Podemos começar sem rodeios: quem é esta mulher que tenho diante de mim?

É uma pergunta muito difícil de responder porque é complicado falar de mim. No entanto, sou, acima de tudo, uma pessoa normal. Tive uma infância tranquila. Nasci e cresci em Viana do Castelo, no seio de uma família normal.

Em relação ao meu percurso profissional, tem tido algumas reviravoltas. Não vim para a Polícia logo que tive oportunidade, nem foi um sonho de infância. Brincava aos “polícias e ladrões”, mas não era um sonho que tivesse desde pequenina. O que sempre tive foi a ideia de servir o público, fazer a diferença na sociedade. Nunca quis ser apenas mais uma pessoa num contexto genérico. Não com a intenção de ter qualquer tipo de protagonismo, mas de sentir que, no final do dia, o meu esforço e trabalho tivessem valido a pena para alguém.

Quando terminei o ensino secundário, fui para Jornalismo. Considero ser uma profissão interessante. Admiro muito quem se dedica a ela. A dada altura, decidi enveredar por outra carreira onde me sentisse mais útil. Como não tinha aquelas capacidades que me fizessem sobressair, seria difícil ter um percurso estável. Foi nessa altura que surgiu a possibilidade de concorrer à Polícia de Segurança Pública (PSP). Foi um desafio. Concorri e cedo me apaixonei pela profissão.

Desde 2007 que tenho tido um trajeto interessante. Iniciei funções como agente (durante dois anos) e logo passei para a Escola Superior de Polícia, onde fiz o mestrado que me permitiu ingressar na carreira oficial da Polícia. Terminei em 2014.

Tenho tido um percurso muito pouco rotineiro, com muitas mudanças e passagens por vários sítios. Entretanto, dei por mim a ser convidada para vir para Braga. Cá estou, a liderar uma polícia municipal já com alguma consistência e dimensão. Uma cidade grande que me obriga a crescer profissionalmente e pessoalmente.

Retive no que disse que nunca foi sonho de menina estar na polícia. Havia um outro sonho que vivia em si?

Esta é a parte mais hilariante. O meu sonho era ser arqueóloga, o que, como deve constatar, tem tudo a ver com o que faço (risos). No entanto, persiste o “bichinho” da investigação, de fazer algo diferente...

Quem a desviou do “sonho de menina”?

Não foi ninguém. Fui mesmo eu. Percebi que não teria grande saída profissional. Por vezes, nos sonhos, temos de colocar os pés na terra.

É correto dizer que estou perante uma mulher muito exigente consigo própria?

Sim, é correto. Sou muito exigente comigo. É uma característica que tenho desde que me conheço. Gosto de dar sempre o meu melhor.

Quem a convenceu a ir comandar a Polícia Municipal de Braga?

Fui convidada pela então senhora vereadora Olga Pereira, que estava à frente do pelouro na Câmara de Braga. Investiguei um pouco a estrutura e não hesitei na resposta.

Como foi o primeiro dia?

Foi diferente. É difícil de descrever. Havia muita emoção. Estava apreensiva porque era uma realidade que não conhecia. Uma cidade diferente, pessoas diferentes, uma maneira de estar também diferente. Apesar da apreensão, estava muito entusiasmada...

Tenho um feitio um bocado complicado. Quando é preciso ser complicada, eu sou complicada. Mas, no geral, num primeiro momento, não sou uma pessoa sisuda nem fria. Gosto de comunicar, ouvir o que as pessoas pensam e ter isso em consideração nas minhas decisões. Isto, de certa forma, acaba por “quebrar o gelo”.

...por querer fazer bem?

Exatamente!

Como foi recebida?

Muito bem recebida. Desde o primeiro dia. Os agentes foram muito afáveis e não senti qualquer tipo de tensão.

Neste contexto, o que é “ser muito bem recebida”?

É sentir-me logo em casa. Fui muito bem acolhida. Mostraram-me a esquadra, apresentaram-me as pessoas e notei, também, que estavam apreensivas e curiosas. Era natural. Ninguém me conhecia e era uma mulher que vinha assumir funções. Foi engraçado.

Desde esse momento, temos vindo a conhecer-nos todos um pouco mais. Tenho uma equipa fantástica.

Recorda-se das primeiras palavras que proferiu?

Não me recordo. Foi algo que saiu de dentro de mim. Não preparei nada. Apesar de ser muito perfeccionista, gosto de deixar falar o lado da espontaneidade. Tenho uma personalidade muito própria...

Fale-me dela...

Ora bem... tenho um feitio um bocado complicado. Quando é preciso ser complicada, eu sou complicada. Mas, no geral, num primeiro momento, não sou uma pessoa sisuda nem fria. Gosto de comunicar, ouvir o que as pessoas pensam e ter isso em consideração nas minhas decisões. Isto, de certa forma, acaba por “quebrar o gelo”.

Identifica-se com o lema “máxima liberdade, máxima responsabilidade”?

Tento seguir esse lema. Tem de ser, porque as pessoas têm de sentir que confiamos nelas. Acredito que, dessa forma, dão muito mais de si.

Não aparece de paraquedas em Braga. Tem atrás de si funções no Comando Distrital da PSP de Viana do Castelo e, antes, teve passagem pelo Comando Metropolitano de Lisboa. Este “calo” tem sido uma mais-valia?

Sim e não. Em Lisboa foi um comando diferente. Lidámos com polícias mais jovens, acabados de sair da escola, o que acaba por ser mais fácil e até mais confortável. Em Viana do Castelo encontrei pessoas com muita experiência, mais “bagagem”...

...e mais vícios?

Também! No entanto, não é por ser a minha cidade, mas foi um comando no qual gostei muito de trabalhar e ao qual tenciono voltar. Tem um efetivo que dá o seu melhor todos os dias, independentemente da idade e dos desafios que possam ter.

Face ao que estou a escutar, é correto dizer que é mais fácil “moldar” um agente novo em contraponto a um agente com mais experiência?

Eu não vejo as coisas dessa forma. Entendo que não devemos moldar os outros. Devemos ouvir as expectativas de cada um e perceber de que forma podemos aproveitar o melhor de cada pessoa.

Já mudou alguma ordem pelo que ouviu de alguém?

Se tiver de mudar, mudo.

Tento liderar pelo exemplo. Demonstrar aos outros aquilo que acho que é correto. Neste momento, está a ser uma liderança algo afastada. Não o queria. Estou presa a muita burocracia, a questões administrativas que me impedem de andar no terreno, junto dos agentes, como é desejável e como gostava de andar. Os polícias gostam de estar na rua e nunca atrás de uma secretária.

Convive bem com esse cenário?

Convivo. Se tiver a minha ideia formada e estiver convicta a 200% de que o caminho é aquele, avanço. No entanto, considero-me uma pessoa flexível. Para me descreverem melhor, só quem trabalha comigo. Aliás, gosto de tomar decisões em equipa.

Ao fim destes três anos, sente ter a equipa “na mão”?

Penso que sim.

Quanto tempo demorou para ter essa opinião?

Em pouco tempo. A equipa estava também muito bem preparada e decidida a seguir o rumo certo. Não foi necessário impor o que quer que fosse. Foi apenas alinhar as expectativas deles com as minhas. Claro que nunca agradamos a todos. No geral, confio muito na minha equipa. Sei que, se precisar dela, vai lá estar sempre.

Como define a sua liderança?

Tento liderar pelo exemplo. Demonstrar aos outros aquilo que acho que é correto. Neste momento, está a ser uma liderança algo afastada. Não o queria. Estou presa a muita burocracia, a questões administrativas que me impedem de andar no terreno, junto dos agentes, como é desejável e como gostava de andar.

Os polícias gostam de estar na rua e nunca atrás de uma secretária. Procuro também que seja uma liderança participativa, ou seja, que eles próprios possam dar o seu contributo.

O que mudou no concelho de Braga desde que assumiu funções?

Não noto grandes mudanças. Braga é uma cidade já com dimensão, o que significa que tem associados alguns problemas em matéria de segurança. O que notamos mais são pequenas incivilidades relacionadas com estacionamentos e viaturas deixadas na via pública. Há pessoas que aproveitam para vandalizar e realizar certas atividades. Quem vive perto cria um sentimento de alguma insegurança.

Há guetos na cidade?

Há sempre zonas mais difíceis do que outras.

Qual a zona que é fonte de maior preocupação?

Depende do que estivermos a falar. Por exemplo, em termos de garantir uma maior visibilidade, preocupa-me o centro da cidade. Há muita gente, muitos turistas, e temos sempre de dar a melhor resposta a solicitações de vária ordem. É preciso antecipar e prevenir. A presença ajuda muito.

Tornou o seu “exército” mais humano?

Sim! Acho que conseguimos desenvolver, ao longo destes três anos, uma vertente ainda mais direcionada para a proximidade. Já existia. Não vim “inventar a roda”. O que estamos a construir em conjunto é uma maior abertura à comunidade e uma melhor explicação dos motivos pelos quais são adotados determinados procedimentos. O munícipe, cada vez mais, quer saber o porquê das coisas.

O que mais a surpreendeu no cargo que ocupa?

Surpreendo-me quase todos os dias.

É um bom sinal?

Penso que é um bom sinal, porque a rotina tem coisas boas, mas também nos pode levar à estagnação. Quando digo que me surpreendo, é porque tenho de estudar e investigar mais.

Ainda em relação à sua questão anterior... no geral... o que me surpreendeu mais... é uma boa pergunta e fiquei aqui “encavacada”, sem saber o que lhe responder...

É fácil ou difícil gerir a segurança de um concelho que abriga mais de 100 nacionalidades?

Relativamente fácil. Não sinto preocupação pelo facto de termos de conviver com pessoas de diferentes países. Está tudo tranquilo.

Em eventos de maior impacto, como a “Noite Branca” ou a “Braga Romana”, sai de casa mais nervosa?

Tenho muita confiança na minha equipa. Nela e em todos os que estão à nossa volta. Desde o Município, Proteção Civil, Bombeiros e Serviços de Iluminação, entre outros parceiros externos, que colaboram também com a PSP e a GNR.

O diálogo é fácil. Temos tido uma boa articulação.

Já viveu a experiência de uma desilusão no exercício das suas funções?

De certa forma, sim. Sem querer particularizar, numa corporação como a nossa, já com uma certa dimensão, é natural que haja pequenos conflitos. Para quem está numa função de comando, acaba por ser frustrante ver como uma pequena coisa insignificante pode tomar proporções maiores. Mas é normal isto acontecer. As pessoas convivem muitas horas umas com as outras, já se conhecem há muito tempo e é natural que haja este tipo de situações.

Quando tem pela frente os conflitos, como os encara?

Num primeiro momento, fico rabugenta e reclamo da situação. Depois passa, porque são situações normais de acontecer em qualquer corporação. Nada é grave.

Como é a “Andreia rabugenta”?

É uma pessoa que implica muito e que exige muito quando está nesse estado.

Sente ser sempre justa nas suas decisões ou houve já momentos em que recuou?

Não estaria a ser verdadeira se dissesse que sou sempre justa. No momento, acho que estou a agir de forma correta e a tomar a melhor decisão. Porém, já me aconteceu, e mais do que uma vez, reconhecer que estava errada. Quando estou mal com alguém, gosto de ir ter com a pessoa e pedir desculpa.

Não tem dificuldade em pedir desculpa?

Não. Eu sei que, às vezes, olhamos para a função de comando como aquele líder autoritário que não pode demonstrar um mínimo de emoção. Se calhar estou errada. Eu sou uma pessoa normal. Tenho os meus problemas como qualquer outra pessoa. Há dias bons e menos bons. Tento não descontar em cima das pessoas.

Separa bem a vida pessoal da profissional?

Faço o meu melhor. Esforço-me por isso. Nem sempre é fácil. Às vezes, acabo por transferir alguma tensão que possa sentir no lado profissional para o familiar.

Não sinto que haja uma “caça à multa”. No entanto, consigo perceber essa visão. Infelizmente, não é necessário fazer muito. Basta andar pelas ruas da cidade e verificar a existência de muitas infrações. (...) Não temos objetivos quantitativos. O nosso trabalho não pode ser avaliado apenas por números. O número, por si só, não é um indicador de que o trabalho está a ser bem ou mal executado.

Sente que há uma “caça à multa”?

Não, não sinto. No entanto, consigo perceber essa visão. Infelizmente, não é necessário andar à “caça à multa”. Basta percorrer as ruas da cidade e ver muita infração. Nem temos capacidade para lidar com tanta infração.

Há objetivos na corporação para multarem?

Não.

Concordaria se lhe fossem impostos objetivos para multar?

Não, porque o nosso trabalho não pode ser visto por números. O número não é um indicador de que o trabalho está a ser bem ou mal feito.

Consigo concluir que Braga é hoje um concelho mais seguro?

Não diria que está mais seguro comigo. Está mais seguro com a Polícia Municipal que temos hoje. O comando é apenas parte da equipa.

A Polícia Municipal tem competências limitadas. Isso compromete a eficácia no terreno?

O que nós sentimos muitas vezes na rua é que as pessoas não respeitam a farda. Também já assistimos a situações em que dizem: “Eu vou chamar os polícias a sério!”. Nós somos polícias a sério, que não haja dúvidas.

Noto que ainda há muita gente que não nos leva a sério.

Fica chocada com esse tipo de comportamento cívico?

Sim, choca-me. Não é fácil lidar com isto. As pessoas aparecem com uma atitude mais agressiva e acham que podem dizer tudo, sem terem qualquer tipo de consequência.

São-lhe reportados episódios com frequência?

São. Infelizmente, com muita frequência.

Como se inverte este cenário?

Apostando mais na comunicação e abrindo-nos mais à comunidade. Dar a conhecer aquilo que fazemos.

A Polícia Municipal de Braga é uma estrutura fechada?

É. Ainda não teve grande oportunidade de abertura. Temos de começar a trabalhar nisso. Estar mais expostos. Dizer quem somos e o que fazemos. Assusta um pouco porque as pessoas podem interpretar esta postura como um sinal de fraqueza.

Defende um reforço de poderes para a Polícia Municipal?

Temos as competências necessárias para aquilo que fazemos no dia a dia. Mesmo em situações de flagrante delito, podemos atuar, salvaguardar as provas e proceder à detenção das pessoas.

A videovigilância é muitas vezes debatida. Está a favor de mais câmaras em Braga?

Não sei se é por defeito de profissão, mas não consigo ver o mal num sistema de videovigilância. Claro que a sua finalidade tem de ser claramente explícita. Não pode haver dúvidas sobre quem está a operar o sistema. Temos de ter essa garantia.

Que opinião tem sobre a Inteligência Artificial (IA)?

Estamos num mundo onde são manipuladas imagens com um realismo assustador. Olho para isso com alguma apreensão. Por brincadeira, já testei algumas aplicações de IA e os resultados são impressionantes. Confesso que ainda não estou muito preparada para este “novo mundo”. Admito que ainda sou um “velho do Restelo”.

Entende que a tecnologia é um bem inevitável ou um mal irremediável?

Boa pergunta... Acho que é um pouco das duas coisas. Por um lado, a tecnologia veio ajudar-nos em muita coisa. Na nossa área, ajuda bastante, principalmente na investigação e na prevenção. Por outro lado, pode ser prejudicial porque nem sempre é utilizada com um fim positivo. Hoje pode alterar-se uma conversa, um som ou uma imagem com enorme facilidade... é assustador.

As redes sociais são outro exemplo. Bem utilizadas, tudo bem. O que se assiste, infelizmente, é a pessoas a destilar o ódio que têm dentro delas.

Qual foi a decisão mais difícil que tomou enquanto comandante da Polícia Municipal de Braga?

Todas as decisões que têm a ver com recursos humanos. Há decisões que, por vezes, acabam por prejudicar alguém. Aconteceu num procedimento interno que implicava alterar alguns serviços que prestamos. Tive muitas dúvidas. Pedi apoio e esclarecimento jurídico para ter a certeza de que a minha decisão era a correta.

O que nós sentimos muitas vezes na rua é que as pessoas não respeitam a farda. Também já assistimos a situações em que dizem: “Eu vou chamar os polícias a sério!”. Nós somos polícias a sério, que não haja dúvidas. Noto que ainda há muita gente que não nos leva a sério.

Tira-lhe o sono?

Tira. Tudo o que mexe com pessoas. Acho que, quando perder esta característica, deixa de fazer sentido o que estou a fazer e estar numa profissão desta natureza.

É uma pessoa mais afetada pelo lado humano ou pelo lado legal?

Humano, porque nem sempre as duas dimensões estão alinhadas. No entanto, o que me rege é o lado legal. É uma “linha vermelha” que não ultrapasso.

Voltaria atrás com alguma decisão que tomou?

Conhecendo a realidade que hoje conheço, voltaria atrás em algumas situações. Desde logo, no início, enfrentei um contexto onde não conhecia ninguém. Poderia ter tomado decisões mais cedo, que só vieram a ser colocadas em prática mais tarde.

É uma mulher mais feliz desde que assumiu o comando da Polícia Municipal de Braga?

Sou uma mulher mais realizada profissionalmente. Uma mulher mais consciente, mais experiente e com uma perspetiva diferente da realidade. Sou mais conhecedora, embora tenha ainda muito para aprender e explorar.

Mais completa?

Sim.