Nos olhos, a humildade que o caracteriza. Nas mãos, as marcas de uma vida de trabalho e de dedicação. Aos 80 anos, o empresário que começou sob um toldo de camião, recorda, os dias em que a pobreza lhe moldou a ambição, os riscos de fazer crescer uma empresa, as escolhas que o levaram da decapagem à indústria metalomecânica e a vida que construiu com Deolinda Oliveira. Pelo caminho, fala dos filhos e dos netos, dos reveses e da persistência de quem nunca soube ficar parado.
Tudo começou com um toldo preso aos pinheiros. Por baixo, secava-se areia e trabalhava-se o ferro; à volta, havia um pinhal e a vontade de erguer algo que ainda não existia. Estávamos em 1976, no Lugar da Feiteira, em Vilar do Monte, e Joaquim Duarte Pinheiro começou assim, sem instalações nem grandes meios. Anos depois, recorda esse começo com a naturalidade de quem habituou a vida a recomeçar: primeiro um pavilhão, depois outro; mais tarde, novas empresas, maquinaria trazida da Alemanha e negócios além-fronteiras.
Antes de tudo, porém, houve um menino de Carapeços que foi fazer o exame da 4.ª classe com sapatos emprestados e uma família que sacrificou comida para lhe dar uma oportunidade. É a partir daí que se desenha a história de um homem que chega aos 80 anos com um longo percurso empresarial e familiar para contar, mas, acima de tudo, com um enorme legado que deixa aos seus e à terra que o viu nascer e que ele ajudou a desenvolver. Com a mesma humildade que o fez começar, soube perceber quando chegou a hora de passar o testemunho. Hoje, as empresas que criou continuam ativas, nas mãos de familiares ou de outros empresários, porque, à falta de possibilidade para estar em todo o lado, «o importante era que as coisas continuassem a funcionar.». E essa há de ser uma das melhores lições de empreendedorismo que podemos levar.
Cresceu em Carapeços, num tempo em que até estudar exigia sacrifícios. Que memórias guarda da infância e do exame da 4.ª classe?
Eu estudei até aos 14 anos. Para fazer o exame da 4.ª classe, a minha mãe teve de dar à professora uma dúzia de ovos, uma arroba de batatas, um quilo de arroz e um quilo de açúcar. Os exames eram em Barcelos, porque eu era de Carapeços, e tinha de ir à cidade fazer o exame.
A minha mãe pediu à professora que me deixasse ir a exame, porque naquela altura, sem a 4.ª classe, não era fácil arranjar emprego. E eu passei! Mas depois passámos fome durante uma semana, porque aquilo que a minha mãe levou fazia falta em casa.
E, para fazer esse exame, teve ainda de pedir emprestados os sapatos ao seu irmão…
Pois, porque eu tinha de ir calçado. Fui com os sapatos do meu irmão, que eram grandes para mim. Quando cheguei à escola, o sapato do pé direito saiu-me do pé e eu fui atrás dele para o calçar! [risos] Lá me arranjei e fui fazer o exame.
Depois, passei, voltei para casa e entreguei os sapatinhos ao meu irmão. Direitinhos! Só mais tarde é que me compraram uns sapatos para mim, talvez a pagar aos poucos, para eu poder ir para o Porto trabalhar.
Costumo dizer que fiz a 4.ª classe por uma dúzia de ovos e uma arroba de batatas! As batatas iam no selim da bicicleta do meu irmão, mas ele ia a pé, porque aquilo era pesado. E eu ia atrás, também a pé, com os ovos nas mãos, porque, se os pusesse na bicicleta, partiam-se.
Aos 14 anos partiu para o Porto. Como foi aquele primeiro encontro com o mundo do trabalho?
Fui para a Fábrica do Norte, para a fábrica dos carrinhos, na Senhora da Hora. Estive lá três meses e ganhava 12 escudos por dia. Tinha de pagar 100 escudos de quarto por mês, tinha de comer e ainda queria vir a casa. Ora, aquilo não dava!
Ao fim de três meses, fui falar com o encarregado e disse-lhe que não ganhava para comer e que me ia embora. Nessa altura, já tinha pedido trabalho noutra fábrica, a dos plásticos, e fui para lá ganhar 18 escudos por dia. A coisa melhorou.
Mas também não ficou muito tempo nessa fábrica… O que aconteceu?
Não! [risos] Estava a trabalhar com outro rapaz, a passar massa numas peneiras grandes. Nessa empresa, faziam-se oleados para camiões, fatos de chuva, mangueiras… E eu, a meter a massa, pisei a mão ao colega. Ele começou a tratar-me mal e eu dei-lhe uma sapatada nos olhos!
Depois apareceu o encarregado e quis saber o que tinha acontecido. O rapaz disse que eu lhe tinha batido, e o encarregado perguntou-me o que é que eu lhe tinha feito. Eu expliquei: ele chamou-me nomes, eu não gostei e respondi-lhe. Resultado: fui outra vez para a rua!
Curiosamente, esse episódio acabou por lhe abrir uma porta decisiva. Acha que, se não tivesse saído dessa fábrica, o seu percurso podia ter sido diferente?
Olhe, se calhar! Mas foi aí que apareceu a oportunidade de ir trabalhar para outra coisa. Havia lá um rapaz que trabalhava na profissão que eu viria a ter mais tarde. Ele falou-me de um lugar onde precisavam de alguém para transportar baldes de areia e peneirá-la, para depois fazerem a decapagem.
Eu já estava a pensar ir embora, mas disseram-me para esperar mais uma noite. No dia seguinte, o rapaz veio dizer-me que eu já podia ir trabalhar. Perguntei logo quanto é que ia ganhar. Disseram-me que à volta de 30 escudos por dia e que também tinha almoço. «Ai, que coisa boa!», pensei eu. [risos] No final da semana, deram-me 32 escudos por dia e almoço ao meio-dia. Eu até disse: «Ai, que abençoada a sapatada que eu dei nos olhos!», porque, se não tivesse saído daquela fábrica, não tinha ido para ali.
Além disso, nesse novo trabalho, eu ia buscar baldes de areia seca à praia e, quando a passava pela peneira, apareciam moedas. Às vezes, eram cinco escudos; outras vezes, dez; outras, umas moedas mais pequenas. As pessoas iam à praia, perdiam dinheiro e aquilo vinha parar à minha areia. Todos os dias aparecia qualquer coisita. Quando não aparecia nada, ficava chateado! [risos] Era dinheiro que encontrava ali, e para mim fazia diferença.
Para quem não conhece a atividade, em que consiste a decapagem? E como encarou essa etapa na sua vida?
A decapagem consiste em limpar o ferro com um jato de areia, para depois levar tinta ou zinco. A areia é empurrada pelo ar comprimido e vai limpando o metal. Foi isso que comecei a fazer.
Eu era novo, tinha 16 anos, mas tinha força para pegar no jato. Aquilo faz uma força medonha! Os responsáveis gostaram do meu trabalho e fiquei na fábrica. Depois apareceu uma obra na barragem do Lindoso, para decapar uma conduta. Fui para lá e gostei daquilo. Aprendi bem e comecei a ganhar gosto pela profissão.
Esse trabalho levou-o ao Lindoso e também à Serra da Estrela, longe de casa. O que significaram esses anos?
Sim. Depois do Lindoso, apareceu outra obra na Serra da Estrela, numa conduta que vinha da Senhora do Desterro até à Lagoa Comprida. O engenheiro foi buscar-me ao Lindoso e levou-me para lá. Fiz 18 anos na Serra da Estrela, num domingo. Naquela altura, os solteiros só vinham a casa de mês a mês, enquanto os casados vinham de quinze em quinze dias. Eu ainda era solteiro, por isso passava muito tempo longe de casa.
Entretanto, entrou Deolinda Oliveira na sua vida. Que influência teve na decisão de começar por conta própria?
Conheci a Deolinda quando tinha 20 anos. Mas depois, fui para a tropa durante três anos, em Vendas Novas. Foram bons tempos. E, de quinze em quinze dias, vinha a casa ver a minha pombinha!
Na tropa, também trabalhei como cozinheiro. Aprendi com a minha mãe. Ela ensinava-me: «Faz assim, assim, assim.» E eu lá ia fazendo. Se aprendi bem ou mal, ela é que sabia! [risos]
Também aproveitei esse tempo para tirar a carta de condução profissional de ligeiros e pesados. Mas a Deolinda começou a dizer-me para vir embora, para regressar. E eu comecei a pensar no que havia de fazer.

Foi então que decidiu lançar o primeiro negócio. Como nasceu esse projeto?
Foi. Eu tinha uns trocadinhos que tinha ganho antes da tropa e tinha a carta de pesados. Pensei que podia vir para casa, conduzir e procurar trabalho com algum empreiteiro. Mas depois falei com o meu irmão, que trabalhava no Banco Português do Atlântico, em Viana, e disse-lhe: «Olha lá, montamos uma metalização?» Ele não podia ser meu sócio, por ser funcionário bancário, por isso a mulher dele entrou na sociedade. Mas aquilo não correu como eu queria e acabámos por nos separar. Tínhamos dois compressores, duas pistolas e outros equipamentos. Dividimos as coisas e cada um ficou com a sua parte. Eu peguei no que me cabia e fui à minha vida.
Foi então, nesse momento, que realmente começou a sua empresa?
Sim, foi. Criei a Pinheiro & Oliveira. Pinheiro, que é o meu apelido, e Oliveira, que é o apelido minha mulher. O local onde comecei era um pinhal. Eu tinha pouco mais do que um toldo grande de camião. Atei-o aos pinheiros e comecei a trabalhar ali. Secava a areia debaixo do toldo, fazia a decapagem e a metalização ao ar livre. Era o que tinha, e foi com aquilo que comecei. Fui ganhando dinheiro, fui deitando abaixo uns pinheiritos e levantando uns blocos. Primeiro um pavilhãozito, depois outro. Devagarinho, fui entrando para dentro dos barracões. Não apareceu tudo feito!
Mas, quando o primeiro pavilhão estava quase a ficar pronto, um temporal quase o fez regressar à estaca zero. Como reagiu?
Faltavam-me os portões. O pavilhão estava feito, mas eu ainda não tinha dinheiro para os comprar. Uma noite veio um temporal e levou-me o toldo todo. Foi tudo pelo ar!
Fiquei a pensar: «Ai, meu Deus, o que é que vai ser de mim?» Mas tinha de continuar. Fui falar com um serralheiro que já era meu cliente, porque me fornecia ferro para decapar e metalizar. O homem veio ajudar-me e lá consegui voltar a pôr aquilo de pé. E continuei a trabalhar. Era assim… acontecia uma coisa, arranjava-se maneira de resolver e seguia-se em frente.
Também decidiu construir o seu próprio equipamento, para não ter de comprar uma máquina que era cara. Foi uma decisão arriscada.
Uma sableuse custava cerca de cem contos. Era muito dinheiro, por isso resolvi fazer uma. Juntei-me ao serralheiro e fizemos a máquina, copiando uma que já existia.
Quando ficou pronta, fomos experimentar com ar comprimido, para ver se aguentava. Mas havia uma fuga num parafuso e o homem disse-me que ia apertá-lo melhor. E a máquina fez «bum»!
Eu não me lembro de mais nada. Só acordei no hospital. O ar comprimido foi tão forte que me tirou a roupa toda e destruiu-me os tímpanos. Fiquei a sangrar de um ouvido e passei três meses no hospital. Foi no dia em que o meu filho mais novo fez quatro anos. Os meus filhos eram todos pequeninos.
E como conseguiu manter o negócio durante a recuperação?
Eu já tinha três trabalhadores e eles continuaram a trabalhar enquanto estive no hospital. Eu ia dando indicações, dizia-lhes o que tinham de fazer, e eles lá foram continuando. Quando me curei, arranquei outra vez. Tinha de ser, não podia ficar parado.
Mas os problemas não ficaram por aí. Pouco depois, o camião avariou…
Passados uns quinze dias, gripou-se o motor do camião. «Que desgraça a minha! O que é que eu vou fazer à minha vida?», pensei. Tive de arranjar outro veículo e fiquei outra vez a pagar prestações. Naquela altura, os juros eram de 40 %. Assinava letras, pagava juros e tentava continuar. Foi muito difícil, mas lá fui arrancando, lá fui trabalhando e fui andando.
Entretanto, a Pinheiro & Oliveira foi crescendo e surgiram outros projetos empresariais. Que negócios criou?
Sim, a Pinheiro & Oliveira foi a primeira. Mais tarde, montei outra, a Mundifer, de metalização, em Lanhelas, e depois montei a AlfaMetal, em Mogege. Entretanto, comecei a perceber que estava a montar muitas coisas ao mesmo tempo e que não conseguia estar em todo o lado. Tinha lá pessoas a tomar conta dos negócios, mas aquilo acabava por dar sobretudo para quem lá estava. Então pensei: «Não. Vou concentrar-me nesta, na Pinheiro & Oliveira.» Vendi uma das unidades e, mais tarde, vendi também a minha participação na outra.
Nesse momento percebeu que crescer também podia significar escolher e abdicar. Como foi para si tomar essa decisão?
Tinha de ser. Eu não podia estar em todo o lado. Se uma coisa já não estava a dar como eu queria, tinha de pensar no que era melhor fazer. Não valia a pena andar a gastar forças em tudo ao mesmo tempo. Então, com o dinheiro que consegui, fui à Alemanha, porque soube que havia umas máquinas de decapagem automáticas. Não era preciso a sableuse nem tanta gente a fazer o trabalho manualmente. Punham-se as peças num tapete, entravam num túnel e a máquina fazia a decapagem. Foi a primeira máquina daquele tipo a chegar ao Norte. Em Portugal, só existia uma em Lisboa. Instalei-a e aquilo trabalhava dia e noite, menina! Foi uma grande mudança para o negócio.
Essa aposta na tecnologia abriu caminho a uma nova fase, da serralharia às estruturas metálicas e ao mercado francês. Como se fez essa transformação?
Foi. A máquina ajudou muito. As peças entravam de um lado e saíam limpas do outro, prontas para levar tinta ou zinco. Fui crescendo e comecei a pensar em montar uma serralharia.
Foi então que montei a Duartesfer, no pavilhão novo ao lado da Pinheiro & Oliveira, onde fazíamos todo o tipo de construções metálicas. Como o negócio foi crescendo nas estruturas metálicas, começámos a trabalhar para França. E, a certa altura, surgiu a ideia de criar uma filial francesa, porque já trabalhávamos muito para lá. Então, montámos a Duartesfer France. Comprámos um terreno e construímos lá um pavilhão grande. Foi mais uma etapa do negócio. Entretanto, deixámos isso nas mãos de um engenheiro e aquilo acabou por ficar tudo como ele queria. Foi aí que também acabei por decidir que era preciso fazer as partilhas para os meus filhos começarem a olhar pelos negócios.
Chegou então o momento de confiar a gestão dos negócios aos seus filhos. Foi difícil deixar de estar à frente de tudo?
Sim, mas eu não podia estar em todo o lado. O importante era que as coisas continuassem a funcionar. Tinha de fazer a distribuição dos negócios pelos meus filhos. Eles ficaram a tomar conta das empresas. E são eles que mandam agora.
No meio de tantos negócios, houve ainda espaço para investir num setor completamente diferente: um parque de campismo, em Vilar de Mouros. Como apareceu essa ideia?
Eu tenho uma casa de férias e um terreno em Vilar de Mouros, e a minha mulher gostava muito daquilo. Havia o parque de campismo em frente e frequentávamo-lo durante o dia, quando íamos para Vilar de Mouros, aos fins de semana. Fiz lá um campo de ténis para os meus filhos, fiz uma piscina e gostávamos de estar por lá. O parque estava sempre cheio, mas, com o tempo, começou a ficar mais descuidado. Havia silvas, já não tinha a higiene que devia ter, e os campistas começaram a ir menos. O dono, o senhor Germano, também estava a ficar velho e já não conseguia tratar daquilo como antes. Um dia, perguntei-lhe se não queria vender o parque. Primeiro, não quis. Falámos de valores, mas não chegámos a acordo. Passado cerca de um ano, voltou a falar comigo. Eu disse-lhe que já não dava o mesmo valor, mas acabei por comprá-lo.
E foi preciso muito para o recuperar?
Foi mais um sacrifício para mim! [risos] Andei lá quatro anos a construir aquilo, com mais cinco homens. Gastei muito dinheiro, não há sombra de dúvidas, mas aquilo ficou lindo. É um jardim! Mas a minha profissão já me tinha deixado com problemas de respiração, e comecei a sentir que estava na altura de parar um bocadinho. Encostei-me mais por casa, deixei de andar sempre a correr de um lado para o outro. Cansei-me e fui para a beira da minha flor [Deolinda]! Hoje, Aquilo é um hotel e chama-se Prazer da Natureza. É a minha filha mais velha que explora o negócio, embora o espaço ainda seja meu.
No meio de uma vida tão dedicada ao trabalho, o que procurou proporcionar aos seus filhos?
Eu fui sempre amigo dos meus filhos. Quando faziam 18 anos, dava-lhes um carro. Quando casavam, dava-lhes uma casa. Além dos filhos, tenho sete netos, e agora até já tenho uma bisneta. Também sempre dei dinheiro para os ajudar. Trabalhei muito para poder ajudar filhos e netos.
Os meus filhos não podem ter razão de queixa nenhuma do pai Durante muitos anos, aos três filhos que trabalhavam comigo nas minhas empresas, ao final do ano, dava dez mil contos a cada um. Houve um ano em que até dei vinte mil contos a cada um. A minha filha Celeste, nessa altura, já trabalhava com o marido na empresa dos dois e estavam a fazer os eu próprio caminho. Por fim, cheguei a uma altura em que pensei que não valia a pena continuar a comprar ou a construir mais coisas para os meus filhos. Estavam todos bem na vida e estava tudo distribuído. Eles que fossem tratando dos negócios.
Hoje, vê os filhos e os netos a seguir percursos próprios. É importante para si ver a família a dar continuidade ao que construiu?
Claro. As empresas estão nas mãos deles. Os netos também trabalham todos com os pais. E são inteligentes, trabalham com gosto e com vontade. Estudaram, todos foram para a universidade, todos têm cursos. Eu é que não fui. Fiquei pela 4.ª classe, por uma dúzia de ovos e uma arroba de batatas! [risos] É muito bom vê-los com os estudos feitos e a fazerem o caminho deles. Não têm de fazer todos a mesma coisa que eu fiz. O importante é que tenham vontade de aprender, que trabalhem e que saibam aproveitar as oportunidades.
Procurou ensinar-lhes a importância da educação e do respeito pelos outros.
Sim, isso tem de se ensinar desde pequenos. Levávamos os filhos connosco a restaurantes e eles tinham de aprender a sentar-se à mesa, a comportar-se e a respeitar as pessoas. Hoje as coisas são diferentes. Mas há coisas que se aprendem em casa, desde pequeninos, e que ficam para a vida.
Quando olha para o menino de Carapeços, e para tudo o que conquistou, que balanço faz?
Olhe, eu sofri muito. Mas fui trabalhando, fui fazendo a minha vida e consegui dar aos meus filhos aquilo que eu não tive.
Quando eu era novo, olhava à minha volta e pensava: um dia, hei de ser alguém. Hei de ter a minha família, o meu carro e a minha casa. E assim foi. Passei por muita coisa, mas consegui! E ainda cá estou. E isso já não é mau...
Como era enquanto empresário?
Era amigo de todos os meus colaboradores. Procurava fazer com que todos estivessem sempre bem e felizes nos seus ofícios.
E olhando para os empresários de hoje, que conselho lhes daria?
É muito simples: não se envaideçam. Sejam humildes, trabalhem muito.
E agora que está prestes a fazer 80 anos, consegue de descansar?
Descansar, descansar… não [risos] Agora já não posso fazer tudo aquilo que fazia por causa da saúde, mas também não estou sempre parado. Vou tratando das minhas coisas e acompanhando o que posso.
Os meus filhos e netos estão bem, cada um focado no seu trabalho e nas suas empresas. E deixa-me muito feliz ver que eles dão continuidade ao que foi feito. Trabalhei muito para chegar até aqui; agora é a vez de os deixar fazer a vida deles, porque eu já fiz a minha.
Mas, se hoje posso olhar para trás e sorrir, é porque sei que a minha maior conquista não foram as empresas que ergui, mas a família que criei, com a minha mulher ao meu lado.




