A celebrar 20 anos de carreira, com quase 40 livros publicados, Pedro Seromenho é mais do que "escritor, ilustrador, editor, contador de histórias e detetive de pares de meias perdidas!".
É uma alma inquieta que teve a ousadia de derrubar o muro da Economia e embarcar no ‘voo’ da literatura. Hoje é uma referência nacional, requisitado por escolas e bibliotecas e procurado por uma Europa que o respeita. Neste fascínio não esquece o avô marisqueiro, a Tavira tatuada no coração e Braga que lhe estendeu uma passadeira de oportunidades.
Olha para o trilho que pisou com o mesmo sorriso que adquiriu quando decidiu dar um ‘murro na mesa’ aos 30 anos e embarcar para um desconhecido que pedia resiliência. Foi esta força que o fez vencer e não desistir.
No remanso dos dias, no abrigo algarvio estendido pela Ria Formosa, sabe que a sua pegada vai ter continuidade. Chama-se Mia Flor. A obra mais acabada e irrepetível aos seus olhos.
Poucos devem associá-lo ao Zimbabué (antiga Rodésia do Sul), país encravado no sul de África onde viveu os primeiros meses. Fale-me do contexto para percebermos como foi lá parar.
Os meus pais viviam em Tete (Moçambique), cidade fronteiriça com a Rodésia onde iam muitas vezes comprar mantimentos ou passear. O facto de ser uma colónia britânica, proporcionava outros cuidados de saúde, mormente, a grávidas como foi o caso da minha mãe. Foi por este motivo que nasci na capital do Zimbabué, atual Harare. Regressámos a Tete, mas ficámos pouco tempo pois deu-se a ‘Revolução do 25 de abril’. Nasci a 9 de junho de 1975. Já era um tempo conturbado nas colónias. Ainda por cima, para agravar, o meu pai era delegado de uma prisão. Houve muita gente que pensava ou procurava ‘ajustar contas’. Era muito perigoso continuar lá.
Chegaram a Portugal como ‘retornados’. A primeira estadia foi em Tavira (Algarve). O que guarda desse tempo?
Chegámos como muitos. Não foi um tempo fácil. No entanto, o meu pai arranjou trabalho como notário em Tavira. Costumo dizer que tenho uma costela minhota e outra algarvia. A minha avó paterna é de Alvite, Cabeceiras de Basto, e a materna é de Vila do Bispo (Sagres), distrito de Faro. Posso confessar que Tavira ainda é hoje o meu refúgio espiritual. Quando quero fugir à pressão e criar… porque o dia é curto para mim. Desde a escrita à ilustração, gerir a minha editora (‘Paleta de Letras’), os festivais onde faço curadoria, programação, contador de história… às vezes preciso de fazer o ‘reset’ e recomeçar do zero. Só assim é que consigo criar para o meu público. Preciso estar ‘limpo’, quase imaculado. Tenho essa necessidade. Costumo estar um mês na Ria Formosa, onde deambulo por aquele lugar maravilhoso. É uma espécie de distanciamento e purificação.
Na Tavira que procura, sei que teve um avô decisivo para a formação do seu caráter…
Verdade… (emociona-se). Tenho, inclusive, um livro que se chama ‘O Meu Avô Consegue Voar!’ que é sobre o José Seromenho. É daqui que vou buscar o ‘Seromenho’, que não tenho no meu nome. Era um homem do mar, marisqueiro, descia os penhascos e apanhava ‘perceves’. Arriscava a vida por um punhado de marisco e deixou-me vários ensinamentos, principalmente na fase da infância e juventude.
O que preserva do avô Seromenho?
A humildade. Tentar fazer o bem e ajudar os outros. Quando penso nele faço sempre uma autorreflexão. As pessoas que o conheciam dizem que carrego o ADN do meu avô materno. Sei que são realidades diferentes. Basta dizer que o meu avô era o mais velho de uma série de irmãos e, como deve imaginar, desempenhou vários papéis: um deles foi a fazer de pai e a trabalhar para sustentar os irmãos. Era um lutador. Não pôde ir à escola, mas tinha poesia no que contava.
Sentiu-se particularmente amado?
Muito amado, confiante e seguro de que ali tinha o meu refúgio. Um sítio onde podia criar, escrever histórias, contar-lhe e ‘fazê-lo voar’. Tive uma infância saudável, com boas recordações.
Apesar dessa zona de conforto, aos sete anos deixou Tavira e embarcou para Braga…
Aconteceu no meu segundo ano escolar. Vim para a Escola Básica das Enguardas onde fiz muitas amizades, porque sempre fui um miúdo sociável, criativo e, às vezes, ‘cabeça nas nuvens’. Agora que recordo esse tempo, é curioso que os meus primeiros amigos também alinhavam com os meus gostos, nomeadamente, com o desenho e a ilustração. Desse inocente tempo, recordo, por exemplo, o talentoso Sebastião Peixoto.
Venho para Braga, porque o meu pai foi aqui colocado como notário. O meu avô paterno estava a morar em Braga e agrupamo-nos por uma questão de segurança. Os meus pais, nessa altura, idealizaram que, no Norte, havia mais possibilidades de emprego e de sucesso para os filhos.
"Braga nessa altura (anos 80) era uma aventura. Era ainda uma cidade a definir-se. Tive vivências que marcaram a minha juventude. Ainda hoje tenho grandes amigos desse tempo. Ensinaram-me uma visão menos inocente da vida, a qual muito agradeço porque foi também ela importante. A vida é bela, mas não é um ‘conto de fadas’."
Como era Braga nesse tempo?
Era uma aventura. Posso anunciar que estou a preparar um livro… vai ser um romance juvenil com o nome ‘Não éramos anjos’. Fala sobre a minha adolescência na cidade ainda a definir-se. Tive vivências que marcaram a minha juventude. Ainda hoje tenho grandes amigos desse tempo. Ensinaram-me uma visão menos inocente da vida, a qual muito agradeço porque foi também ela importante. A vida é bela, mas não é um ‘conto de fadas’.
Falta-lhe o mar?
Falta-me muito, porque vou buscar muita inspiração ao mar. Sussurra-me imensos segredos. Por exemplo, este meu último livro foi quase todo desenhado e criado junto ao mar. Por vezes apetece-me mergulhar no oceano, entregar-me às marés e regressar ao búzio de onde emergi.
O que lhe sussurra?
São frases soltas. Traz-me ideias. Engraçado… as ideias são isso… vagas. Aparecem e recuam. Depois, queremos mais. A partir dessas ondas, tento criar o meu mar. Depende da forma como nos sentimos. Pode ser um mar tranquilo ou um levante. A rebentação depende da inquietação.
Sente ter, dentro de si, uma alma africana?
Algumas pessoas amigas dizem que o facto de ser intercontinental e signo ‘Gémeos’, elemento do ar, promove e despoleta a minha alma inquieta, sonhadora e despegada do materialismo.
Uma alma inquieta é desassossegada?
Não. Uma alma inquieta é a alma curiosa que quer saber mais do mundo. Isto intensifica-se na pessoa autodidata, como é o meu caso. Nunca tive formação em desenho ou literatura. Nunca tive aulas de pintura ou de escrita criativa. O que me fascina é tudo o que me rodeia. É a forma como vejo e sinto a vida. Tive a sorte de crescer rodeado de pessoas que escrevem e ilustram muito bem. Tento aprender os ofícios. Com o tempo, amadureci a minha cultura visual.
Como é que um homem de palavra, de sonho, vai parar à Economia?
É verdade! (risos). A escrita e a ilustração vêm de dentro – coração, paixão, forma de sentir o mundo, de querer comunicar através da imagem – e depois há algo que vem de fora. Por vezes, é uma sociedade esmagadora, opressora, que sufoca e que obriga com os progenitores a sugerir: “meu filho, tens de ser doutor, engenheiro, arquiteto, para teres futuro e um status social…”.
"Cheguei a ter uma depressão e a não conseguir sair de casa. Aconteceu porque tinha de enfrentar, todos os dias, um emprego que detestava. Arrastava-me penosamente.
Antigamente sentia-me com uma gravata ao peito – alusão ao livro ‘As Gravatas do Meu Pai’ – cinzenta, sombria e, de repente, ‘ganhei asas’. A minha gravata transformou-se em histórias."
Algum episódio particular que queira partilhar?
Sim, vou contar… tinha um coordenador na empresa onde trabalhava. Era ele que recebia os meus relatórios de execução. Ia às empresas, fazia a vistoria física e documental e o consequente relatório de modo a verificar se tudo estava conforme a candidatura aprovada. No fundo, competia-me averiguar se o dinheiro da União Europeia estava a ser bem gasto ou não. Em todas as auditorias só houve um caso onde descobri uma fraude e, forçosamente, a empresa teve de devolver os fundos. Entretanto, como disse, escrevia o relatório de execução e enviava para o superior.
Uns anos mais tarde, quando já deambulava pelo universo da escrita, encontrei o meu coordenador que me confessou: “tenho de te dizer uma coisa: guardei alguns dos teus relatórios porque pareciam romances” (risos). Achei piada. Há coisas que estão dentro de nós e só estamos a adiar ou a contrariar.
Em 2011 surge a editora ‘Paleta de Letras’. Foi o reflexo do seu crescimento?
Foi um processo natural. Mais natural do que a minha passagem da Economia para a escrita. Foi a necessidade de tornar sustentável o ‘sonho’ que há pouco descrevi. A palavra foi passando de escola em escola. A proporção das coisas aumentou. Basta dizer que o livro ‘900 – História de um Rei’ entrou para o Plano Nacional de Leitura e dei por mim a ‘cavalgar’ pelo Alentejo, Algarve… onde visitei dezenas de escolas. Um colega meu, editor, revelou-me: “Pedro… podes estar a dormir que, em cada hora de sono, vendes um livro e meio”. Achei aquilo incrível. Apesar de ser um romance histórico, já vai na nona edição (com um total vendido de 18 mil exemplares).
O seu público (crianças) é considerado o mais difícil e exigente. Nunca o temeu?
Não. Sempre tive muita mais dificuldade em lidar com os adultos. Como sabe, atualmente, é difícil não ter alguma desilusão para com a espécie humana. As crianças são um novo respiro. Com elas sentimos que ainda há salvação, que ainda nos resta a esperança da caixa de Pandora.
Para baralhar as contas, cada vez menos sabemos onde está a verdade…
Exatamente! Antigamente nós sabíamos o que era o real. Quando entrávamos num livro, sabíamos que estávamos seguros. Agora o mundo é mais romance e menos real. É preocupante.
A Inteligência Artificial (IA) vai descredibilizar a verdade do livro?
Penso que não. Posso estar errado desta vez, mas sou muito otimista. Gosto que a sociedade seja criativa. Quando foi o ‘livro digital’, toda a gente colocou as ‘mãos à cabeça’. Diziam que o livro iria desaparecer. São realidades que coexistem. O livro terá de se transformar e readaptar. Ganhou outros formatos com cheiros e sabores, desdobrando-se em acordeões ou ‘pop-ups’.
Agrada-lhe essa metamorfose?
Adoro, por isso é que o meu último livro é um objeto que brinca connosco. Sem necessidade de iPad, IA e ChatGPT. Isto não significa que não ‘brinque’ com estas ferramentas. Por exemplo, peguei no livro dedicado ao meu avô e fiz um 2.0 para as minhas horas do conto. É um avô que brinca com palavras antigas, que já não se usam, enquanto lhe ensino outras que ele nunca ouviu como WhatsApp, Iphone, TikTok… a IA vai obrigar o ilustrador, o criador, a reinventar-se. Eu li há pouco isto: “a IA não cria, a IA imita”. Pega no A, B e C e faz o D. Isto significa que não sabe fazer o A, B e C. Isso, só um criador sabe fazer.
Apesar do que defende, compreende que as editoras reneguem a IA?
Claro. Há muitas editoras que a renegam. Não apoiam a IA. A geração da minha filha (12 anos), por exemplo, renega a IA. Ela gosta muito de desenhar. Passa horas nesse processo. Farta-se de fazer slogans contra a IA. Diz que vai estragar o futuro dela. Está receosa. É natural. Eu entendo que tudo na vida é uma adaptação. Eu acho que desde o Charles Darwin (1809-1882), temos de nos adaptar à IA. Quem quiser sobreviver terá que ‘jogar’ com esta nova variável na mesa. Ainda assim, há sempre receio do que é novidade.
Nesse contexto sei que para si as redes sociais foram fundamentais para partilhar a sua obra.
E de que maneira. Foram uma catapulta. Hoje, felizmente, já não necessito tanto delas, mas não esqueço que, nos inícios da minha carreira, usava e abusava do Facebook e mais tarde do Instagram, para incrementar os meus contactos profissionais e fazer a minha própria agenda.
Vamos falar do último livro (‘O que escondem os animais?’) que lançou. Celebra os seus 20 anos de carreira. O que traz de diferente dos anteriores?
Este livro é diferente, porque é o meu primeiro livro musicado. ‘O que escondem os animais?’ é um álbum infantil em formato babybook, e contém um QRCode no frontispício da obra, onde se podem ouvir 14 canções inéditas da dupla ‘Garibambi’, formada pela Joana Mafalda Araújo e a Aurora Miranda. Agradeço-lhes imenso. São excelentes profissionais. As ‘Garibambi’ são um projeto de música para a infância com sentido experimental e metodologia de proximidade na recriação para bebés e famílias. Após vários concertos no Auditório Vita e no Theatro Circo, estreiam-se na literatura infantil com este livro. No nosso caso, o espetáculo é a dinâmica do livro. São 14 canções para 14 animais que se transformam em objetos sem saberes quais. São 14 ilustrações que desenhei a grafite e depois fotografei, finalizando a arte do objeto em digital.
É o seu trabalho mais bem conseguido?
É o mais divertido. Vou a Bolonha para vender os direitos internacionais da obra. Aliás, o livro foi impresso na Turquia e o diretor da gráfica disse-me que já havia várias editoras interessadas.
"A geração da minha filha (12 anos), por exemplo, renega a IA. Ela gosta muito de desenhar. Passa horas nesse processo. Farta-se de fazer slogans contra a IA. Diz que vai estragar o futuro dela. Está receosa. É natural."
É patrono de três instituições. Qual é o segredo?
Não sei responder. Para mim é um orgulho. Em 2013, tornei-me patrono da ‘Biblioteca Pedro Seromenho’ no Agrupamento de Escolas de Santa Maria em Tomar; em 2015 passei a ser patrono da biblioteca da Escola Básica n.º 2 de Lamaçães e, em 2021, patrono na Escola EB 2,3 de Celeirós. Olho para isso como o reconhecimento de um trabalho e de uma entrega constante e incondicional perante os alunos leitores. Não encontro outra explicação e não estava à espera.
Quando o telefone toca o que se sente?
Feliz e realizado. Sabe… as únicas pessoas que podem ter um burnout são aquelas que estão apaixonadas pelo trabalho. As demais nunca o sofrerão, porque olham para o relógio e desligam.
Como gere esse excesso com o equilíbrio familiar?
A idade ajuda. Temos de improvisar um travão. Não sacrificar tanto a família. Saber abrandar. Mesmo na minha equipa, há essa preocupação de alertar. Se não o fizer, não há quem aguente.
Tem duas décadas de contacto com os jovens. Estes têm hábitos de leitura ou nem por isso?
Tudo depende das idades a que nos referimos. Os jovens do 1.º e 2.º ciclos são afortunados porque têm toda uma infraestrutura que foi construída pela Rede das Bibliotecas. No meu tempo tinha de ir à carrinha da Gulbenkian para requisitar um livro. E exposições? Onde havia? A parte cultural era diminuta. Hoje abrimos a Agenda Cultural de um município e há tanta coisa para ver e visitar que nem sabemos o que escolher.
Quanto à leitura, os alunos passaram a dispor de várias ferramentas. O que noto é que, a partir do 8.º e 9.º anos, abandonam a leitura. Há outros prazeres da vida. Mais liberdade. Aparece o amor, as namoradas… e o livro obriga à reclusão. Ler é um ato solitário e, nessa idade, quer-se tudo menos solidão. Inevitavelmente o livro ficará esquecido num canto. A única exceção acontece quando é o próprio grupo que adota esse livro.
Concorda que há poucos escritores para o público juvenil?
Concordo por inteiro, porque não há público. É a lei da oferta e da procura. Lá voltamos à Economia. Se não há procura, não há escritores. Os jovens leitores são pedras preciosas. Na fase pós-universidade, alguns leitores regressam porque as raízes e os hábitos de criança perduram.
Em matéria de ‘semente’ maior tem um nome: Mia Flor (filha).
A minha semente maior é a Mia Flor, sim. É, também, uma alma inquieta, sensível e com um talento fantástico. Revejo-me muito nela, mas nunca a encorajei. Nunca cometerei o erro de a encorajar para o que seja. Quero que seja feliz, seja qual for a profissão que venha a ter. Só sei que acorda e adormece a desenhar. Vive e sonha a ‘Arte’ como eu vivia e sonhava na idade dela.




