Impressionam as palavras e o modo como elas são recordadas. Deixei o gravador em cima da mesa e deixei-me fluir. Tinha diante dos meus olhos um dos últimos ‘grandes’ empresários da Braga que não conheci. Se tenho autoridade em falar da capital do Minho desde meados dos anos 80, o que dizer do espanto que houve nas décadas anteriores?  

Manuel Ramôa é um dos últimos desenhadores do que pensamos ser este chão minhoto que hoje pisamos e deambulamos de terra em terra. Lembra o ofício como uma tela em constante evolução. Não esquece a vida de agricultor, de taberneiro, até chegar a 31 de agosto de 1968. 

Tinha 40 anos quando decidiu dizer não às seduções do estrangeiro e acreditar na terra que o viu nascer. Fez sociedade com Manuel Joaquim Barbosa de Oliveira. Juntos, criaram a ‘Recauchutagem Ramôa’. O arranque teve por objetivo comercializar pneus. Nada mais do que isso. Em 1974, em plena ‘Revolução dos Cravos’, foi instalado o primeiro pavilhão, na ‘Ponte do Bico’. Sete anos volvidos, em 1981, a sociedade desfez-se. O sócio dividiu a quota por nove. Contas feitas, foi assumida por Manuel Ramôa e pelos seus oito filhos. 

De lá para cá, o grupo ganhou corpo. Nesse mesmo ano, foi implementada uma nova área comercial e industrial, em Dume, onde passaram a funcionar, para além da recauchutagem, os serviços comerciais. No presente, a empresa dedica-se à comercialização de pneus novos e recauchutados e à prestação de serviços de assistência automóvel a diversos tipos de viaturas, utilizando tecnologias de ponta. Sediada em Palmeira, Braga, conta com sete postos de assistência distribuídos pelos concelhos de Braga, Barcelos, Póvoa de Lanhoso, Vieira do Minho, Vila Verde, Esposende e Montalegre, para além de uma fábrica localizada na freguesia de Adaúfe. No total, dá emprego a cerca de centena e meia de trabalhadores. 

 Os dados estão lançados. Vamos agora conhecer o homem que conseguiu elevar o nome ‘Ramôa’ a um patamar de imortalidade. 

 

O que recorda da sua infância? 

A vida foi muito dura. Não tive irmãos. A minha mãe morreu quando tinha 12 anos. Quando andava na tropa, morreu o meu pai. Foi um início de vida por essas estradas fora. Foi duro. Naquele tempo, não havia camiões e nós íamos com o carro de bois levar mercadoria para terras como os Arcos de Valdevez e Ponte da Barca. Levávamos de tudo: bacalhau, arroz, sal, cal, sulfato… até sabão escondido, o que era ilegal. Houve uma vez que o meu pai teve de ir responder ao Tribunal Militar do Porto por transportar materiais ilegais e não tinha sido ele. Foi um irmão que lhe pôs o sabão por debaixo de uma caixa no carro, porque já tinha sido apanhado. 
Nasci do nada e nunca pensei chegar onde cheguei. Sinto-me muito feliz. Tive muita sorte. Sou um homem realizado. 

 

Teve oportunidade de estudar? 

Só fiz a quarta classe. Ia continuar a estudar, mas infelizmente a minha mãe morreu quando fiz o exame. Passei com distinção e ia estudar para comércio. Como era o único filho, fui antes para a frente dos bois. No meio disto tudo, posso dizer que passei bons momentos a trabalhar no campo. O problema é que não dava para ganhar dinheiro. 

 

Em algum momento equacionou emigrar? 

Pensei em emigrar e estive quase a fazê-lo, mas desisti. Tinha oito filhos e continuava na mesma, sem rumo profissional. Decidi tomar conta de um restaurante na Avenida da Liberdade. Fui empregado viajante de pneus, primeiro no Santos da Cunha, depois numa casa de pneus de Braga. Só três anos depois é que fiz sociedade que deu origem à recauchutagem. Comecei a partir daí. 

 

Por algum momento imaginou ter o que tem? 

Nós temos sempre de acreditar. A minha vida, como deve imaginar, teve momentos difíceis. Como já disse, cheguei a ter as malas feitas para emigrar para França, mas a família falou mais alto e não consegui deixar a esposa e os meus oito filhos. Decidi comprar um terreno em Palmeira e fui comprar uma recauchutagem usada ao Alentejo, a Ponte de Sôr, que tinha vindo de Angola. E foi assim que comecei. Daí para cá, a vida foi muito trabalhosa, não havia máquinas, era tudo feito à mão. 

 

Só fiz a quarta classe. Ia continuar a estudar, mas infelizmente a minha mãe morreu quando fiz o exame. Passei com distinção e ia estudar para comércio. Como era o único filho, fui antes para a frente dos bois. 

 

Face a tanta dificuldade, como conseguia gerir a empresa? 

O negócio era muito complicado. Ficaram-me a dever muito dinheiro de letras. Os camionistas não tinham dinheiro e às vezes tinha de ser eu a pagar. Cheguei a ir de madrugada para a porta de alguns clientes para os ‘caçar’ a sair da cama, às seis da manhã. Tive grande sucesso ao longo destes anos talvez devido à minha teimosia, vontade de trabalhar e querer ser alguém na vida. 

 

Imagino que deve ter outras histórias para contar… 

Recordo-me de uma vez ter ido de Braga para Valpaços de propósito só para desmontar um camião e trazer o carro cheio de pneus. Cheguei a ir a Chaves, a Vila Verde da Raia…estive lá o dia inteiro a desmontar pneus de uma carrinha para os trazer para recauchutar…foi muito sacrifício. Tinha o pensamento de vencer na vida. Hoje é tudo diferente. 

 

1999. Um ano marcante, pela negativa, para a empresa. O que recorda? 

O incêndio foi como uma guerra que aconteceu na empresa. No entanto, depois de tudo destruído, renascemos com maior força das cinzas, como muitos países destruídos pela guerra. Muita gente apoiou. Foi bom sentir esse apoio, não só de funcionários, mas de todos os vizinhos. Houve até funcionários que correram algum risco de vida ao tentarem salvar as instalações. Nunca poderei esquecer o que aconteceu nesse mês de fevereiro. Perdemos cerca de 150 mil pneus. Foi difícil. Nunca consegui estar parado. Tinha o ‘diabo comigo’ como se costuma dizer. 

O negócio era muito complicado. Ficaram-me a dever muito dinheiro de letras. Os camionistas não tinham dinheiro e às vezes tinha de ser eu a pagar. Cheguei a ir de madrugada para a porta de alguns clientes para os ‘caçar’ a sair da cama, às seis da manhã. 

 

Não pensou em desistir? 

Nunca! O segredo desta empresa é o trabalho e o querer. O ir para a frente. Nunca parei, nem de noite, nem de dia, nem aos sábados ou domingos. Era sempre a trabalhar. Felizmente que consegui vencer e ter a empresa que hoje se pode ver. 

 

Concorda que ter a família toda unida foi decisivo para a Recauchutagem Ramôa sobreviver a tanta dificuldade? 

Está certo! Tenho os filhos junto comigo. Também já tenho os netos no ramo. Se não fossem eles, não sei como seria. Não imagina a felicidade que tenho de ver a terceira geração a trabalhar na empresa. São o futuro. A família é um dos pilares do meu sucesso e de toda a minha vida. O único problema que temos é a falta de pessoal para trabalhar. Não querem trabalho! 

 

Há poucos anos houve a Covid-19. A empresa como encarou esse tempo? 

Tivemos a necessidade reajustar todos os processos, horários, divisão em equipas, trabalho por turnos, redução de horários. Tivemos de adotar todas as medidas de segurança para os nossos colaboradores e clientes. Tivemos de reinventar a forma de trabalhar, como toda a gente o fez. 

Sou um homem feliz. Deus deu-me a graça que sempre lhe pedi: saúde e que durasse muito. Cá estou eu perto dos 100, com todos os sonhos realizados. Tive as minhas dificuldades, mas nunca fiquei a dever dinheiro a ninguém. 

 

Para além da família e dos pneus tem outra paixão: o Sporting Clube de Braga. Esteve uma década na direção do clube (1992 a 2002). O que lembra desse tempo? 
Gosto muito do Braga. É o meu clube e da família toda. Foram anos marcantes e difíceis. Hoje é tudo muito diferente. Na altura, fui vice-presidente de um clube muito difícil de gerir, com pouco dinheiro. Os jogadores queriam sair. Era complicado manter os melhores jogadores. Acredito que vai ser campeão. Pode não ser para já, mas vai ser. 

É um homem feliz? 

Sou. Deus deu-me a graça que sempre lhe pedi: saúde e que durasse muito. Cá estou eu perto dos 100, com todos os sonhos realizados. Tive as minhas dificuldades, mas nunca fiquei a dever dinheiro a ninguém. 

 

 

Quem é Manuel Ramôa? 

Natural de S. Martinho de Dume, neto de um lavrador da cidade de Braga e filho de pais agricultores, Manuel Francisco Rodrigues Ramôa nasceu a 28 de setembro de 1928. Filho único, estudou em S. Lázaro e trabalhou, desde muito novo, no campo. Cresceu a lavrar terras e entre animais. Foi casado com Maria da Glória Gomes Marques. É pai de oito filhos. 

A Recauchutagem Ramôa transformou-se num nome de referência no mundo dos pneus a nível nacional, fruto de um crescimento progressivo e sustentável assente na visão empresarial do seu fundador, principal responsável pelo império criado em torno do nome Ramôa. É um nome que ultrapassou os limites da cidade, da região e do país. É uma marca. Perto de completar 98 anos, continua a visitar regularmente os postos de assistência espalhados pela região do Minho e Trás-os-Montes. 

 

 

Empresário agraciado

O percurso de vida e o sucesso empresarial de Manuel Ramôa foram reconhecidos publicamente, pela Câmara Municipal de Braga, ao agraciar o fundador da ‘Recauchutagem Ramôa’ com a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro, em 1998. Manuel Ramôa recebeu das mãos do então presidente da autarquia bracarense, Mesquita Machado, a Medalha de Ouro, no dia 5 de dezembro de 1998, data em que é assinalado o Dia de São Geraldo, padroeiro da cidade. 

A distinção com o Grau Ouro expressa toda a gratidão pela história empresarial da família Ramôa – passado, presente e futuro – e pelo papel desempenhado ao longo dos anos, enquanto peça do motor no desenvolvimento empresarial do concelho de Braga. 

  

 

Projeto Europeu de 2,3 Milhões

A Recauchutagem Ramôa encontra-se a implementar um projeto de investimento estratégico com o apoio do NORTE 2030 – Programa Regional do Norte, cofinanciado pela União Europeia, com o objetivo de reforçar a sua capacidade produtiva, eficiência industrial e competitividade no setor da recauchutagem de pneus. Este projeto insere-se numa estratégia de crescimento sustentado e modernização da unidade industrial, apostando na inovação, na otimização dos processos produtivos e na criação de condições para responder de forma mais eficiente às exigências do mercado. A implementação do investimento permitirá à Ramôa melhorar significativamente a sua operação, reforçando a qualidade do serviço prestado, a fiabilidade dos processos e o compromisso com a sustentabilidade e a economia circular — pilares fundamentais da atividade da empresa. 

Com o apoio financeiro da União Europeia, a Ramôa está a consolidar a sua posição como empresa de referência no setor, preparando-se para os desafios futuros com maior capacidade tecnológica, eficiência operacional e foco na valorização dos recursos. 

Este projeto representa, também, um contributo relevante para o desenvolvimento económico da região Norte, alinhado com os objetivos de inovação e competitividade definidos no âmbito do NORTE 2030.