uma asneira muito grande. Marquei uma sala para 3.000 pessoas. Não o devia ter feito. A minha equipa e família a dizerem-me “nem pensar”, mas eu queria tanto… estava com 50 quilos e sem força. A roupa nem me servia. Foi um erro absoluto. As pessoas cantavam as músicas por mim. Tinha saudades do meu público…

  • O que sentes quando visitas a ‘Diáspora’?

Eu não viveria sem os meus fãs que estão lá fora. Acrescentam outro tipo de emoções.

  • Há mais Portugal fora de Portugal?

Absolutamente. É alguém que leva a sua cultura para onde escolheram trabalhar. É uma portugalidade mais vincada. Sentem mais. É uma diferença muito grande. Não estou a afirmar que são melhores. São diferentes. É a forma como consomem a nossa música, os nossos hábitos. É algo incrível.

  • Onde entra o nome Margarida (filha) nas tuas canções?

Entra em todas as palavras que tenham amor.

  • Uma música que nunca falha em palco?

Cowboy apaixonado.

  • Cowboy ou cantor romântico?

Cowboy.

  • Estúdio ou concerto ao vivo?

Concerto ao vivo.

  • Portugal ou público emigrante?

Metade-metade.

  • Maior lição da vida?

Sem saúde, não somos nada.

  • Melhor momento da carreira?

Foi quando senti que os fãs pagam bilhete para me ir ver.

  • Qual o primeiro concerto?

Foi em Beiral do Lima (Ponte de Lima). Tinha um poste ao meio onde eu cantava. Um palco pequeníssimo. Inesquecível.

  • Verão ou inverno para atuar?

Verão.

  • Família ou fama?

Família.

  • Uma palavra para definir a sua música?

Paixão.

  • Um sonho por realizar?

A continuidade. Cantar e fazer as pessoas felizes.

Não tenho vergonha em dizer que tive pessoas na família que fizeram coisas que não deviam fazer. Foram a comissões de festas dizer: “olhe, ele vai morrer e eu vim cá de propósito para vos dizer que vou pegar nas festas dele”. E nem sequer me foram visitar. Nunca falei disto, mas é a verdade!