Muito mais do que um restaurante

Lu Marinho encontrou em Braga o lugar ideal para dar vida a um projeto onde a gastronomia, a cultura e a hospitalidade se unem para criar experiências memoráveis e celebrar a vida.

Lu, antes de começarmos esta conversa, para quem não te conhece, quem é a Lu Marinho? Mãe, mulher, empreendedora, empresária, sonhadora... quem é, Lu?

Acho que primeiro de tudo é uma pessoa que ama a vida e ama compartilhar a vida também. Mas, enfim, eu já fui tanta coisa, gente, que eu digo que eu vivi muitas vidas apenas em uma vida. Então já fui professora primária, já fui advogada, depois eu comecei a fazer design de interiores, parei um pouquinho para ser mãe o tempo inteiro, quando eu mudei para os Estados Unidos. Depois, enfim, comecei com um canal no YouTube, fui para a Band, para a televisão, aí escrevi um livro e hoje eu tenho o Oboé.

E falando aqui do Oboé, tu dizes muitas vezes que o Oboé não é apenas um restaurante, é uma experiência. As pessoas que vêm aqui já sentem isso? Já conseguiste passar essa mensagem?

Olha, a gente trabalha todos os dias, né? E assim, é um passinho de cada vez. Mas, a princípio, o Oboé era um restaurante, é um lugar especificamente gastronómico. E hoje, depois que eu entrei aqui e com a minha história de Braga, que eu sabia, que eu percebi que o vovô era de Braga, e eu vi o meu propósito de estar aqui e hoje honrar meu pai e minha mãe aqui nesse restaurante, porque eu aplico tudo que eu aprendi com os dois. Eles amavam festa, amavam dançar, música e tudo mais.

Hoje eles não estão comigo fisicamente, mas eu honro toda a minha ancestralidade aqui. E essa experiência que eu vivo aqui é o que eu passo para os meus clientes.

Hoje eu tenho certeza que quem vem aqui vive uma experiência, porque quando os olhinhos brilham, quando a pessoa te abraça e agradece por aquele momento ter sido trabalhado com tanto cuidado, com tanto pormenor, eu sinto que eu atingi esse objetivo.

E passaste por muitos sítios. Além de muitas profissões, passaste também por muitos sítios: 

Brasil, Miami... O que é que Braga te trouxe de novo? Por que Braga?

Bom, eu cheguei em Braga simplesmente porque eu tinha que fazer vídeos para a televisão, uns programas, e eu estava fazendo de viagem. E, por acaso, as pessoas que me gravavam em Miami vieram para cá antes.

Eu falei: "Ah, vou começar por Braga, não conheço, né?"

E aí, nesse meio tempo, eu me nacionalizei, descobri que o vovô era de Braga e o meu chefe me pediu para fazer um livro. E eu sentava naquela mesinha ali toda noite para escrever o tal livro que ele tinha me pedido, que cada hora era uma coisa.

E aí, enfim, me encantei por esse lugar. Acho que esse lugar esbanja design. Ele fica no Teatro Circo, que é o prédio mais icónico de Braga.

Então, por que Braga? Porque eu voltei para a minha raiz. Porque eu senti uma força mesmo da minha ancestralidade fazendo o caminho de volta. O meu avô saiu de Braga para o Rio de Janeiro. Eu nasci no Rio de Janeiro e agora estou em Braga.

Não que eu diga que seja a minha última parada, mas eu precisava dar continuidade. Acho que é uma obra que ele começou aqui.

Braga é casa para ti?

Sem sombra de dúvida. Eu morei no Rio de Janeiro, morei em São Paulo, morei em Miami, que são cidades muito grandes. E o que mais me encantou em Braga, que me fez comprar uma casa aqui, é essa quietude, essa coisa gostosa de você andar na rua, ver as pessoas. Às vezes eu estava na janela, passava uma amiga minha de carro: "Oi, Lu, tudo bem?" Era muito bom.

Tomar um cafezinho na esquina e ter tempo para você. Porque nas grandes cidades a gente não trabalha para viver, a gente vive para trabalhar. E aqui eu percebo, não só em Braga, mas o português tem essa cultura de dar a paradinha dele, respirar, falar uma prosa com o outro. Isso é muito bom.

O Oboé tem aqui muitos espaços, muitos detalhes diferentes. Tu és designer de interiores. Qual foi o detalhe mais difícil de conseguir aqui no Oboé, mas que também te dá aquele gosto diferente e que tu gostas mesmo de ter aqui?

Mais difícil? Eu acho que não houve.

Eu encontrei um restaurante já com um design muito bonito. Essa garrafeira aqui foi algo que me chamou a atenção de imediato por causa da iluminação. Eu sou apaixonada por luz e ela tem uma dupla função. Quer dizer, ela tem três funções.

Ela é a garrafeira, ela funciona como uma escultura iluminada, trazendo luz e alegria para essa sala. E também é uma divisória. Ela divide o salão principal do banheiro e do... minto, da escada e do elevador. Então eu achei essa ideia fantástica.

E o que eu trago para cá, que de fato não havia e tem muito da minha personalidade, são as toalhas de mesa, são os napkin rings, são as flores naturais, a música que tem a ver comigo. Enfim, a gente trabalha paredes, coloca muita arte aqui.

Eu acho que trazer a arte para o Oboé é caminhar no sentido do meu objetivo, que é transformar o Oboé muito mais do que um restaurante, num destino mesmo de ação cultural, num centro cultural.

E isso está muito relacionado com a tua profissão. Tu passaste anos a desenhar casas para outras pessoas, para as pessoas se sentirem em casa, acolhidas. Há assim tanta diferença nessa área e nesta área da restauração que tu estás a tentar incutir aqui no Oboé?

Não. É muito interessante porque o Oboé... quando eu trabalhava com design de interiores, com casas, eu preparava aquele lugar para onde você voltava, para o seu ninho.

E vamos combinar que quando a gente volta para casa, a gente quer aquele lugar aconchegante, que você veja as suas memórias de viagem, as suas histórias. Você abre a geladeira, você quer encontrar o que você gosta de comer, colocar a música que você gosta, a temperatura que você também se sente confortável.

E hoje eu trabalho com o mesmo propósito de levar acolhimento, mas no sentido oposto. Porque hoje eu tenho que criar no Oboé situações, o ambiente, enfim, toda uma atmosfera que justifique a pessoa sair da casa dela para vir comer na minha casa.

Porque isso aqui é Lu Marinho em casa.

E o Oboé não é um simples restaurante. Tu utilizas muito este espaço para fazer eventos. Porquê fazer essa distinção entre um restaurante banal e uma casa diferente?

Gente, esse restaurante parece que não. Quem passa pela frente só vê uma porta, mas ele tem três andares. A gente tem sete toaletes, a gente tem três bares independentes, tem elevador, que também não é uma coisa comum aqui. Temos uma cozinha, uma das maiores cozinhas dos restaurantes de Braga.

Então, você tem tudo para fazer muitas coisas.

O fato de eu limitar o Oboé a um restaurante é subutilizar tudo o que eu tenho aqui.

Então, hoje, o que nos dá muito gosto em fazer é celebrar a vida. Seja quando um casal vem e eles avisam que "eu vou pedir ela em casamento", e aí a gente já faz todo o mise-en-scène, faz parte das surpresas. A gente, às vezes, escreve na sobremesa "namora-me" ou "casa comigo", alguma coisa.

Às vezes a gente tem aniversários intimistas. Às vezes a gente tem aniversários temáticos que mobilizam todos os andares, porque cada fase do evento a gente vai podendo mudar de andar, mudar a música e mudar a vibe.

Às vezes a gente tem jantares no terceiro andar que depois fazem o after no clube. A gente tem eventos corporativos, como o que a gente fez da DST Group, que ocupa toda essa área abaixo para ficar todo mundo junto. E é um coquetel para 350 pessoas.

Então é uma coisa extremamente grandiosa, que exige muita logística.

Então, hoje, Inês, eu invisto muito na formação do meu time no sentido de hospitalidade. Porque é o que eu costumo dizer: você entregar aquilo que você combinou não tem nada de mais, é a sua obrigação. Agora, você superar e ver que a pessoa se surpreendeu com a tua entrega, isso, para mim, é excelência.

E eu fico até arrepiada porque, quando a gente atinge isso, e graças a Deus a gente tem atingido, não tem preço.

Por exemplo, o São João, que a gente teve aqui há pouco tempo, é uma luta, é uma festa. Não é para 350 pessoas. A gente tem cerca de 70 pessoas no camarote, mais 4 mil pessoas na rua. A gente ergue um palco, a gente contrata DJs, é seguro, segurança, gerador, enfim, licenças. É muita coisa.

E, vamos lá, por que eu faço isso? Eu poderia ficar só no meu cantinho, não precisava fazer essa festa de rua. Mas eu sinto que a cultura está impregnada em mim. E se eu estou em Braga, eu tenho que celebrar a cultura.

Então a gente faz parte dos eventos culturais da cidade. E enxergar... eu fui ali em cima, nesse São João, fiquei paradinha vendo aquela rua repleta e eu cheguei até a chorar. Porque você saber que você fez a diferença na vida de cada uma daquelas pessoas que estavam ali... gente, não tem dinheiro que pague. Não tem, não tem, não tem.

Então eu falei: "Meu Deus..." Aí o meu filho por acaso estava aqui, minha filha, meu marido, e ele virou para o meu lado e falou: "Mãe, você já imaginou que foi você que fez isso tudo?"

Eu falei: "Não. Não, ainda não parei para pensar. Não, não realizei. A gente já fez outras vezes, mas é que dessa vez foi muito especial."

Lu, ainda vais estar aqui por muitos mais anos a fazer realmente a diferença na vida de muitas pessoas e a acolhê-las aqui na tua casa, mas daqui a uns anos, como é que gostavas que as pessoas viessem aqui e se lembrassem: "A Lu Marinho é que deu uma nova vida a este espaço maravilhoso aqui na cidade de Braga." Como é que gostavas de ser lembrada?

Ai, vou-te falar.

Eu gostaria de ser lembrada como alguém que sempre amou a vida. E que vive intensamente todos os minutos.

Nosso bem maior é a nossa vida e o que a gente tem que se preocupar mais é com o tempo. Não o tempo de sair correndo para fazer tudo, mas de viver intensamente cada momento.

Então, o que eu faço aqui... eu vivo muito tempo aqui, mas eu não deixo a minha família também completamente de lado. Então, hoje eu tenho uma logística que eu consigo fazer esse equilíbrio. Até porque eu conto com um time que me representa muito bem e de lá também eu fico nos calls e tudo mais.

Mas eu gostaria mesmo de ser lembrada como alguém que trouxe para Braga todo o conhecimento que eu amealhei ao longo desses anos todos, são 62, e coloquei aqui o meu melhor. O meu melhor para, enfim, trazer todo o conhecimento que eu tive, mesmo conhecendo outras cidades, outros sítios que fazem festa.

O que eu aprendi dentro da minha casa, porque a minha casa sempre foi uma festa desde que eu era criança, então é algo que você aprende até por osmose. Não está em livro nenhum.

Você pode fazer uma festa toda certinha, Inês. Se você não tiver o acolhimento de olho no olho, abraçar aquela pessoa, perceber, ler a necessidade da pessoa, é algo que não vai funcionar.

Mas eu te digo: hoje eu comprei um restaurante num prédio que é tombado. É um prédio que não vai abaixo para ser construído outra coisa.

Então eu posso te dizer que eu vou ser lembrada como alguém que colocou a digital aqui. Então, como eu estou num prédio perene, a minha digital estará em Braga para sempre.

Entrevista - Lu Marinho