A IA fascina porque parece aproximar-se de capacidades que, durante muito tempo, considerámos exclusivamente humanas: aprender, responder, criar, reconhecer padrões e resolver problemas. Mas será isso suficiente para falarmos de inteligência? E, sobretudo, que impacto terá esta tecnologia naquilo que entendemos por humano?

Longe dos discursos alarmistas ou das visões excessivamente entusiastas, talvez a discussão deva começar por uma questão mais profunda: afinal, o que é a inteligência? Antes de perguntarmos se a Inteligência Artificial nos tornará mais ou menos humanos, talvez seja necessário compreender que tipo de inteligência estamos a atribuir às máquinas — e que dimensões continuam a pertencer ao domínio da experiência humana, da consciência, da emoção e da responsabilidade ética.

É a partir desta tensão — entre capacidade técnica, consciência, emoção e responsabilidade humana — que Luís Paulo Peixoto dos Santos, Professor e Investigador Associado do Departamento de Informática da Universidade do Minho, reflete sobre os limites da IA atual e sobre a necessidade de repensar o próprio conceito de inteligência. A sua investigação centra-se na Computação Quântica, incluindo Quantum IA, e na Computação Gráfica.

Os avanços recentes em Inteligência Artificial exigem uma redefinição formal do conceito de inteligência? E, nesse contexto, acredita que estas tecnologias podem tornar-nos menos ou mais humanos? Porquê?

“IA”, “Big Bang”, “partícula de Deus”: interpretações simplificadas ou equívocas

O futuro da Inteligência Artificial, e o impacto que terá na sociedade, continua a ser alvo de intensa especulação. As previsões oscilam entre cenários de verdadeira ficção científica e propostas mais contidas, que defendem que os atuais modelos de IA já terão atingido o limite das suas capacidades e que não devemos esperar muito mais em termos de novas funcionalidades.

Creio que grande parte desta especulação se deve precisamente à própria designação “Inteligência Artificial” e à inexistência de uma definição formal e consensual de inteligência. O termo foi proposto, em 1956, pelo cientista da computação John McCarthy, com o objetivo de encontrar uma designação capaz de captar a atenção e a imaginação do público, em particular de potenciais investidores na área. Cumpriu, sem dúvida, esse propósito. No entanto, não contribuiu necessariamente para esclarecer o que entendemos por inteligência, nem o que seria, em rigor, uma inteligência artificial. Algo semelhante acontece com expressões como “Big Bang” ou “partícula de Deus”: são designações poderosas, comunicativamente eficazes, mas que também podem induzir interpretações simplificadas ou equívocas.

Afinal, o que é ser inteligente?

As definições de inteligência têm procurado reunir vários aspetos distintos. A psicologia associa-a à aprendizagem, à resolução de problemas e à adaptação a novas situações. As ciências cognitivas acrescentam dimensões como a representação interna do mundo, a capacidade de planeamento e a tomada de decisões. A Inteligência Artificial atual revela um desempenho notável em muitas destas vertentes. Mas quantos de nós se reveem integralmente nesta lista de capacidades e aceitam que a sua inteligência fique assim suficientemente definida?

O que falta às máquinas e a proposta de António Damásio

A filosofia introduz dimensões bem mais difíceis de operacionalizar, como a consciência, a intencionalidade e a compreensão subjetiva do mundo, por oposição à mera manipulação de símbolos. A estas dimensões junta-se ainda a proposta de António Damásio, que defende que as emoções são parte estruturante da inteligência. As emoções reduzem o espaço de escolhas disponíveis em cada momento, aumentando a eficiência do raciocínio e contribuindo para a regulação das decisões.

Padrões, probabilidades e limites

Temos, portanto, sistemas de IA excelentes em tarefas como o reconhecimento de padrões, a aplicação desses padrões a cenários semelhantes — ainda que diferentes daqueles que já foram processados — e a otimização ou tomada de decisões em ambientes bem definidos. No entanto, estes sistemas continuam a falhar em aspetos em que os humanos se destacam.

A sua aprendizagem é ineficiente, exigindo muitos mais exemplos do que aqueles de que um ser humano normalmente necessita. Além disso, não existe uma compreensão semântica do mundo: a IA lida com probabilidades e trabalha com a forma como o mundo é descrito, mas não aprende verdadeiramente como o mundo é.

Esta ausência de compreensão semântica está na origem das chamadas “alucinações”, ou seja, respostas plausíveis, mas falsas. Na sua tentativa de cumprir os objetivos que lhe foram propostos, um sistema de IA pode ainda tomar decisões que um ser humano, dotado de outras competências regulatórias, rejeitaria como inaceitáveis.

A distância entre IA e humanidade

Parece-me, por isso, relativamente consensual admitir que a Inteligência Artificial atual não está consciente, não possui uma compreensão semântica subjetiva do mundo e não é regulada por emoções. Faltam-lhe, portanto, características fundamentais daquilo que nos define enquanto humanos.

A escolha continua a ser humana

Precisamos, certamente, de definições formais de inteligência, nas várias formas em que esta se pode manifestar. Mas não será a IA, por si só, que nos tornará mais ou menos humanos. Seremos nós próprios que, de acordo com as escolhas que fizermos ao utilizar e disponibilizar estas tecnologias, nos tornaremos mais — ou menos — humanos, conclui.

A reflexão de Luís Paulo Peixoto dos Santos deixa, assim, uma responsabilidade que não podemos transferir para as máquinas.

A IA não surge no vazio. Surge numa sociedade cada vez mais acelerada, polarizada, solitária e impaciente, onde, tantas vezes, o outro é reduzido a um nome numa folha de Excel, a uma opinião, a um obstáculo ou a um alvo. Talvez o verdadeiro risco não seja apenas o de as máquinas se tornarem demasiado humanas, mas o de nós estarmos a tornar-nos cada vez mais mecânicos e pouco preocupados com a desumanidade que já se instalou na sociedade.

No fim, talvez estejamos a culpar a IA por uma desumanização que não começou nela. Começou em nós — e depende de nós decidir se estas tecnologias serão mais uma ferramenta de alienação ou uma oportunidade para recuperar aquilo que ainda nos torna verdadeiramente humanos.