Quando Paula Vaz abriu a sua clínica, há quase 24 anos, havia uma coisa que a inquietava: trabalhar sozinha.

Não era assim que imaginava a profissão. Gostava de equipas, de partilhar conhecimento, de ter pessoas à sua volta. Por isso, recorda os primeiros tempos quase com graça: tinha finalmente concretizado o sonho de ser médica dentista, mas faltava-lhe algo que sempre considerou essencial.

As pessoas.

Hoje, olhando para o caminho percorrido, percebe que esse receio acabou por antecipar muito daquilo em que viria a transformar o seu projeto profissional.

“Qualquer pessoa que ache que trabalha sozinha está completamente enganada. Hoje, cada vez mais, trabalhamos mesmo em grupo.”

A clínica cresceu, a equipa também e, pelo caminho, a medicina dentária deixou de ser o único horizonte. Entraram a investigação, as universidades, a inovação, o desenvolvimento de produto e uma ambição cada vez maior de ligar aquilo que acontece dentro de uma clínica ao que pode ser criado fora dela.

Mas o ponto de partida continua a ser o mesmo.

“O meu objetivo foi sempre servir mais e melhor o meu paciente”

Paula não hesita quando fala da profissão. Gosta genuinamente de trabalhar.

Cirurgia, prótese fixa, estética ou um caso mais complexo continuam a ser motivos para começar o dia com entusiasmo.

“Todos os dias que me levanto digo: que feliz que eu sou, vou trabalhar.”

Depois da família, é na vida profissional que encontra uma das suas maiores realizações. Não apenas por exercer medicina dentária, mas pela possibilidade de continuar a aprender e de não sentir que ficou parada no tempo.

Para Paula, acompanhar a evolução da área não significa adotar automaticamente tudo aquilo que aparece de novo.

É preciso saber distinguir inovação de novidade.

“Há muita coisa que é nova e que nos é oferecida e que não é boa para os nossos pacientes.”

É precisamente essa capacidade crítica que considera uma das responsabilidades de quem trabalha na saúde: estudar, acompanhar a investigação e perceber o que representa efetivamente uma melhoria para o doente.

Em 2022, o projeto ganhou uma nova dimensão

O ano em que assinalou duas décadas de percurso tornou-se também um ponto de viragem.

Durante a Noite Branca de Braga, a clínica apresentou uma nova etapa da sua identidade e partilhou aquilo que imaginava para os anos seguintes.

À mesa estavam muito mais do que questões de medicina dentária.

A apresentação reuniu entidades ligadas à inovação, universidades e parceiros de investigação, incluindo a Agência Nacional de Inovação, o INESC TEC e as universidades do Minho e do Porto. À distância, juntaram-se ainda parceiros internacionais com quem Paula já desenvolvia trabalho académico e científico.

O objetivo era olhar para três momentos: aquilo que tinham feito, aquilo que estavam a fazer e, sobretudo, aquilo que poderiam vir a fazer.

Daí nasceu também uma empresa dedicada à investigação, inovação e desenvolvimento, criada em novembro de 2022.

E a ambição aumentou.

Da cadeira do dentista para a investigação e desenvolvimento

Saúde geral, reabilitação, estética, sustentabilidade, impressão 3D e desenvolvimento de novos produtos passaram a fazer parte de uma visão que procura aproximar a prática clínica da investigação e da indústria.

Uma das ideias defendidas por Paula passa, por exemplo, por explorar processos de impressão 3D como alternativa a métodos com maior desperdício de materiais.

O trabalho desenvolvido levou à preparação de dois pré-registos de projetos de investigação e desenvolvimento, envolvendo uma rede que, segundo Paula, chegou a reunir cerca de 80 investigadores, entre Portugal, Espanha, Brasil e outras unidades de investigação.

É um salto considerável para quem admite, sem reservas, que há 24 anos sabia “zero” sobre cultura empresarial.

“Eu queria tornar-me o melhor possível. Não queria falhar em nada.”

Na altura, a prioridade era outra. Dava aulas, fazia investigação e trabalhava entre diferentes cidades, aproveitando oportunidades para ganhar experiência e aprofundar conhecimentos em áreas como Implantologia e Ortodontia.

A componente empresarial foi sendo aprendida depois.

Inovar, mas para quê?

É uma pergunta que atravessa a conversa.

Para Paula Vaz, investigação e desenvolvimento não podem existir apenas para conseguir financiamento ou apresentar projetos.

O resultado precisa de chegar à vida real.

A visão que apresenta para os próximos anos passa por aproximar universidades, empresas, municípios e outras entidades da região para desenvolver soluções capazes de chegar ao mercado.

E há uma palavra que repete: úteis.

“Não é gerar inovação e desenvolvimento para termos algo que não nos serve. Temos de ter um produto que realmente faça sentido.”

A ambição passa por desenvolver produtos com potencial comercial, criar emprego sustentável e, eventualmente, levar soluções desenvolvidas a partir da região para mercados internacionais.

Também aqui Braga e o Minho assumem um papel importante.

Paula acredita que a capacidade científica das universidades e a força empresarial da região podem encontrar mais pontos de contacto. O próximo desafio será precisamente envolver o tecido empresarial do Minho e outros parceiros nas candidaturas e projetos que estão a ser preparados.

O objetivo não termina quando o produto é criado. É preciso que consiga ser produzido, vendido, adaptado às necessidades do mercado e gerar postos de trabalho que permaneçam no território.

A mulher que tinha medo de trabalhar sozinha já não está sozinha

Há uma certa ironia quando se regressa ao início da história.

Paula abriu a primeira clínica preocupada com a possibilidade de passar a vida profissional sozinha.

Hoje, quando enumera as pessoas que fazem parte da sua “retaguarda”, percebe-se rapidamente como esse cenário ficou distante.

Há apoio clínico, financeiro, contabilístico e jurídico. Há investigadores, universidades e profissionais de diferentes especialidades. Há colegas em Portugal e no estrangeiro a quem sabe que pode recorrer perante um caso particularmente complexo.

E há Patrícia.

Paula chama-lhe, entre risos, o seu “braço direito e esquerdo”. É quem gere agendas, resolve imprevistos e, por vezes, decide até qual é o melhor momento para lhe dar uma notícia menos agradável.

A cumplicidade entre as duas revela outra parte da forma como Paula entende uma equipa: não apenas como uma estrutura organizacional, mas como uma rede de confiança.

Essa rede pode estender-se muito para lá das paredes da clínica. Perante um caso complexo, explica, pode contactar profissionais altamente especializados noutras cidades ou até no estrangeiro e reunir a equipa necessária para encontrar uma resposta.

É essa possibilidade que lhe dá aquilo que considera fundamental: segurança para quem a procura.

“Eu sei que, aconteça o que acontecer, consigo procurar uma solução. Isto é a melhor tranquilidade que posso ter.”

24 anos depois, o sonho ficou maior

A Paula Vaz que começou há 24 anos queria, acima de tudo, ser uma boa médica dentista.

Estudava, investigava, dava aulas e trabalhava intensamente para dominar cada vez melhor a profissão que tinha escolhido.

Essa parte não desapareceu.

O que mudou foi a dimensão do sonho.

Hoje, à medicina dentária juntam-se a investigação, a inovação, a tecnologia, a colaboração entre diferentes áreas da saúde e uma visão empresarial que pretende fazer chegar conhecimento científico ao mercado e à comunidade.

Curiosamente, quanto maior se tornou o projeto, mais evidente ficou a ideia que estava presente desde o primeiro dia.

Paula Vaz nunca quis trabalhar sozinha.

Hoje sabe que não precisa.

E talvez seja precisamente por isso que, quase 24 anos depois, continua a dizer que acorda feliz quando sabe que vai trabalhar.