Maurício não conhecia Braga quando decidiu que seria aqui que iria abrir o seu espaço.

Na verdade, nem sequer era esse o plano.

Quando chegou a Portugal, a primeira possibilidade passava por Guimarães. Gostou da cidade, mas faltava qualquer coisa difícil de explicar. Não sentiu que fosse ali.

Foi quase por acaso que acabou por passar por Braga.

Recorda-se de olhar para as ruas, para o centro histórico, para as cores e para as pessoas e de dizer a Paulo, que o acompanhava, que achava que a sua loja deveria abrir naquela cidade.

A resposta foi inevitável: porquê Braga?

“Não te sei explicar porquê, mas tenho uma sensação muito boa por esta cidade.”

E foi suficiente.

Quase quatro anos depois, aquela decisão tomada mais pela intuição do que pelo conhecimento da cidade continua a fazer sentido.

Recomeçar aos 47 anos

Mudar de país nunca esteve associado à necessidade de fugir de uma vida que não funcionava.

Maurício tinha 47 anos, uma carreira construída e um trabalho estável em Itália. Podia simplesmente ter continuado.

Escolheu não o fazer.

Trouxe consigo uma longa experiência profissional, construída ao lado de alguns dos nomes que considera referências na área em Itália, mas também a vontade de experimentar uma forma diferente de viver e trabalhar.

“Foi muito difícil tomar a decisão, mas agora acho que foi a coisa mais bonita que fiz.”

Portugal trouxe-lhe também um novo desafio profissional.

Apesar das semelhanças que encontra entre portugueses e italianos, Maurício percebeu rapidamente que trabalhar com o cabelo das mulheres portuguesas exigia adaptação. Na sua experiência, encontrou cabelos geralmente mais densos e grossos, que pedem outros cuidados e uma abordagem diferente.

Mas talvez a maior diferença não esteja propriamente na técnica.

Está no tempo.

Um espaço pequeno de propósito

Na Rua da Misericórdia, onde está instalado há quase três anos, Maurício não procura ter muitas pessoas ao mesmo tempo.

Prefere exatamente o contrário.

O espaço pequeno faz parte da forma como entende a profissão: ouvir, perceber quem está sentado à sua frente e dedicar a cada cliente o tempo de que precisa.

“Gosto de relações. Quero um trabalho personalizado, dedicar todo o tempo possível que a cliente precisa.”

Há técnica, naturalmente. Mas há também conversa, confiança e um processo que nem sempre começa e termina numa única visita.

Sobretudo quando entram em cena os cabelos brancos.

E se os cabelos brancos não fossem o problema?

É provavelmente aqui que a influência dos anos de trabalho em Itália se torna mais evidente.

Maurício defende uma abordagem à coloração que procura acompanhar aquilo que o cabelo já faz naturalmente, em vez de tentar esconder completamente os sinais da passagem do tempo.

Para ele, os cabelos brancos não são necessariamente algo contra o qual seja preciso lutar.

“Os cabelos brancos são amigos, não são inimigos.”

A ideia não significa simplesmente deixar de pintar o cabelo. Passa antes por aproveitar a luminosidade natural dos fios brancos e integrá-los numa coloração mais suave, esfumada e próxima da cor da cliente.

O objetivo é também evitar aquela linha marcada que começa a aparecer junto à raiz quando um cabelo totalmente pintado cresce.

Apesar de atualmente se falar cada vez mais em transição para os cabelos brancos, Maurício conta que trabalha desta forma há cerca de 25 anos.

Mas não promete transformações instantâneas.

“É o início de um percurso”

Quando uma nova cliente se senta na cadeira, uma das primeiras coisas que Maurício procura perceber é se está preparada para o processo.

Anos sucessivos de coloração podem deixar o cabelo seco e danificado, e chegar a um resultado diferente exige tempo.

Por isso, prefere ser claro desde o início.

“Eu não posso cancelar anos de coloração diferente. Preciso de tempo.”

Além da paciência, fala de sensibilidade e dos cuidados mantidos em casa. Para Maurício, começar um processo sem explicar estas exigências seria criar expectativas que talvez não conseguisse cumprir.

E, inicialmente, houve quem duvidasse de que uma abordagem diferente à coloração encontrasse espaço em Braga.

A experiência acabou por mostrar-lhe o contrário.

Hoje conta com clientes não apenas da cidade e da região, mas também de locais como Porto e até Bruxelas.

De Milão para uma cidade onde queria voltar a encontrar pessoas

Talvez a verdadeira razão para Maurício ter ficado em Braga não esteja, afinal, no cabelo.

Quando lhe perguntam se algum dia poderá cansar-se da cidade e regressar a Itália, a resposta parte daquilo que procurava quando decidiu mudar de vida.

“Estava à procura de uma experiência de mais humanidade.”

Na vida numa cidade como Milão, sentia que as relações começavam a perder espaço.

“Estávamos a tornar-nos mais números e menos pessoas. Eu gosto que as pessoas estejam em primeiro lugar.”

Foi em Braga que encontrou aquilo que procurava.

No trabalho nasceram relações. Das relações surgiram amizades. E uma cidade que inicialmente nem fazia parte do plano acabou por tornar-se casa.

Maurício veio para Portugal com uma bagagem profissional construída durante anos em Itália. Mas, quase quatro anos depois, aquilo que mais parece valorizar não cabe numa técnica de coloração.

É poder conhecer quem se senta à sua frente, ter tempo para ouvir e continuar a trabalhar como acredita que deve trabalhar.

E quando lhe perguntam se Braga é uma cidade para ficar, já não precisa da intuição que o trouxe até cá.

Desta vez, a resposta é sim.